A Namoradinha de um País com um Cemitério nas Costas

Os meus sábados de Friburgo se emolduravam por um céu feito de calda de chocolate – vez azul, vez cinza – derramado sobre morros densamente verdes que abraçavam um vale de arborização rala. O Vale do Stucky. Pelo vale corria riacho intermitente. Quando presente, serpenteava o vale feito um fio de vida. Tudo cabia na janela generosa do meu quarto. Sábados preguiçosos, ralentados pelos exageros da noite de sexta e vestibulares dos exageros da noite que aguardava ainda quieta, mas certa.

Sábados em que assistia, por bater ponto, ao “Inside The Actor’s Studio”, com James Lipton, acho que no canal Art. Tendo por cenário o palco do teatro do Actors, com duas cadeiras e uma mesinha central. Seco, minimalista, James Lipton desfiava sua gigabytica memória entrevistando ex-alunos que se fizeram gigantes do cinema e teatro americanos. Por fim, o entrevistado, depois de se submeter ao questionário clássico do jornalista francês Bernard Pivot, aplicado por Lipton, era sabatinado por novos alunos da lendária escola de teatro de Nova Iorque. O Actors foi o ninho do “Método”, criado por Stanislavski e lá adotado ferreamente por Lee Strasberg, o mafioso que em Cuba traiu o Michael Corleone no Chefão II. Obviamente, pagou caro. Não se trai um Corleone ou uma milícia carioca sem pagar o preço. O Método explorava os limites do naturalismo, a obsessão pela interpretação resultar de o ator assumir o personagem por completo, devorá-lo psicologicamente. 

Impressionava em grande parte dos entrevistados o nível de informação, a cultura dramática, histórica, o domínio básico das ciências sociais, como filosofia, sociologia, política, etc. A conversa fluía mansa, descoladamente natural. Atores falando de vida, de gente, de disciplina e de como a vida e a arte se confundem e se explicam pelas ciências humanas. Pois é isso o que atores verdadeiros fazem: tratar de vida.

No cenário dantesco que se instalou no Brasil pelo achincalhamento da empatia e demonização da política gestado nas manifestações orquestradas de 2013, entronizou-se um Tartufo enlouquecido, sem Moliére, encenando uma ópera bufa de ódio e negacionismo à ciência e ao humanismo. Foi nessa atmosfera assustadora que sua então secretária de Cultura, Regina Duarte, depois de repreendida constrangedoramente em público pelo chefe por bobagens comezinhas, resolveu conceder uma entrevista à CNN. A ex-Namoradinha do Brasil se viu numa encruzilhada de Mephisto, o clássico de István Szabó, sobre o livro não menos clássico de Klaus Mann: aderir à brutalidade ou ser pela brutalidade expelida. Optou por aderir, o que a levou à pior encenação de sua carreira. Provocada pelos entrevistadores, Regina chocou o país ao justificar a tortura, minimizar as aberrações da ditadura, as mortes dos tempos sombrios, e cantar animadamente o refrão de “Pra frente, Brasil”. Emendou com uma pergunta que soou como deboche mórbido – e que poderia se resumir em algo assim: “Tem coisa melhor que isso? Era muito bom”. Ao ser confrontada com as mortes da ditadura, reagiu histericamente: “A humanidade sempre teve mortes, onde há vida, há morte, isso é normal”. Não satisfeita, protagonizou um chilique patético ao ser cobrada por uma Maité Proença em ato de contrição. Arrancou de si os microfones, mas não sem antes sentenciar: “Vocês carregam um cemitério nas costas, vocês estão desenterrando cadáveres”. Foi rebatida prontamente pela jornalista Daniela Lima: “Não, secretária, não estamos desenterrando cadáveres, o Brasil está enterrando cadáveres”, referindo-se obviamente às centenas de milhares de vítimas fatais da Covid.

Ao naturalizar a morte, Regina esbofeteou a memória de gerações de grandes atores, atrizes e profissionais das artes cênicas brasileiras, patrimônio intelectual do país. Já ao não ter ideias concretas sobre que políticas o estado poderia adotar para apoiar a produção cultural, cruelmente atropelada pelos efeitos do necessário isolamento, cometeu brutal omissão, desfiou gélida insensibilidade. Mas atores, embora agentes de poderosa atividade econômica, não são banqueiros, não são próceres do agronegócio, não são industriais. Atores, artistas, são essenciais, mas numa sociedade humanizada.

Atores são, por definição proverbial, camaleões, mimetizam o personagem para se fundir nele. Tomam a essência do personagem não para dele retirar vida, mas para reinventar a vida dele como sua própria vida em cena. Sendo atriz, Regina, na pérfida entrevista, fez uso do “Método” às avessas, optou por ser camaleoa de si própria, extraindo a vida sombria que se escondia sob a pele, tomando a si o personagem cruel que a revelou em acachapante nudez moral. Hoje, a atriz vaga raivosa por sua vida atormentada. Quando não força engajar memes radicais patéticos, arrasta correntes nas redes sociais pela disseminação de ódio e mentiras. Erigiu com afinco uma caricatura grotesca de si própria. Seu novo público se esforça por merecê-la. Não são poucos, desgraçadamente.

Regina Duarte se fez Namoradinha do Brasil em tempo de opressão e medo. Obscureceu-se na democracia, mas à época da entrevista se sentiu autorizada a retomar seu posto. Atores falam de vida, espectros banalizam a morte. O Brasil que carrega um cemitério nas costas é outro Brasil, é o Brasil não empático que jamais encontraria, fora da atmosfera lúgubre de Regina Duarte, melhor representação de sua namoradinha.


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Comentários

2 respostas a “A Namoradinha de um País com um Cemitério nas Costas”

  1. OQue texto, Beto!! Melhor observação sobre a Regina Duarte que li até hoje!! Um espetáculo!! Parabéns!!👏👏👏

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