Desconexas 05

“Durmo com a vida e a morte na mesma cama” 

(Bob Dylan, em “I Contain Multitudes”)

Quando as luzes do quarto se apagam prenunciando o que deveria ser descanso, acendem em mim os monstros guardados do dia. Meu torpor de mar de enseada, em preempção, me leva bruscamente a mar aberto, com ondas de pavor que jamais alcanço no tentar trespassá-las. Nada me retira do claustro de angústia em que mergulho ao contato com o travesseiro. Os que amo me vêm à memória em máscaras gualtematecas, as montanhas de minha calma abandonam sua orografia tépida e se tomam de formas e movimentos intimidadores. Objetos do quarto ganham vida inquieta, se animam como a procurar contato que me distraia do que tenho ali a fazer. Tudo se superlativa, ainda que preocupações proverbiais. O menor ruído soa como trovão de mitologia e meu peito dispara em percussão desesperada. Imagens que aparecem em minhas alucinações ganham lógica perversa, impondo-me aceitação de seus absurdos. O transitório nidifica, o definitivo se afasta. Penso em coisas desconexas, como se as mulheres em quinhentos anos ainda terão ancas largas se desistirem de ter filhos. Especulo sobre a abdução de boletos a vencer no dia seguinte e muitas vezes me levanto de madrugada para pagá-los em defesa de precária sanidade. Repasso interminavelmente o elenco do Fluminense procurando em cada repasse alguma centelha de esperança. Me estresso em remoer que na minha idade o Bradesco Saúde vai forçar serrar meu peito quando já há solução muito menos agressiva. Vou muitas vezes ao banheiro como forma de fugir furtivamente do catre opressor. Confiro um sem número de vezes se a porta da casa está fechada e, embora sempre esteja, continuo desconfiando que não, para poder a ela voltar. Minha cama se faz antessala de abismos renitentes, de madrugadas irrigadas pelo frio do suor intromissivo. Dormir, um acaso inaceitável para o tudo que permanece vivo ao meu redor, quando deito. Padeço nas horas dos dias da aflição pendular da escolha entre a demência dos ansiolíticos e a das noites indormidas. Ainda que torto de sentido, não há margem no caminho. Se durmo, acordo surpreso, com o peso nos ombros de uma cordilheira nepalesa.

—–x—–

Não tenho o que reclamar: indurmo bem. 

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Queria de vez trocar o dia pela noite. Minhas manhãs, que não são as manhãs dos que se empoleiram em transportes desumanos para a lida bruta dos dias, correm afoitas. As tardes caminham desansiosas, transição para o compasso vagaroso e acolhedor das noites e madrugadas. Mas se me obrigo à cama por conta de compromisso de dormição, a insônia acelera o relógio trazendo a angústia das manhãs prematuras.

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Dormir é vida. Interrompida.

Ao boa noite, indormir.

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Vidros revelam, anticortinas. 

Vidros trazem luz que escancaram incoveniências. 

Vidros nos lançam para fora da vaga certa de nossa frouxa privacidade. 

Os vidros da minha casa revelam morros que desenham paspatures de uma nave espargida contra a imposição do horizonte. 

De dia, concreto; de noite, alucinares. 

Há rampas dessa nave que pelos vidros se derretem contra a arquitetura emergente, útero de grifes inalcançáveis.

Não vejo daqui, pelos vidros, camelôs ou bordadeiras, sorvetes ou armarinhos, pessoas ou cães com as pessoas, sequer percebo roedores.

Vejo profundidade incômoda.

Sou um mil réis de cofre.

Fechado em impotência e credo.

Um Taj-Mahal de lego.

E o sono não vem.

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Há certas noites em que dormir é um fardo, um abandono, uma renúncia, um deixar o que não se quer deixar. Um movimento mecânico, um ver a cama feito um BRT atrasado, um metrô lotado, um elevador claustrofóbico. 

—–x—–

Comecei a fazer umas conservas em casa e agora estou obcecado com essa função. Mal consigo dormir pensando em como atenuar a acidez do tomate, o azedume da berinjela, a cica da abobrinha, o caráter forte do shitake, a aspereza do jiló, a intensidade do aji molido, a absorção da couve-flor.

E sono não se achega.

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Nada melhor que essas Olimpíadas de Inverno para assistir antes de indormir. As imagens são lindas, e nos fazem sonhar com temperaturas polares enquanto o maçarico do Rio nos castiga com o clima do inferno. Há momentos em que nos envolvemos tanto com as imagens que desligamos o ar-condicionado na esperança de que a tela gelada nos refresque. Mas qual o quê. O calor volta impiedoso e nos empurra pro consumo aloprado de kilowatts.

Os esportes são perigosos, e aquelas pessoas são definitivamente diferentes de nós. Não são da nossa espécie. Imagino-os desde crianças comendo corn-flakes anabolizados embebidos em mel de abelha canadense, carne de alce, bebendo leite de elefante-marinho.

São destemidos. Tem um daqueles esportes malucos em que os caras se jogam de uma rampa com 140 metros de altura, descem uns vinte metros, e dão um primeiro salto com não sei quantas piruetas, para depois descer a mais de 80km/h, desviando de um monte de calombos em sequência intervalados por distância ínfima, e enfim dar um outro salto com não sei quantas piruetas mais uma.

São desvairados no que fazem, um fazer quase tão perigoso quanto passear no Aterro à noite.

—–x—–

Eu gosto do curling porque o curling me lembra preguiça. Um idiota da objetividade poderia contra-argumentar que não, que o curling requer concentração, disciplina e até mesmo preparo físico. Mas tudo no curling lembra preguiça. Tem aquele jeitão de bocha, esporte em que os velhos no interior passam o tempo enquanto sentenciam com “é tudo filho da puta” qualquer incauto que seja citado em suas prosas modorrentas.  O curling pode ser praticado ao sabor de um fumo mascado ou mesmo de um gole ou outro de cachaça, ou vodka, no caso dos gringos. Tudo nele é lento, parcimonioso. Do jeito que pensei a vida pra mim. Quando o jogo enrola, tem que medir uns pedacinhos de chão pra ver quem mais se aproximou do objetivo. Ainda tem a gostosura de poder jogar só pra atrapalhar o outro. Quebra por um átimo a indolência aquele varrer frenético de um maluco que vai na frente do bólido tirando os cistaizinhos de gelo que vão se formando. Mas fica engraçado.

O homem nasceu pra preguiça, Graças a essa vocação natural, se tornou inteligente e inventou a tecnologia. Tudo na tecnologia é pensado pra diminuir esforço.

Quando eu retenho na mão o controle remoto e ao mesmo tempo vejo aquela traquitana deslizar sonolenta sobre o gelo, eu me sinto moderno e ancestral.

E quase consigo dormir.

—–x—–

Me enredei com tentando entender quais os motivos que levaram alguém a inventar uma camisinha com sabor de maconha. Ainda assim, passei a especular que outros sabores e para que nichos alguém poderia inventar outras camisinhas.

Para os muito, muito idosos, sabor cocaína: fim de carreira;

Para os priápricos, sabor Rivotril: acalma o revestido;

Para os precoces, sabor crack: morre rápido;

Para os inseguros, sabor heroína: injeta confiança;

Para os hipocondríacos, sabor metanfetamina: é o remédio;

Para os insones, sabor café: mantém acordado.

Para os edipianos, sabor éter: lembra o parto.


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Comentários

Uma resposta a “Desconexas 05”

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão

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