Exorcismo em Telêmaco Borba

Por conta de não se acabrunhar ou pisar terreno insidioso, não se deve dar chance a que o mal se engrace. É bom dele não espreitar conversa ou abrir flanco para que se achegue. Ainda que imprudência ande garrada com tentação, a ela há que se mostrar relutância. Não foi o que fiz, e paguei um tanto por isso. 

Foi em 1974. Por decisão desafortunada, caí na asnice de assistir a “O Exorcista”. Insurpreendentemente, não dormi na noite em que assisti, pra aprender a deixar de tirar por desassombrado. Foi chegar no quarto e danar de apurar em estranho frêmito o virar do pescoço implorando a Deus para que não passasse meia volta. A cama se transformou num poço de alucinações macabras, vômitos verdes cobrindo o chão com pelo menos dez centímetros de gosma maligna. Cada trisco de vento na janela e já imaginava o belzebu atravessando minha pele e violentamente me catapultando para o teto, com pedaços de mim caindo sobre a cama feito chuva de granizo carnal. Meu rosto estriado de sangue contrastava com o amarelo tépido do que sobrava de mim. Católico temente a Deus por inspiração e disciplina de dona Juraci, me vi naquela noite desgraçadamente frágil para conter as investidas do tinhoso. Um trapo indefeso. Nem sei como cheguei aos primeiros sinais da claridade divinal que vazou pelas persianas.

No dia seguinte tinha o compromisso de visitar a fazenda-fábrica de celulose da Klabin, em Telêmaco Borba. Compromisso de tempo marcado fazia tempo, de cumprimento sem volta. Fui indormido. Aos barrancos. O voo para Curitiba correu bem, mas foi tenso o trecho de Bacaxiri a Telêmaco Borba, feito num pequeno bimotor. Chegamos à fazenda por obra de alívio e dever. Cravado na mata de pinheiros que se estendia até olho não mais ver, um imenso e moderno complexo de produção de celulose com números e dimensões impressionantes. Dia de muito aprender, de atiçar curiosidade. Durante a visita, a companhia alternada de especialistas nos vários estágios do fazer de árvore papel. Impressionante o que se vê e o que se imagina ao percorrer o pinheiral entremeado por instalações monumentais. Mas veio a noite como todas as noites teimam vir. Jair, o simpático diretor da Klabin que nos acompanhou na viagem, me levou para o hotel da fazenda. O hotel, imponente, de desenho austero, já havia conhecido de dia, quando deixamos nossas bagagens e experimentamos as excitações dos chegantes. Ficava no meio de um bosque fechado. Sua arquitetura mal-humorada lembrava o Hotel Overlook, onde Jack Torrance cevou sua insanidade. Jair por lá me deixou não sem antes avisar que seria o hóspede solitário a dormir naquele prédio imenso e para mim, ainda sob o horror da noite da véspera, soturno. 

– Como assim, Jair?

– Só você, Beto, ninguém mais. Tem água, umas frutas e coisas básicas no quarto, fique tranquilo. 

Argumentei já em choque, lívido: 

– Jair, vi ontem “O Exorcista”, e não dormi um naco de minuto, ainda que estivesse num prédio com cem apartamentos ocupados. Como vou fazer pra dormir aqui?

Jair sorriu sardonicamente, pensando tratar-se, claro, de brincadeira. Me deixou no hotel sem fazer ideia do peso de seu gesto cortês. Com a noite chegando, o casarão se confirmou lúgubre como o célebre cenário de “O Iluminado”, de Stephen King. Antes, não satisfeito, Jair arrematou a conversa com um adendo apavorante: 

– A luz acaba às 22h. Até lá, o Ribamar estará por aqui – e me apresentou o vigia que espreitava a conversa. 

Eram 19h. Ribamar, minha última esperança de evitar o terror daquela noite. O solícito vigia guardava a bonomia dos interioranos, sempre sabendo coisa mais que as coisas que supomos eles saberem. Pensei na hora em oferecer uma paga pra ele ficar mais tempo, conversando comigo naquela recepção taciturna, quem sabe até 5h da manhã. Antes que pudesse dar cabo da proposta, Ribamar fulminou minhas expectativas:

– Doutor, espero que o senhor entenda, mas precisarei sair às nove e meia. Fica tranquilo que aqui é lugar de sossego, de noite só se ouve pio e rastejar de bicho. 

Nem de longe poderia passar pela cabeça do Ribamar o quanto aquele “lugar de sossego, de noite só se ouve pio e rastejar de bicho” me apavorou com a intensidade de um apocalipse zumbi. Pensei de imediato em trocar de estratégia e me oferecer para acompanhá-lo em seu carro até em casa e, estando lá, pedir por misericórdia que me deixasse dormir com ele e sua família. Mas Ribamar novamente me esfaqueou com notícia outra devastadora:

– Hoje até deixei minha bicicleta no salão de entrada. Vou voando nela porque a casa tá cheia. As duas irmãs de Dorinha, minha mulher, chegaram hoje de Guarapuava. Tá tudo amontoado por lá. Noite de festa e casa desalinhada. 

Caí na tragédia de minha realidade como de um pináculo himalaio. 

Fui para o quarto já em náuseas, imaginando quem limparia o vômito verde que eu, feito uma Linda Blair do pinheiral telêmaco-borbense, jorraria em ondas de Nazaré. E padre? Será que haveria um padre por perto caso o nem vou falar o nome tomasse meu corpo sob minha impotência e espanto?

Tentei em vão dormir antes das 21:30h. Nada. Quando as luzes se apagaram, mergulhei na mais arrepiante aventura de minha vida, jorrando litros de suor no frio da serra do Sul. O que vi e vivi nem posso confessar aqui por não se tratar de obra da razão. 

Dia seguinte, na volta, o tempo fechou. O pequeno bimotor sacodiu freneticamente por todo o voo de Telêmaco a Bacaxiri. O piloto, um alemão com tiques de neurose de guerra, não recebeu autorização para pousar. Insistiu com a torre repetindo sem parar que dava pra ter noção da pista. Noção?! No meio da névoa, o alemão embicou o avião como num Messerschmitt sobre Liverpool. Temi ser empresa ainda do assombro da noite anterior, mas pousamos sob obra de Deus, de quem fiquei ainda mais devoto e temente.

Quase 45 anos depois, quando soube da morte do grande ator sueco Max Von Sidow, de pronto lembrei que foi ele quem mais implorei a Deus para encarnar em meu quarto naquela madrugada macabra de Telêmaco Borba.

Em vão. 


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Comentários

2 respostas para “Exorcismo em Telêmaco Borba”.

  1. Hahahahaha!! Sensacional!!😅😅

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