Bêbados fazem amigos facilmente.
É tese por monte provada e genialmente ilustrada pela lembrança recorrente do milionário de “Luzes da Cidade”. Aos abraços à noite com o Carlitos no bar e no outro dia sequer o reconhecendo quando o imortal vagabundo o procurava em seu escritório. Bêbados fazem amizade facilmente, é do jeito e vocação deles, que nos inclui, quando bebemos por ficar no ponto de fazer amigos facilmente. E por muita vez desfazer, quando sóbrios.
O sítio de São Pedro da Aldeia, meu cosmos. Quintal ramposo, saliente, enrugado de entrâncias e reentrâncias, com poço de água de feitio salobra e punhado de fruteiras. Cajá, manga, fruta-do-conde, tamarindo, laranja, goiaba, jamelão e araçá, minha predileta. Fruta dividida com bicho de larva, porque bicho dava muito lá, mais bicho ainda nas goiabas que quando em vez comíamos com bicho mesmo. Pelo terreno passeavam livres e saracoteando um bocado de ave caseira. Meu pai ia comprando matrizes na velha Scal e deixando a bicharada reproduzir feito chinês pré-Mao. Era pato, galinha, cocá, ganso, marreco, faisão e peru de monta. Um dos perus era brabo pra mais da razão e pôs pra correr muita visita desavisada. Um peru, o de engorda, ficava mais cativo que abolido.
É da tradição dos grotões a engorda de bicho para abate. O coitado do bicho vai sendo ali tratado como gente da família, com comida de sustança e água fresca, conversa fiada e jeitão de carinho. Um dia o condenado tá todo feliz no seu canto, esperando pela ração de comida, bebida e prosa do dia. Quando menos se dá conta, recebe de troco a bruteza de um facão no pescoço. O que deve pensar o desinfeliz antes de chegar ao céu dos bichos: “Por que meu amigo fez isso comigo?”.
Eram tempos outros. O nosso peru de engorda era desse jeito. Tratado com fartura o ano todo pra virar ceia na noite de Natal. Não havia crueldade ou sadismo, era da natureza das gentes e das coisas. Em São Pedro da Aldeia o peru matado era antes encharcado de cachaça “pra molecê a carne”, segundo vigência da peonada de lá. Nosso caseiro, o querido de toda vida Pedro Gago, era de não se conter com forró e cachaça. Gente maravilhosa, guardava a sabedoria da simplicidade, inteligência cintilante. Pandeirista virtuoso, brilhava nas inesquecíveis festas juninas organizadas no sítio pelo meu irmão Heitor. Sabia de corrido e través o repertório completo do genial Jackson do Pandeiro. Exímio contador de histórias, fazia de cada conversa encanto e mina de inusitados. Pedro me levou pelo mundo das coisas da roça trazendo à minha infância o viver de fantasia que menino de cidade só cuida por garrar na imaginação. Fui com o Pedro muitas vezes caçar larva em cupinzeiro pra acelerar a engorda do peru de engorda. Só tinha medo de bode e do capeta, coisas que dele herdei. Pedro cuidava de tudo, mas a família o desonerava de ministrar a carraspana pré-óbito do peru de Natal. Risco de macular cautela. Misturar Pedro e cachaça era costear cerca de bambu podre. Por segurança, pra tarefa de embebedar na véspera o peru, minha mãe contava com os préstimos do saudoso Sílvio, casado com a querida e também saudosa Regina, filha criada por nossa família. Sílvio e Regina moravam numa casa que juntava o terreno com a estrada de barro, caminho mais de carroça e burro de carga que dos raros carros de então.
Mas teve ano um que o Silvio não pôde dar cabo do ofício fosse lá por que diabos fosse. O jeito foi enviar o Pedro pra tarefa de enfiar goela abaixo do peru a cachaça que lhe ia “molecê a carne”. Pedro foi e Pedro não voltou. E foi não voltando por tempo pra mais que necessário de dar cabo do que lhe foi tarefado. O jeito foi a família em corso descer o terreno pra assuntar o que houve. Meu pai liderava a tropa com porte de general partindo pros campos de batalha. Quando passamos da amendoeira que anunciava a última escada do caminho do platô do viveiro, o insólito: Pedro estava abraçado ao peru, com a garrafa de cachaça na mão. Era um gole pro peru, outro pra ele. Erguendo aos céus a garrafa de pinga feito soldado medieval rodeando fortificação, Pedro bradou em tom de guerra:
– Voltem daí! Quem quiser fazer mal ao Dico – Pedro já o havia batizado por apelido de gente – terá que pisar no meu cadáver!
E sussurrou ao condenado, abraçando-o carinhosamente:
– Fica tranquilo, Dico, tô fechado contigo, ninguém vai lhe aprumar mão. Sou seu amigo.
Em resposta, o Dico, já pra lá de bebum, ensaiou um espasmo de gorgolejo.
Não teve jeito, Pedro não desgarrava do projeto de ceia da família. Só nos restou esperar que o peru dormisse, para, em solidariedade etílica, o Pedro dormir também. Foi o que se deu.
Ceia atrasou, mas teve.
Bêbados fazem amigos facilmente.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão