Pareidólito Geomorfológico

Garrava em quando menino especular forma em tudo o que forma não tinha por ter muitas. Faço-o no hoje também. Morava nos tenros anos em frente ao Pão de Açúcar, que jamais me inspirou pão a não ser pela parecença a muque com uma meia baguete queimada. Já ao aninhar-se ao Morro da Urca, o Pão de Açúcar formava com ele um desenho a ensejar as mais delirantes conjecturas de menino. Semelhava rinoceronte de barriga pra cima, elefante deitado, um eme com uma perna cotoca. Já na adolescência, viajei naqueles contornos por ilações mais testoterônicas. Mulheres de todo jeito e circunstância: fartos seios ou graciosamente miúdos, prontas, dominadoras, surpreendentemente receptivas, vaginas impensáveis. Isso no tempo de demorar no banheiro por conta de revista ilustrada de piada, de Fatos & Fotos de carnaval, de reclame de langerri. Para desespero dos coabitantes de um apartamento com banheiro único.

Sempre fui chegado a buscar nas coisas descoisadas o seu jeito de coisa certa. O que vi nas nuvens nem conto. Conversei com pedra e tronco por percebê-los gentes. Coisas se metamorfoseiam em caraminholas que moram em nossos desejos ou delírios. São estimulantes e inofensivas, já que reconhecidas apenas no mundão bom do imaginário, fora das regras mundanas. É assim que passa com toda gente que evoluiu em nossa penosa separação dos macacos, estes uma turma gente boa, que vive em harmonia e não carece de IPVA pra licença de dirigir cipó. Tá certo, vez por vez tem chimpanzé canalha e chimpanzé que come outro macaco por conta de variar cardápio. Mas canibais os temos em conta de porção entre nós. E canalhas, às carradas.

Não parou por aí o que vi. Vi espectros arautos em borras de café, nossas senhoras em bafo de janela, deuses insuspeitos em mancha de madeira. Vi mais. Santos de tudo quanto é ordem em areia cavucada, dinossauros em fumaça de cigarro, ogros em lascas de gelo juntadas, bacias hidrográficas em ululantes celulites esculpidas pela mão generosa de Deus. Vi calombos rupestres em musculaturas acintosas de mulheres não menos.

Garrei de mais ver. Vi caleidoscópios no espoco de flashes, teias descriativas em linhões de luz, lesmas em manchas de roupa, estrelas do mar em pingo de óleo pirotécnico, córtex cerebral em rocambole. Vi por mais. Mapas inescrutáveis em absorventes na cesta comum da casa, vulcões em erupção branca pelas manchas no lençol da véspera. E o que vi, vi por ter que ver, por precisão de encontrar no desatino as razões que me deserdaram.

O que me alentava era a experiência de dar forma ao vago ou caótico pelo caminho vadio da inconsequência, pra muitas léguas dos garrotes da ciência. Qual o quê. Minha ilusão mantida a chá de especiaria, que pensava estar à margem de qualquer tratado ou impulso taxonômico, tem nome e endereço de intromissão científica: pareidolia.

O meu rinoceronte de barriga pra cima esculpido pela paisagem em pedra de minha infância nada mais é que um pareidólito geomorfológico.

Que merda!


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Comentários

2 respostas a “Pareidólito Geomorfológico”

  1. Mais uma vez, brilhante!! Amei!!👏👏

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    1. Obrigado, linda. Beijo.

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