Domingo. Carrego um coração crivado de culpa e passivo de ingratidão. Não são sentimentos que se instalaram sem que eu lhes oferecesse resistência. Recuperar no emaranhado da memória os sinais furtivos de que devo ser menos cruel comigo tem sido luta épica. Sem opor aos sentimentos que me sufocam os resíduos do meu melhor, que habitam fugazes o caos de minhas lembranças, os sentimentos dominantes se instalarão em mim com a fúria devoradora dos grileiros. Mas devo reconhecer tratar-se de luta inglória.
Encontro-me renitentemente refugiado em mim, fora do meu país sendo eu mesmo meu país. Cinicamente insisto em ser feliz na impossibilidade. Procuro colher ameixas no agreste ou castanhas em vales serranos, observar o voo caudaloso da revoada de andorinhas nos polos ou o andar chapliniano de pinguins no cerrado. Mas a felicidade não me faz dela cativo, posso viver sem ela, às vezes penso até que mais me atrapalha. Aprendi a gostar desse jeito, a me satisfazer sem as rédeas vulgares que nos levam à felicidade banal. Neblinoso, me espanto diante de pessoas solares, do entusiasmo pela luz em estado exuberante. Prefiro a luz diáfana, que menos ilumina que acumplicia a escuridão. Deslocado, vou escalando as montanhas disformes de meus delírios me agarrando nos pinos de sustentação que prometem me manter vivo. Ao envelhecer, a morte, antes um borrão, vai ganhando feições definidas. Por pulsão, sinto-me mais instado a acariciá-la que a lhe ter pavor.
Muitos da minha caravana existencial me deixaram e continuam me deixando. Pais, irmão, amigos. Por vezes, ao reagir à morte, ziguezagueio por savanas, exposto a predadores e à inclemência do sol que tanto me suplicia. Por outras, por terra encrespada, com nesga de sombra cá e ali, impotente diante da chegada de primaveras inúteis. Ainda tateio silhuetas de esperanças recalcitrantes. Sinto mais incômodo que alívio. Somos um silo de acasos, só temos sobre nosso destino uma única decisão discricionária: escolher a hora da morte. Não deixa de ser uma forma de poder. Ainda que uma forma de poder com o sentido de ter pelo apertar de um botão um míssil nuclear com capacidade de destruir o planeta várias vezes. Tem-se a posse, mas o uso avassala o sentido de consequência.
Encontro-me conformado de minhas boas razões para manter a ideia da morte num escaninho seguro de minhas opções. Não vou exercer esse poder. Para ser feliz, não careço de felicidade. A maravilha de acompanhar no correr dos dias as conquistas proverbiais ou portentosas dos filhos que ainda me orbitam não consegue compensar completamente a dor excruciante da ausência dos distantes. Mas são maravilhas. Tenho ao lado uma notável companheira vocacionalmente dotada do senso de ser feliz. Imagino sua angústia ao conviver com alguém que escarnece da felicidade, que a julga dissimulada e inconfiável. Ao meu redor, uma irmã que amo e que me dá todos os dias ensinança de vida para muito longe de almanaques. Uma tarde ou noite extática por um gol do meu Fluminense. Sim, tenho grandes amigos. Amigos de uma vida. O burburinho diário de suas vidas me faz feliz ao meu modo. Prefiro desconhecer o que dizem de mim os que me amam, temo por danificar as âncoras restantes. Amar não assegura imunidade em reconhecer defeitos. Já pago um preço alto pelo furor de sensibilidade que me faz chorar diante da tragédia ou de uma pequena vitória pessoal. De uma música ou um texto comovente. Do sofrimento de um semelhante. O mundo em que os sensíveis estão estigmatizados pela ideia da fraqueza de espírito, que a opressão e a discriminação sobre as minorias ganha status de masculinidade social, esse mundo é uma merda.
Não vou desistir dele, mas, se um dia levarei saudades, carregarei também alívio.

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