O Paradoxo de Humpfreys

Não é de hoje nem de ontem que um postulado, por sua complexa articulação conceitual, vem desafiando as mentes mais brilhantes da ciência. Falo do Paradoxo de Humpfreys. Nascido em Birmingham no primeiro terço do século 20, Angus Humpfreys foi um prodigioso pensador sobre antagonismos endêmicos de teorias científicas. Seu pai, William Humpfreys, vendo no menino Angus qualidades incomuns, o encaminhou ainda cedo para a universidade histórica da cidade, um centro de excelência reconhecido em todo o mundo. Cercado por uma congregação de sábios, Humpfreys ganhou tônus intelectual e deu início a notável produção científica. Na joia de Edgbaston, formulou vários tratados, entre eles o famoso Paradoxo. O Paradoxo de Humpfreys quebra a norma comum dos paradoxos por sua…

Não, chega. Vou parar por aqui, não vou levar essa farsa adiante. Preciso ser honesto: não existe Angus Humpfreys. Por extensão, inexiste o Paradoxo de Humpfreys. Inventei esse subterfúgio para me fazer crível, respeitado em meus argumentos empíricos, frutos da observação preguiçosa do passar do tempo, o que só se consegue se nos dedicarmos espartanamente à tarefa da contemplação vadia. O Paradoxo de Humpfreys é na verdade o Paradoxo de Beto Sales. Mas quem o levaria a sério se fosse batizado em cartório científico com o meu nome, um nome da planície das ideias? Tomei emprestado o nome Humpfreys da milagrosa Maravilha Curativa que servia de loção pós-barba ao meu saudoso pai. Maravilha Curativa de Humpfreys. Curava mais pela pretensão do nome do que pelos benefícios reais de uma panaceia que se apresentava como maravilha curativa. Já que meu o paradoxo, passo de imediato a seu enunciado. Vai com aspas, como se citasse a mim mesmo como alguém que deseja ter mais importância do que se lhe atribui: “Quanto mais se abrir o Fluminense (vale para qualquer clube social dos grandes times brasileiros) para a participação eleitoral condicionada dos sócios torcedores, mais o processo reproduzirá a conjunção das forças paroquiais do clube”. Parece um paradoxo, não é mesmo? Por isso o título paradoxo. 

Despreciso devorar um Bobbio ou uma Harendt para entender que toda forma de poder se escora no princípio da dominação, da submissão de outrem aos desejos dos poucos que se apossam dos instrumentos que materializam a dominação. Não importa o protocolo em que se assentam as formas de dominação dos poucos que representam muitos sobre esses muitos. Tanto faz democrático ou totalitário, sempre uma questão de dominação. Ainda que o poder se dê no plano concreto, sua força se concentra em seu significado simbólico. Aí vem o interessante. Quanto mais restrito é o ambiente onde se dão as relações de poder, mais cruenta a guerra por ele. O cosmos dilui, a paróquia concentra. Seja lá o que quis dizer com isso, o fato é que o Fluminense sofre de uma anomalia de representatividade. Sócios de um clube de bairro, em convescotes de saunas e churrasqueiras, conspiram alianças inimagináveis para manter sob seu controle um condomínio que afeta a paixão de milhões e lida com cifras brutalmente desproporcionais ao ambiente de paróquia. Não é preciso que sejam muitos, só é necessário que sejam bastantes. Uma concessão aqui a um movimento, outra ali a uma facção, mais ali aos esportes olímpicos e similares, um pouco mais do mais ali a blogueiros influencers, e assim o poder vai se reiterando por suas expressões que só se dissimulam antagônicas para garantir benesses de qualquer ordem, materiais ou simbólicas. Ainda que se amplie o colégio eleitoral para os sócios vinculados a programas especiais de associação do tipo sócio torcedor, isso é de fato democratizar o processo? Pelas condições em que isso se dá, penso que não. Em primeiro lugar, porque o sócio torcedor que vota não pode ser votado, o que já restringe o alcance democrático do modelo. Em segundo lugar, porque os requisitos para que esses sócios votem são higienizados por restrições: dois anos de associação, adimplência, presença física na votação e outros. Na eternidade de dois anos, a margem de cooptação se amplia perniciosamente. Outro fator que protege os interesses dos grupos paroquiais da “nociva” influência dos milhões de torcedores está na própria volubilidade desses torcedores, em seu imediatismo. Ou alguém acha que com o time rendendo em campo algum torcedor deixará de referendar o status quo? Sem acesso a informações essenciais, que se confinam no âmbito de um conselho deliberativo de áulicos, o torcedor julgará a competência de uma gestão pelo resultado no campo. Pior, pelo resultado no campo do tempo presente, descolado da imprescindível visão de sustentabilidade. O torcedor não considera o futuro, não é de sua natureza. Somos apaixonados. A paixão encurta a memória. O torcedor se assusta com a ideia de que o clube de sua paixão tenha dono. Esquece que no associativismo baseado em um presidencialismo discricionário, o clube tem dono. Vivi nos anos 1990 o pavor de ver o Fluminense acabar. Aprendi que torcer vai muito além do que vibrar com o resultado imediato, torcer de verdade é desejar um clube sustentavelmente competitivo.

Durante tempo de conta, antes que a nova realidade do futebol brasileiro se impusesse com a força do inevitável, havia muita gente boa que acreditava que o caminho para a mudança passava por se associar, montar chapa e ganhar a eleição. Sempre fui absolutamente cético quanto a isso. A oposição de hoje, para ganhar as eleições, inevitavelmente recorrerá às mesmas alianças que levaram ao poder a situação a que momentaneamente se opõe. Só acredito na mudança pela revisão radical do marco regulatório do esporte no Brasil, pela alteração drástica do modelo de governança dos clubes, pela responsabilização civil e criminal dos cartolas quando produzirem prejuízos ao clube. E pela pressão incessante de fora para dentro contra o ambiente nebuloso onde todos se protegem de seus erros por uma espécie de imunidade parlamentar. Resumindo o libreto: as mudanças só se darão num ambiente de incondicional profissionalização da gestão do futebol, mantendo-a imune às influências paroquiais, ao irresistível impulso dos abnegados em se sentirem prontos para um embate que sequer dimensionam em sua complexidade. Para sair desse impasse, a opção por uma das formas de SAF vai se impondo. O desafio é acertar no modelo. E acertar significa manter longe da gestão o poder paroquial atávico e fixar normas protetivas para a continuidade de instituições centenárias, com imenso peso simbólico e incalculável valor intangível. Um acurado estudo de mercado, considerando as experiências já existentes e a qualificação dos projetos e peso financeiro dos interessados, pode refinar esse acerto. Urge mudar, antes que o fosso entre clubes ricos e os frágeis associativos se estenda sem mais retorno. 

O futebol profissional envolve cifras impressionantes. Um grande negócio. Enquanto, nos grandes clubes, o futebol estiver submetido a um modelo de gestão onguiano, onde os executivos não se remuneram nem respondem pessoalmente por seus atos, prevalecerá uma contradição orgânica insuperável. Sobrevivem no mesmo organismo uma associação civil que recebe incentivos do governo e uma mega empresa que lida com orçamentos portentosos. No mesmo corpo institucional, um condomínio que responde formalmente apenas ao quadro social e a um conselho de pelegos, e um gigante corporativo com milhões de clientes fidelizados que movimentam números notáveis.

Não por outro motivo os interesses que gravitam em torno da gestão dos clubes muitas vezes se descolam dos de seus torcedores-clientes, e se prestam, pela opacidade, a fonte de aliciamento e corrupção. Não são os nomes que pesam, e sim o que há por trás dos interesses que eles representam. Quem recebe e por que recebe? Quem são os agentes que se beneficiam das ações dos dirigentes? Que grupos sustentam politicamente os candidatos e por que o fazem? Quem se locupleta, direta ou indiretamente, das operações no balcão de negócios das divisões de base? E por aí vai. No atual modelo, impossível encontrar respostas. Para agravar o quadro, os clubes profissionais vivem sob a regulamentação normativa de uma instituição bolorenta comandada por um presidium suspeito, sustentado pela troca de favores a céu aberto: a CBF. 

O Fluminense – ou qualquer clube de ponta – prescinde de uma personalidade messiânica que empreste abnegadamente sua “sabedoria” ao clube. O que o Fluminense precisa é se ajustar para não desmentir sua vocação de eternidade. Na nova economia, o dinheiro mudou de mãos, grupos tradicionais precisaram se adaptar para sobreviver às exigências dos novos modelos de negócios, à chegada avassaladora das big techs. Famílias que dominaram setores importantes da economia faliram implacavelmente. Tradição por si só não garante mais a continuidade das marcas. O Fluminense não pode se dar ao luxo de encarar seu futuro com o pragmatismo irônico de um Jorginho Guinle. Precisamos mudar para não sucumbir. Tudo começa por se libertar do modelo associativo, onde não há cobranças internas e responsabilização civil dos dirigentes. Um modelo em que a falta de compromissos com a sustentabilidade do desempenho esportivo, com a estabilidade do negócio, acabará nos levando à insolvência e a situações esdrúxulas como em 2024. Campeões da América, brigamos contra o rebaixamento no Brasileiro. Decorrência de ciclotimia perniciosa. Nada mais parecido com o que se combate hoje com o que iremos nos tornar amanhã, este o círculo vicioso do modelo associativo. Sem mudança, os erros irão se reproduzir, é da lógica do processo. 

Batemos na trave em 2024. Será que aprendemos? Que 2025 nos traga uma história diferente, comprometida com o futuro. Impõe-se criar agora as bases para nos mantermos competitivos sem lapsos temporais. Senão voltaremos à gangorra. 

Feliz 2025?


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Comentários

2 respostas a “O Paradoxo de Humpfreys”

  1. Avatar de Djalma Rodrigues
    Djalma Rodrigues

    O paradoxo, então, resume que, mesmo ampliando a base de votantes, o resultado seguirá o observado no concentrado, ou seja, quase uma identidade matemática.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Isso, nessa linha.

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