Morel, Truman e Puxadinho.

Quando o fugitivo de a “A Invenção de Morel”, do soberbo Bioy Casares, chega à ilha, mal podia esperar que a realidade lhe fosse aprontar peça em que se enredaria de não mais sair. Causou-lhe estranheza observar na ilha antes deserta a irrupção de imagens se repetindo todos os dias. Rigorosamente iguais. Percebe que não está só no mundão de nada da ilha. Ouve vozes, vê nessas imagens pessoas aparecerem e sumirem, escapa-lhe a noção de realidade e alucinação. Já não dá conta de entender o caldo confuso em que as ideias se formam e conformam. Encanta-se por uma mulher que difusamente se movimenta pelas imagens que lhe cabem ver na ilha. As cenas se repetiam em intrincada provocação. Tudo permaneceria intocado em seu enredo arrastado até que Morel descobrisse no nada da ilha uns imensos motores que lhe pareceriam ainda mais estranhos por não ter a ilha nada que não fossem as imagens que se repetiam no passar dos dias. Que engenhos aqueles sobre que não há causa nem consequência? Morel especula possível relação entre as imagens e sons do que via e ouvia com aquelas engrenagens imensas que o haviam espantado em sua descoberta. Observando com mais acuro a máquina, percebeu que aquele imenso engenho fabricava as realidades que se repetiam no cotidiano da ilha. Nada era essencialmente real, materialmente real. Mas já era tarde. Apaixonado pela imagem da mulher que via e revia no cenário alucinante da ilha, a realidade que se impunha ao seu desejo era a realidade fabricada por sua conveniência. Dela não desejaria se libertar, por lhe trazer a pulsão do amor em reação ao inclarificável pela razão. Crer lhe bastava.

Lembra de esguelha Seaheaven, a cidade roteirizada para cenário de um show que fez o roteiro da vida Truman ser acompanhada por milhões de pessoas. Todos compartilhavam a farsa, menos Truman, que vivia uma realidade descolada da realidade vivida pelos muitos que o adotaram como extensão de suas famílias. Feliz pela bonomia de sua vida asséptica, programada, Truman era o show. Cumprimentava feliz as mesmas pessoas todos os dias, pessoas que se revezavam em suprir de afeto sua existência roteirizada. Tudo caminhava como caminha a ficção sob controle de quem lhe dá vida até que uma coadjuvante se recusa a sustentar a farsa ativando a centelha humana de Truman, o componente imprevisível do projeto. Truman, inversamente ao fugitivo da ilha de Casares, era a realidade fabricada, e a mulher por quem se encantara, a outra realidade, a realidade desteatralizada. Ao descobrir-se usado, Truman busca desesperadamente encontrar inesperado na sua vida fabricada, e se dá conta de que pouco lhe resta diante da máquina devoradora do showbiz. Parte, como os conquistadores, em uma pequena caravela em direção ao horizonte moldado por um céu corretamente azul e nuvens adequadas. Seu barco se choca levemente contra a parede de madeira do cenário. Um som oco, angustiante. Há tristeza perturbadora na cena. Uma escada o leva a uma porta de saída. Truman abre a porta, hesita, e ouve a voz de seu Deus, com quem conversa. O país inteiro em comoção, colado à tela da tv. Mas há alguém à sua espera.Truman se deixa ir de sua vida encenada. 

Vidas podem ser vividas pela mentira e nem sempre imprescindem de um gênio criativo como Bioy Casares ou do talento de um Andrew Niccol. Por propósito ou protocolo, vive-se da mentira nos mais diversos domínios. Nos dias destes dias, especialmente, no universo caudaloso das redes sociais, onde se criaram e foram cevados os encantadores de idiotas. Nesse exótico planeta onde se vira as costas à verdade pela inverdade conveniente, tudo se dá sob um novo cânone ético, descolado do mundo físico. Dois mundos: um, convivial, onde as demandas das interrelações sociais impõem senso de patético; outro, das redes, o da morte do superego coletivo. A mentira se realimenta ainda mais faminta no mundo fechado das liturgias dos palácios e templos, incensada por áulicos e adeptos. Daí vivermos sob a presença inundante de pastores que monetizam textos sagrados pelo caminho insidioso da mentira, capturando parte da agenda social e política. Daí a proliferação de coaches, mercadores de inverdades convenientes. Não por outro motivo, por tempo de cáustica memória, termos nos submetido ao viger inflamado das verdades do Puxadinho, validadas pelo fanatismo de meia-dúzia de adeptos, pelo eco de parcos furiosos seduzidos aos gritos de “mito”. Basta isso para que a realidade idealizada satisfaça. Qual o sentido de lembrá-lo de suas gritantes limitações e desvios éticos e morais? De que era preciso governar um país com milhões de desempregados, com brutais diferenças sociais e 700 mil mortos, muitos enfileirados por seu negacionismo negligente? Milhões nele se refletiram, viram nele a oportunidade de se revelar grotescos sem que fossem ou ainda sejam segregados socialmente por isso. Nele reconheceram o estuário desconstrangido de sua ignorância ou desumanidade.

Nem Morel nem Truman, apenas um imaginário sobre o qual numa fenda histórica despencou um bufão. Incapaz de mostrar empatia, mestre nas artimanhas das pequenas contrafações, alguém que dorme com a ideia do poder total sobre o travesseiro compartilhador de seu sono atormentado pela indissimulável covardia. 

Se a realidade, ao nos afrontar, dela nos afasta, o maior perigo da irrealidade-espelho mora em sua entorpecedora conveniência. 


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Comentários

Uma resposta a “Morel, Truman e Puxadinho.”

  1. excelente reflexão

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