Autor: Beto Sales

  • Desconexas 24

    Virou padrão da palermice brasileira esculhambar o Brasil. O brasileiro apóstata corre ao aeroporto para voltar com o rancor cheirando à tinta, devoto de uma religião cuja bíblia é o passaporte. Dependentes químicos da inferioridade blasé. —–x—– Só passei a me respeitar quando deixei de me levar a sério. Não é brincadeira. —–x—– O cinemão…

  • Desconexas 23

    O Natal era uma das datas de minha mãe. Mães são calendários, fortalecem nossos vínculos com datas, cobrem datas de alusões simbólicas, fazem delas cânones familiares. Se nas ordinárias a vida já orbitava em seu redor naquele velho apartamento da Rui Barbosa, no Natal, era protocolo de estado. Católica ciosa de sua fé, dona Juraci,…

  • 12 Anos Sem Reginaldo Rossi

    Dia 20 de dezembro fez 12 anos da morte do grande artista popula Reginaldo Rossi. Há um Grand Canyon entre a realidade brasileira e a crítica cultural. Somos um país mestiço, com mais genealogia das ocas e senzalas que da orla europeizada dos burgos glamurosos. O Brasil é um continente de recém-dentados, comprando automóveis e…

  • Desconexas 22

    A leitura rasa do politicamente correto produziu em resposta a chatice do politicamente incorreto. A lacração pariu seu oposto, a lacração reversa. Esculhambar valores da tolerância faz sucessinho com os “não alinhados”, ainda mais caretas que os valores de que debocham. Vive-se sob o império da falsa polêmica, exceções raras, pautada pela desintelectualização do debate.…

  • Taipeira

    – Se tem taipeira, dotô, é roça boa. Num quis mais saber de espicho de prosa com Sidoca. Ele entendia de bicho e gente, de roçado e desterro. Sidoca juntou pela vida família e enrosco de escapar de dedos de mãos em duas. Andava ressabiado com uns e aqueles que arrodeavam o cupim de uma…

  • Desconexas 21

    A vida e o gênio de Niemeyer foram a lâmina de um punhal encostado desafiador no pomo-de-adão da caretice, da moralidade cretina, da sensação boçal do poder, da prepotência e do exagero das palavras e formas. Para quem viveu 105 anos e definia a vida como um sopro, fica a lição de seu talento transoceânico,…

  • Desconexas 20

    A letra de “I Can See Clearly Now”, do Jimmy Cliff, um chamado alegórico à felicidade. Cliff nos convida a compartilhar com ele uma sensação que, pela levada magnetizante da música, percebemos libertá-lo de algo que o afligia. Somos instados a caminhar plenos em direção a um horizonte irrelevante. A música vai se fazendo dona…

  • Amarante, o Streamgólatra

    Fazia tempo corrido de perder conta que eu não via o Amarante. O reencontro, aleatório, se deu num supermercado de Curicica Olímpica, onde, em prazer extático, passo parte de meus dias. Reconheci o Amarante de pronto, mas ele demorou um pouquinho: – Amarante! Quanto tempo, rapá! – Você é…é…o Beto? – Sim, eu mesmo –…

  • República do Compass

    De um tempo em que deitei morada em Brasília, – Beto, pelamordedeus, é sério, cara, eu tenho muito medo. Olha o que você vai fazer com isso, cacete. Pode parecer esquizofrenia, mas se entende o pavor desse meu amigo ao me segredar alguns dados de circulação restrita a que ele teve acesso por integrar um…

  • Vagueante

    Tava no brefo, vagueava tonto por remedo de caminho, por caminho inteiro. Andava por carecer de motivo pro não andar. Andava mundão de Deus e capeta. Reto, serpente, vorteio, sapatinho, arisco e mole. Andava mancheias de sapato, solas e saltos. Sapato frouxo e acochado. Andava calos e frieiras. Pisava terrão pro destino insabido. Vez por…