Mapa Astral

É bom que se diga, não via o Dudu por tempo que não se conta por lembrança certa. Ficara em mim de nosso último encontro a impressão de um Dudu estranhamente triste, deprimido feito um Tito Madi enredado com imposto de renda. O Dudu vivia a vida em que cabe a felicidade dos que veem a vida em 72 prestações: em dia hoje, amanhã inadimplente. Mas feliz. De rompante, Dudu cambiou beiçudo, reclamão. Fujo do mau humor como Dilma do Ciro, e devo confessar que andei fugindo dele. Não vi mais o Dudu, embora por volta de meio me preocupasse com sua impresença. Quem o via e me contava, me contava o que sabia: nada nele mudara.

Com vida correndo normal, caminho por indicação de bula todo dia que não chove, porque chuva é desafio pra quem conta idade por conta muita. Chuva e vento encanado. Se é comedor de soja e rúcula, pode esticar pra mais quadra de vida, mas é coisa de tantim. E lá eu ia caminhando dia desses quando vi uma silhueta frenética entrecortar as Cagarras. Era o Dudu. Eufórico, com uma alegria de Galvão Bueno em Copa:

– Beto, meu lindo, cuidando de se cuidar, né.

– Dudu? É você, Dudu? Que que houve, cara? Que bom ver você assim animado – ainda que sob a estranheza do “meu lindo”, fui-lhe receptivo.

– Beto, Beto. Decidi nunca mais ser infeliz, decidi aceitar a vida com que a vida nos reserva de felicidade dissimulada. A felicidade ronda nossa tristeza espreitando, ela tá ali, mas a gente não vê, mermão.

–  É uma forma de ver as coisas, Dudu.

– Ralei tudo quanto é rampa de desilução, desci ladeira até beiçar o meio-fio. Fui ao fundo, fui ao pré-estágio.

Diabos fosse o que o Dudu quisesse dizer com pré-estágio, fiz minha parte na encenação de um encontro que interrompia minha entrada solene no plano aeróbico de minha caminhada diária, da qual ainda não me libertei por completo da sensação de ridículo que me impõe a meia soquete.

– Mas, e aí, amigo? Muito bom ver você assim feliz. Andei preocupado com você.

– Tentei de tudo, Beto, de tudo.

– Tudo o quê, Dudu?

– Pensei no pior, Beto, quase fiz uma bobagem, quase dei cabo…deixa pra lá. Tô feliz, isso é o que vale.

Fomos meio que sem combinação chegando pro lado do quiosque do Zezo, livrando-nos do muxoxo dos cooperianos compenetrados. Já resignado dos efeitos de uma caminhada interrompida, voltei ao rito da conversa inevitável:

– Me conta, cara.

– Tentei de tudo, Beto. Fiz análise por dois anos, fiquei amigo da terapeuta, ouvia-lhe mais histórias do que lhe contava, chegamos a ir ao cinema juntos. Não podia dar certo. E a tristeza, meu bom, a tristeza calando mais forte. Fui por duas vezes à Torre do Rio Sul, fingindo almoçar no terraço, só pra ver o chão por visada de cem metros, louco pra dar um fim àquela dor .

– Que coisa terrível. 

– Da análise fui para a ioga. Por indicação do Serginho, aquele Serginho lá da rua que vivia doidão e foi estudar na Rural. Meu guia espiritual era um cara legal, confiável, Hari, o nome dele. Fiz retiro em Mauá e São Pedro da Serra, por pouco levitei. Mas a tristeza, cara, a tristeza não me deixava.

– Sempre quis fazer Ioga, mas aquelas calças sem cueca me deixam bolado.

– Bobagem, Beto. Depois da Ioga, tentei o Santo Daime. Era num sitio em Friburgo e todo o ritual era estimulante. Andei por caleidoscópios e fiz cafuné em nuvem, mas a melancolia, Beto, a melancolia nada de me dar sossego.

– Que coisa, Dudu. Tentou neurolinguística expressão corporal, contato ovniano? 

– Claro, Beto. Tentei de tudo. Raspei cabeça, me rebatizei na Igreja Nova Vida, me circuncidei, li aquela merda de auto-ajuda, acupuntura, Universo em Desencanto, Vale do Amanhecer, fiz o diabo.

– Impressionante, Dudu. Mas e aí?

– Já ia desistir quando o Augusto, aquele Augusto lá do colégio e que hoje tá mexendo com meio ambiente na Petrobras, pois bem…o Augusto me indicou o Pelota. Você já ouviu falar do Pelota?

– Não. Pelota, não me lembro. O que o cara faz?

– Mapa astral. O cara faz mapa astral para dez entre dez globais, vem até gente de fora pra se consultar com ele. Craque, mudou minha vida.

– Foi assim desse jeito?

– Foi, Beto. E bastou uma consulta. Pegou meus dados, dia, mês, ano e hora de nascimento, apertou-me as mãos com vigor e ternura. Passou umas réguas estranhas em cima de um troço que lembrava um planisfério, e foi direto: “Dudu, você nasceu sob a influência de Urano e sua vida é governada por Saturno,  seu co-regente é Plutão, numa casa muito peculiar. Seu problema é simples, você está inadequado à sua opção sexual”. Eu tomei um susto, Beto, para já refeito lhe perguntar: “o que quer dizer isso, Pelota?”. E ele em bom som: “Você jamais será feliz com sua opção sexual”. Beto, eu pedi ao Pelota que fosse mais claro. Ele foi firme: “Dudu, você é homossexual”. Tomei um susto: ”Homossexual?”. O Pelota foi ainda mais claro: “É, Dudu, você é viado, só se satisfará com outro homem, e de forma passiva. Vou ser direto: pra ser feliz, você tem que dar o rabo”. A sinceridade do Pelota me pegou de surpresa e seu impacto foi importante para o rito de aceitação de minha condição. E aí, Beto, fui à luta. Dei e dou meu rabo, e estou feliz, com uma felicidade de inundar vales e lamber chapadas.

– Isso é o que importa, Dudu. Não é fácil ser feliz nesse mundão travado.

Mal terminou a conversa, Dudu saiu saltitante pelo calçadão, levando com ele sua felicidade morfológica. Passadas umas semanas, esbarro com o Peixão, meu amigo de infância, machista orgânico, e amigo também do Dudu. Contei-lhe a história, Dudu não me pedira reserva. Peixão, lacônico:

– Por essas e outras, Beto, que eu não leio nem horóscopo.


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Comentários

3 respostas a “Mapa Astral”

  1. Avatar de EDUARDO MELLO GUIMARAES
    EDUARDO MELLO GUIMARAES

    semsa

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  2. Avatar de EDUARDO MELLO GUIMARAES
    EDUARDO MELLO GUIMARAES

    Sensacional. Tô rindo tanto que nem dá pra comentar. Ainda bem que o meu apelido é Edu. 😂🙌🎬❤️

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