Fim de Ciclo

Por dias estes me incomodam um tanto de coisa. Um travo amargo de gueroba. Coisas que me deram as mãos por toda uma vida e que hoje se despedem de mim sem ao menos acenar seus lenços. Por dias estes por ser por estes dias o pontapé inicial do massacre midiático do carnaval, de que procuro me abstrair, embora de todo impossível. Tenho carinho por carrada de gente que entroniza o carnaval no altar de suas querências. Sou carioca, sei da importância cultural e econômica, da beleza extasiante das representações, das expressões populares em epifania deslumbrante. Mas não gosto do frêmito carnavalesco, da necessidade de ser espalhafatosamente feliz. Desgosto também de sua estridência. Também por estes dias a imprensa, por força do avanço da extrema direita no mundo, vem cuidando de especular sobre as consequências devastadoras do tsunami anti-humanitário na internet e do Armageddon do aquecimento global. A guerra da extrema-direita é contra a sensibilidade. O objetivo: desumanizar a humanidade até o ponto em que a barbárie se rotinize. Isolar-se do carnaval tal um ingênuo Robson Crusoé transgressor do senso comum não é tarefa de empresa desprezível. Por qualquer lugar onde enfiemos nossos traseiros em busca de um sossego de encomenda, por conta de uma leitura ou fazença de nada, há no alcance de nosso perímetro auditivo um baticum. Ainda que imperceptível para os normais, pra quem quer sossego, estorvador. O mesmo com a internet, enredados que estamos em seu campo de força. Naquela pátria da estupidez, ruminação de ódios e reverberação de platitudes, impressiona o que seu arrasto vem impactando as famílias e as rotinas das famílias. De enrugar pra mais de palmo de testa.

Em minhas navegações recorrentes pela rede, torna-se impraticável não se dar conta de que estamos no viger frenético da inquietação vestibular da celebração momesca, o último ato pagão antes da Quaresma. Isso se ainda houvesse por parte de qualquer católico de catecismo contrição e renúncia nos protocolares quarenta dias que antecedem a Páscoa. Raros os católicos que renunciam na conta certa, quando a renúncia lhes é imposta. Mas o exagero que a antecede como álibi para a renúncia que não se dará se toma de exagero de hipérbole. Isso de minha conta não é, não fosse pelo baticum. Vamos então às coisas que por função de fim de ciclo têm por estes dias, em que a cara rugosa da finitude vai ganhando contorno no espelho difuso de minhas apreensões, me impingido angústia. As coisas: peitos caídos, comercial de trinta segundos, celulite e almoço em família.

As mulheres que vicejam nas redes sociais e no reinado da folia não são mais mulheres como as que aprendi a conceber e admirar. São sinuosos montes de carnes esculpidos a bisturi e flagelo de academia. Coxas de manga larga, tornozelos de percheron, abdome pétreo, peitos inflados. É bom, mas como ensinam os goianos, se é muito, é demais. Mulher de hoje em dia não acusa mais o gostoso passar do tempo, quando o tempo passa na medida em que as coisas valem pros seus objetivos. Não quando encarquilhamos, que já é de um outro tempo o que importa. O tempo de lembrar que o senso de ridículo deveria nos conter pelo avanço irrevogável do enrugar amarfanhado da pele e do humor. Falo do tempo em que a mulher se assume madura e começa a dar os frutos preciosos de sua maturidade. Um peito languidamente caído aqui, uma celulite ali. Uma ou outra ruga, um conversar cadenciado, um pertinente cacoete maternal, um lago canadense de bom senso. Elas ficam ótimas quando por esse tempo vicejam. Plenas e imperiais. As mulheres de hoje não mais cultivam suas marcas, repudiam-nas tal cicatrizes. Não sabem o mal que fazem em nos privar de suas dobras sensuais e pedagógicas. Quero de volta os peitos caídos na conta correta das mulheres maduras, a testa franzida pelo estranhamento de um galanteio. Se os peitos que seguram delicadamente um lápis em sua dobra inferior são obra do tempo, a celulite é mais obra de Deus, pois não poupa idade e xeipe em sua celebração. Até nas marombadas ou esqueléticas ela surge solene, invencível, a permitir – não é não! –  um consentido toque suave onde hoje as mulheres só cultivam carnes duras.

Já a internet, com seu evangelho estridente, tratou de empurrar para os quartos os filhos que se sentavam à mesa para nos ouvir em nossa cagação de regra, rito de passagem para muitos torturante, mas em certa medida necessário. Não sou de babar filhos, por respeitá-los em suas circunspecções, mas sempre gostei de vê-los próximos, lembrar-lhes coabitantes da mesma casa e circunstância. Hoje, impossível. Os pais os veem de pouca vez. Uns, apenas na frequência das idas à geladeira, onde se prostram observadores do conteúdo refrigerado, diletando sobre o que levar para o quarto enquanto a conta de luz sobe aos píncaros. No quarto, alternam-se entre o celular e piscadelas nos streamings, com os filmes e séries fragmentadamente consumidos enquanto despejam pelo chão dejetos de sua compulsão pelos processados. Nem sempre eram de paz os almoços familiares do meu tempo. Seguiam um rito patriarcal na licença das manifestações dos filhos e matriarcal no domínio da cena. Havia restrições ao instinto selvagem de criança meter o bedelho em conversa adulta. Mas, quando liberadas, toda a confusão criava um caldo afetivo abarcador. Compunha ritual renovado para reforçar em todos uma sensação de pertencimento a um núcleo funcional. Ainda que muitas vezes sob o manto do cinismo e da conveniência institucional. Eram bons os meus, desde que não atrasasse minha volta à rua, meu habitat. Hoje, os jovens se confinam em seus quartos e em seus sestros, travados na cadeira diante de uma tela que lhes traz e empurra para um mundo de superfície. Foi dessa pressa em reduzir o tempo de atenção para ter mais tempo para jogar fora em outras desatenções que surgiram sites feito o TikTok. Redes que trouxeram o limiar de desatenção dos jovens para cada vez mais baixo, e com isso engajando milhões com idiotices de tempo curtíssimo. 

Quando as mega conexões se tornarem defôs, com rilôdis instantâneos, nenhum jovem, no frenesi da navegação, estará disponível para dedicar trinta segundos de atenção a coisa alguma. Tudo em segundos se tornará velho, antes mesmo de ser metabolizado. Perderão. Não viverão a experiência de saber a hora de dormir sem esperar mamãe mandar; de imaginar viagens que nunca fariam pela estrela brasileira no céu azul, com pratos de louça e talheres de prata; de vagar ideias de um dia namorar a menina do primeiro sutiã; de se proteger do frio que não adiantava à porta bater, que, pelos cobertores da Pernambucanas, não deixávamos entrar; de viver a incrível saga de Urashima Taro; de insaber dos malefícios da cafeína ao tomar um, tomar dois, tomar três porções de Café Capital, porque bom mesmo era tomar Café Capital outra vez; de saber seu pai desamarrotado no trabalho ao usar a roupa que permaneceria passadinha feito folha de papel no inevitável senta-levanta; de ouvir o mugido da vaquinha Mococa apregoando a pureza de seu leite tornado pó; de se comiserar da barata que desfalecia angustiadamente à ação do inseticida; de conhecer as exóticas 1001 utilidades do Bombril; de especular uma improvável bicicleta ao assistir ao garotinho do anúncio apelando aos pais para não esquecer da sua Caloi, coisa que por prurido crianças como eu jamais faríamos com os velhos em sua lida de tocar a família; de aprender com o Fusca que muitas vezes a funcionalidade nos traz mais respostas que a frivolidade. Tempos em que, apesar de milhões de brasileiros não terem acesso à tevê, muito menos ao que as tevês vendiam, os reclames ainda assim marcavam culturalmente as trocas sociais, emulavam brincadeiras, geravam status aos que os decoravam e os reproduziam com entonações certas e riqueza de detalhes. Eram mais que assuntos, códigos para a vida vivida nas ruas. Comerciais que juntavam as famílias em prazer compartilhado, quebrando deliciosamente a rotina da escassa programação da tevê. Já foram. Agora, sobra apenas o melancólico balé da morte dos comerciais de 30 segundos que ilustraram nossas vidas de desejos tangíveis e idealizados, fragmentos delicados que trouxeram ao imaginário coletivo uma sensação de que as boas coisas do mundo estavam ao alcance, ainda que para muitos inacessível. Pedacinhos de atenção que capturavam a criança em mim para um ambiente de magia e ludicidade. Pasárgada particular. Um lugar pleno de encantamento, em que a diferença entre realidade e imaginação pouco importava, era só se libertar das amarras objetivas. Por mais que por instinto de sobrevivência o aparato tecnológico à disposição dos criativos tenha se sofisticado, que os comerciais carreguem mensagens cínicas cobertas de glacê humanitário no ato de contrição de capitalistas predadores, quase ninguém está mais dedicadamente aberto a qualquer mensagem visual que demande 30 segundos de atenção. 

Não sei se sobreviverei à abstinência de peitos caídos, ao sepultamento ordinário dos almoços em família, ao féretro dos comerciais de trinta segundos. Talvez sobre a santa celulite, um dos meus altares.

Nem mesmo sei se sobreviverá por tempo de muito este mundo trevoso que derrete e inunda sob as consequências de nossas irresponsabilidades, mas se não, que guarde uns cantins de conforto para dinossauros perseverantes.


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Comentários

2 respostas a “Fim de Ciclo”

  1. Viajei com seu texto! Quantas lembranças deliciosas eu revivi! Demais!!👏👏😍

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