Maradona: O Mais Humano Dos Deuses

Neste outubro, dia 30, o gênio Maradona completaria a idade icônica de “When I’m Sixty Four”, gema do Paul em Sgt Peppers.

O futebol tem um Deus de Olimpo – perfeito, ascético – e dois deuses humanos. O Deus de altar, flanando acima do sofrimento excruciante do erro humano irreparável, esse Deus é Pelé. Deus e divindade. Os outros dois deuses – Maradona e Garrincha – mais próximos de nós pelos lapsos de perfeição que carregamos como almas a corpos vulneráveis. Deuses não-deuses, nietzschianamente humanos. Garrincha, pela aura naif, nos fez lembrar de que somos crianças sob a superfície da conveniência. O outro deus humano, Maradona, me tocou mais por lhe ter sido coetâneo e compartilhar muitas de suas inquietações. À sensação de despertencimento a um mundo que o sugava, Maradona somou indignações sociais que o apartaram dos contentes, do senso comum que o levou em fé e espanto ao altar. Rugiu contra os poderosos. Pregava que “a bola não se mancha”, a melhor metáfora de que dentro do campo o futebol ainda pode sonhar com valores éticos. Garrincha e Maradona saíram da mesma pobreza, ambos se entregaram ao vício pelo caminho ilusoriamente fácil da desmemória dos traumas. Há razões muito particulares no sentimento popular que perdoa nos ídolos erros que aos normais parecem irretratáveis. Não nos cabe entender. Muito menos julgar. Todos os três alegraram o povo, encantaram um mundo submetido à mágica de seus talentos e nos trouxeram lições de vida que excedem tudo o que sobre eles foi escrito.

Vi Pelé jogar dos meus 10 aos 18 anos. De forma intermitente, como intermitentes eram as fontes de acesso à informação. Pelé me assombrou por vê-lo desafiar a lógica com uma simplicidade acachapante. Aos que não o viram jogar, sua mística se manteve pelo farto registro de suas inflexões de impossibilidades e pelas referências hiperbólicas que a imprensa em encantamento fazia a seu talento. Justo. Absoluto gênio, incomparável. Construiu números espetaculares, ganhou três copas do mundo, sendo a última em performance memorável. A primeira, aos 17 anos, sepultando numa fria cidade escandinava nosso trauma do Maracanazo. Seu talento fluiu como um afago à sensibilidade, jamais rascante. Tornou-se verbete e referência para “o melhor”. O Pelé do basquete, o Pelé da poesia, o Pelé da política. Num mundo sem internet e longe ainda de engatinhar em sua integração, fez-se sinônimo de Brasil, a porta aberta para os poucos brasileiros que podiam à época viajar para o exterior. Chefes de estado se curvavam à sua presença. Pelé, a palavra mais conhecida em todo o planeta, a palavra-chave, o primeiro vocábulo da globalização. Inversamente aos dois deuses humanos, o Deus ascético expressava valores de um arquétipo conveniente, que juntava à genialidade o bom-mocismo, ainda que em tempos duros da vida brasileira. Exemplo de atleta, de “cidadão”, nada o afetava. Reinou soberano no coração do planeta, sobrevivendo, por seus dons excepcionais, a toda forma de patrulhamento. Cultivou uma imagem higienizada, desengajada das lutas sociais de seu tempo, das lutas dos pretos e pobres do Brasil, da reação à ditadura. Nunca se sentiu incitado a trazer para si essas causas. Isso lhe foi bálsamo e veneno. Muitos insistiram em lhe cobrar uma atitude socialmente engajada a que ele nunca esteve, por sua visão inconspurcada do mundo, pronto para corresponder. Mas será eternamente Pelé, o Rei, o craque que esculpiu a Pietà de seleções brasileiras arrebatadoras. 

O deus humano Garrincha, lamentavelmente, vi pouco jogar, mas o bastante para nele reconhecer traços extraordinários de talento. Não há registro farto em vídeo das espantosas proezas que o levaram a ser tratado por “Anjo torto”, em alusão ao anjo do Poema das Sete Faces. Mas sua obra foi disseminada pela força da memória oral e ainda mais exaltado por uma imprensa encantada pela tentação de um gênio gauche na vida, expressão luminosa do verso imortal de Drummond. Antes de exagero, um ato de justiça. Foi fundamental para as conquistas de nossas duas primeiras copas do mundo. A de 1962 ganharia sozinho. Mas seu modo ingênuo de ver a vida o consumiu como atleta e pessoa. Em resposta, instalou-se em seu próprio mundo, onde se via como a criança que dele não queria deixar, protegendo-se das maldades que o cercavam e que não entendia. Engaiolou-se nesse mundo feito os curiós que amava. De lá só se encorajava a sair pelo caminho temerário do álcool, que o submeteu e lhe abreviou carreira e vida. Foi manipulado por dirigentes, procuradores e “amigos”, assinou contratos em branco que com o tempo se mostravam desproporcionais à sua importância. Empobreceu. Numa valsa melancólica, jogou em clubes menores e se foi pela mágoa, em silêncio só interrompido pela estridência comovente de outra santidade, a inexaurível companheira Elza Soares. Mas já se fazia tarde. Ficou a marca do jogador genial, “Alegria do povo”.

Quando vi o Maradona pela primeira vez foi diferente de tudo o que até então passara por meus olhos. Bateu em mim como um roteiro de Zemeckis, voltando de algum lugar para o futuro. Dieguito foi além: um gênio que juntou ao impensável talento dentro do campo um comportamento que os órfãos dos anos 1960 queriam agarrar sob os urros do Lennon em “Mother”. Fez-se deus da negação de valores moralistoides, um tapa na cara da caretice youppie dos anos 1980. Combateu sem tréguas a máfia dos patrões do futebol e os bolsões da injustiça social. Organicamente superlativo, se deixou levar pelos riscos da fuga desesperada à incompreensão, à inaceitação dos valores que lhe chocavam por ter ascendido da pobreza extrema. Um charrua da periferia de Buenos Aires que emergiu da miséria para assombrar e chocar o planeta. Jamais se afastou dos compromissos seminais com os de onde veio. Juntou ao dom excepcional a rebeldia dos irresignados, foi dela apóstolo. Perdeu uma única guerra, contra o vício devastador que o submeteu e lhe foi fatal, mas jamais se calou. Opôs-se a toda forma de opressão até o ato final de seu imenso e extenuado coração. Em 2020, seu corpo exausto enfim cedeu. Para comoção das almas sensíveis, Maradona se foi. Um Deus com defeitos, “sujo”, o mais humano dos deuses, na insuperável definição do Eduardo Galeano.

Pelé foi artisticamente completo, perfeito, talvez nem lhe coubesse passar disso no plano pessoal. Garrincha, uma alegoria, um Chaplin de pernas tortas. Mas minha afeição mais tocante vai para o  insucedível baixinho que chutou a bola e a hipocrisia do mundo com o arrebatamento dos herois épicos, a aflição dos despertencidos e a desenvoltura dos prestidigitadores.

Para sempre louvados Pelé, Maradona e Garrincha; Sócrates e Platão; Proust e Hemingway; Porter e Noel; Joyce e Fitzgerald; Ali e Jordan; Welles e Scorsese; Machado e Garcia Marquez; Curie e Einstein; Nelson e Beckett; Senna e Fangio; João Cabral e Leminsky. Para sempre louvados todos os gênios que conflitam arquétipos da convenção banal, pois nenhum gênio será a negação do outro, só lhe será diferente.


Descubra mais sobre Ninguém Tem Razão

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


Comentários

4 respostas a “Maradona: O Mais Humano Dos Deuses”

  1. Avatar de Dedé Moreira
    Dedé Moreira

    Um texto magnífico. Viva os gênios

    Curtido por 1 pessoa

  2. Valeu pelo carinho, Dedé.

    Curtir

  3. perfeito. No sua lista da para incluir Raulzito?

    Curtido por 1 pessoa

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão

Descubra mais sobre Ninguém Tem Razão

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue lendo