Desde menino me vi instado a apreender a essência das coisas pela linguagem codificada de minha mãe. Dona Juraci, de quem tenho uma sufocante saudade, era pessoa que reunia com versatilidade incomum ternura e rigidez. Dotada de fino senso de humor, rainha da sutileza em suas metamensagens, imperatriz do sarcasmo cortante. Desenvolveu com o tempo um código comunicacional sofisticado, que exigia dos filhos um apuradíssimo senso de dedução. “Heitor” – e era eu e não o meu saudoso irmão Heitor -, “pega aquela coisa com a menina lá embaixo”. E eu que me virasse entendendo que era comigo e intuísse o que era a “coisa” e de quem se tratava a “menina”. Com o tempo, eu e meus irmãos fomos lapidando a arte de decifrar as mensagens criptografadas de minha mãe. Minha irmã Heloísa, seu anjo dos anos crepusculares, tornou-se especialista nisso. Um talento. Não é que esse aprendizado tenha me levado a entender confortavelmente a Cabala Luriânica ou a ler sem engasgo a tradução houaissiana de Ulisses, de Joyce. Mas que ajudou, ajudou. Essa prática adquirida por imposição filial me trouxe alguns dissabores nas trocas sociais, quando pareço demonstrar impaciência com pessoas que demoram eras pra explicar algo que já entendi no meio da primeira frase. Se alguém comprou ou comprar isso como arrogância ou descaso, deixo aqui meu mais pungente pedido de perdão. Nem de longe é descaso, muito menos arrogância – sei nada de nada. Culpa do instinto de sobrevivência mesmo.
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Ano nem triscou e dezembro deu as caras. Mal chegou, já se apruma para deixar a sala. Queria amar dezembro, mas recebo dezembro como fardo gregoriano. O mês em que consumimos, sob o álibi da celebração cristã, culpas, mesuras, intimidades estranhas, tender e maionese. E recebemos como troco à caridade de manada um janeiro repleto de IPVAs, material escolar, IPTUs, matrículas, cartões de crédito bombados, saldos raquíticos. Sem contar que assistimos impotentes a nossas datas de nascimento se afastarem calendariamente do hoje já incômodo.
Gosto dos meses que são apenas meses, com seus dias passando em seu passar descompromissado, com terças sucedendo segundas, quartas depois das terças, sem que os dias nos lembrem que faltam dias para que eu me veja forçado a gritar minhas virtudes por uma imposição de um concerto tácito.
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Dia houve em que assisti estarrecido a uma entrevista ressentida do Fagner em que ele pesou a mão nas críticas ao Belchior. Ficou nítido seu acerto de contas por se sentir menos reconhecido que o bardo de “Como Nossos Pais”. Desnecessário. O Fagner surgiu como uma fagulha boreal, espargindo talento e estimulando inquietações. Chegou com Mucuripe, que compôs com o próprio Belchior, mas foi além, cobrindo de azulejo particularmente rascante e musical a dor seca da caatinga. Orós foi lindo. Não perdia um show do Fagner, boina guevariana, espargindo aridez e poesia. Sua adaptação de “Canteiros”, de Cecília Meirelles, embalou rodas de violão por um Brasil tocado de sentimento e desejo de mudar. O Fagner ainda fez algumas coisas muito boas. Fez a trilha de Joana Francesa, com o Chico, algumas belas canções com Abel Silva, Sueli Costa e outros. Depois, cedeu docilmente à imposição do mercado, não apenas gravando os bons Sullivan e Massadas, mas fazendo disso um discurso anti-estético muito perigoso para quem fez do Cariri um fenômeno pop. Dono de um timbre particularíssimo, sua voz rasga as frases, soa cortante e emotiva como poucos em nossa música.
Belchior continuou ali, naquele canto inacessível onde mora a diferença do talento bruto, esculpindo algumas das mais lindas letras da música brasileira. Dançou a valsa austera dos criadores libertários, foi um bálsamo para muitas almas sofridas, uma voz para a voz sufocada dos corações de quem ama e de quem se inconforma com o senso comum. Sublimou-se existencialmente e desapareceu, só voltando à cena pela morte inesperada. Elis, que sabia das coisas, fez a escolha certa. Ficou com o Belchior. Mas o Fagner é dos grandes também. Tempos depois, o Fagner se desculpou pelo erro. Melhor assim.
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Cansam pessoas que cultivam a infantilidade como estilo. Vacilantes, realimentam-se dos afagos que não demonstram mas cobram dos que os cercam. Viciados em reconhecimento, respiram por agrados. Cultivam canhestra propensão em desconsiderar o outro, para, depois, pelo gesto elaborado do arrependimento, receber mais atenção e afago.
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Pelé foi uma máquina de invenção de impossibilidades, elevou o futebol ao plano inescrutável da fantasia, deu sentido aos contos fantásticos da infância em que eu punha os pés. Sob sua magia, entendi duendes, bichos falando, bruxas bruxando, princesas catatônicas, sapos beijadores, árvores mal-humoradas.
Vendo-o jogar, tudo se explicava. Foi a minha máquina fantástica de Morel, do Casares.
Sua importância vai além do gênio que assombrou o planeta, nada nem ninguém foi tão universal quanto ele.
O mundo sem ele não se parece com o meu mundo. Perdê-lo me transportou a outro chão.
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Agarrar-se às qualidades, muitas vezes o caminho mais torto para se curar de um vício.
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Minha memória transita entre a de um Forrest Gump e a de um Mr Chance, aquém e além do jardim. Há horas em que penso ter vivido tudo, e de tudo pela fantasia ter sido motivo; e horas que me lembro apenas sentado no sofá vendo a vida acontecer, sem que possa interferir, pela imagem granulada de uma tv preto e branco.
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A Argentina fundou as bases de uma civilização moderna há mais de 100 anos. E se esforçou por um enredo de tango em desconstruir seus acertos. Refém dos sindicatos e de uma política protecionista com base em princípios esquálidos, Cristina foi uma Evita sem Perón, um Chavez sem petróleo, um Evo sem cocaleros, um Fidel sem Sierra Madre, uma estadista sem estado. O vestíbulo para a irrupção de um Milei, a tela em branco para a caricatura.
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Ainda cheirando à tinta, menino em busca de sonoridades, polifonia de sentidos e avessos das coisas coisadas, ouvi pela primeira vez Cat Stevens. Soou para mim tal um James Taylor rascante, um caminho de desordem tão desejado naquele tempo de incertezas simultaneamente fugazes e definitivas. Father and son me tirou do trilho, um manifesto cósmico de minhas perplexidades adolescentes. Guardei para sempre sua delicada rudeza. Choro inevitavelmente ao lembrar dela quando me ocupo de pensar meus filhos. Pouco depois, em 1978, recebo em susto a notícia de que Cat Stevens se convertera ao islamismo e interromperia o jorrar de compreensões com que me alimentava em cada música sua. Passou a chamar-se Yusuf Islam. Não foi o primeiro; antes fora o assombro Cassius Clay, meu herói particular, rebatizado Mohamed Ali. Ambos forjaram minha primeira relação táctil com esse mundo de fé etnográfica fundado nas franjas de Meca.
Fiquei esperando por uma vida o renascer de minhas expectativas pela eternidade apolínea de Mohamed Ali e pela simples notícia de um novo disco ao meu feitio do agora Yusuf Islam.
Aconteceu em 2006: An Other Cup. Já começa com um petardo irresistível: Midday.
Nada me foi tão reconfortante por aqueles dias de apreensão e desencanto.
Senti-me, ainda que por pouco, feliz pela reordenação do meu mundo. Áspero, mas seguro.
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Jabor sempre foi mais verbal que imagético. Até boa parte do seu cinema foi verbal. Tinha compulsão pela crítica de costumes e um desejo irreprimível de ser Nelson Rodrigues, em mudar o mundo com a próxima frase. Um vulcão em estado permanente de pré-irrupção.
Discordei muito dele, embora cineasta importante.
Lembro de uma noite no People, no Leblon. Show do João Donato, que começa com aquele jeito dengoso e minimalista do acreano. Muita gente mal-educada falando alto. Jabor interrompeu o show e pagou um esporro continental nos cafonas que não mostraram respeito a um dos grandes de nossa música. Ganhou minha simpatia. Nos deixou cedo.
Mas o que tudo fica de qualquer tudo, verdade absoluta: morrer quando não se quer é uma merda.
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Hoje, por ponto batido em minhas lembranças do engatinhar da vida, me lembrei de um grande artista do povo, um artista que vem à minha memória sempre que toca numa lista minha uma obra de um artista popular.
No dia de finados, por décadas, o túmulo mais visitado do Brasil não era o meu, creiam, era o de um dos maiores ídolos populares da história da nossa música: Paulo Sérgio. Foi o único artista brasileiro a levar o Roberto Carlos batizar um LP sem que fosse com seu nome: “O Inimitável”. Nada metafórico. Foi meu vizinho no Esperança. Gente boa, gentil. Acho que ele e minha irmã andaram se aconchegando..
Reouvir Paulo Sergio me cobriu de uma leveza que insiste em se manter de mim descolada. Lembrança que serve para nos tocar que a alma do povo brasileiro é muito mais complexa por sua simplicidade do que a alma de sua elite por sua mímica de sofisticação.
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O Natal se impõe por seu irresistível significado religioso, mas não vem sozinho, vem com muitos adereços. Uma data com força impositiva maior que qualquer desejo de desconsiderá-la. Marca simbolicamente a fundação do cristianismo, uma das três religiões abraâmicas. O vestíbulo da cisão entre os judeus, por parte deles aceitar Jesus Cristo como o profeta prometido nas escrituras. Os muçulmanos esperaram mais uns cinco séculos pela chegada do profeta deles. Com a ajuda da língua comum, disseminaram os ensinamentos de seu profeta entre os povos árabes e cultuaram as artes e as ciências. Expandiram-se para a África e tomaram parte importante da Europa. Influenciaram culturalmente o mundo. Já sua exegese fundamentalista, entendida pelo conceito semântico belicoso da Jihad, deu em bombas.
Para os cristãos o Natal tem profunda relação com a caridade, o altruísmo, o pensar no outro, fundamentos das mensagens de Cristo. Embora tomado do desejo de sermos o melhor de nós, o Natal guarda em seu dossel de sentimentos um estranho paradoxo. Desperta alegria e tristeza, prazer e melancolia. Há nessa tristeza um quê de culpa por negarmos os valores do Natal a maior parte do ano; e na alegria, a pulsão de não perder uma chance de parecer ser feliz, pois ninguém é de ferro. Excitados pelo simbolismo de um Papai Noel bondoso, sublimamos muito do que a essa ideia possa trazer distração. Quem se importa?
O cancioneiro popular expressa essa contradição com muita eloquência. No Natal de Assis Valente, a hipocrisia do Papai Noel onipresente e dadivoso é avassaladoramente destruída pelos versos “Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel”, e “Já faz tempo que eu pedi mas o meu Papai Noel não vem; com certeza já morreu, ou então felicidade é brinquedo que não tem”. No contraponto da sinceridade pungente da canção de Valente, temos a cândida e idealizada “O Bom Velhinho”, de Octávio Babo Filho: “Como é que Papai Noel não se esquece de ninguém; seja rico ou seja pobre, o velhinho sempre vem”. Já a torrente “Noite feliz”, adaptação de uma canção austríaca, de Franz Gruber, encerra a contradição nela própria. Uma melodia em levada de cortejo fúnebre, e todos, paradoxalmente, em tom de oração, cantando “Noite feliz”. A canção da Simone, na versão do Lennon, por me lembrar o concerto histérico do consumo em magazines e supermercados, só me deprime.
Nestes dias de reencontro com o espírito cristão que nos revisita com data certa, minha caixa de entradas está lotada de “Ofertas de Natal”. Não é novidade para ninguém que há tempos o Natal se mercantilizou, nada mais lembra sua essência, multidões saem às ruas como tarados em matinê. Um ritual patético. Que o Natal nos faça lembrar de seu sentido intrínseco: exortar o sentimento de caridade, empatia. Que o Natal – já valeria só por isso – nos faça entender que nenhum humano com compromisso com a vida que grita além da vaidade e dos valores mundanos poderá ser plenamente feliz se há irmãos que sofrem a dor da opressão e o flagelo da fome.
No mais, feliz Natal aos que me leem neste canto de mundo, seja lá o que entenderem como felicidade.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão