Quando se foi o imenso Lô Borges, lembrei de pronto do atropelamento de Daisy, em “Benjamim Button”:
Se a família do Milton não tivesse se mudado temporariamente para Santa Tereza, em BH; se a mãe do Lô, com 10 anos, não tivesse lhe pedido para comprar pão e leite; se ele recusasse a escada e descesse pelo elevador para comprar o pão e leite; se o sargentão reaça não tivesse dito ao Lô que o Exército não queria cabeludo comunista; se a mãe do Lô não tivesse permitido que ele com 17 anos fosse morar com o Milton no Rio para gravar um disco; se…
Não haveria Clube da Esquina.
Por falar na divindade Milton Nascimento, absolutamente tocante, emocionalmente abarcador, o documentário “Milton e o Clube da Esquina”. Assisti há mais de um ano e ainda não consegui depurar a emoção que senti e sinto. Tudo nessa série documental lembra beleza. As montanhas de Minas; a casa generosamente voltada para o abraço delas, as montanhas; o papo gostoso com os amigos que ao lado do Milton moldaram um dos mais lindos álbuns da história da música popular no mundo; as canções eternas cantadas, algumas delas, com convidados muito especiais.
Tudo flui redondo e prazeroso como se fosse simples fazer o que fizeram. Soa como Beatles, Truffaut, Villa-Lobos, moda de viola, pão de queijo, tapioca, cafuné e desejo.
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Nossas qualidades são por muitas vezes o caminho mais torto para se curar de um vício.
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Fiscais de Greenwich.
Voltei hoje da caminhada e entrei no elevador um minuto depois de meio-dia. Cumprimentei civilizadamente o vizinho que estava saindo:
– Bom dia
Ele devolveu com um misto de ironia e assertividade cretina:
– Bom dia, não, boa tarde, já passou de meio-dia!
Viver é duro.
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Pode parecer romantismo, e é. Pode parecer apego à tradição, e é. Pode parecer resistência ao rolo compressor da globalização, e é.
O documentário Mondovino, dirigido por um bom provador francês, escancara a luta da cultura do “terroir” contra a pasteurização imposta pelo mercado americano de vinhos.
Tocante e estimulador ver uma pequena província da França resistir ao tsunami dos Mondavi.
Quem um dia colheu uma fruta no pé, pisou na lama, limpou o Conga dos carrapichos, subiu em árvore, recolheu lagarta em caixa de sapato, remedou barulho de sapo, jogou bola em ladeira e rua, quem um dia fez da infância um través da norma, vai ficar feliz de não se sentir sozinho num mundo de desinvidualidades.
Imperdível.
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O ser humano, desde que se pôs de pé, luta contra três forças avassaladoras: a natureza, a cretinice e a sobriedade.
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O que escrotiza uma ditadura de qualquer latitude não são seus métodos, mas sua certeza.
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Envelhecer pode amenizar ou aprofundar a cretinice. A luta contra a cretinice é de uma vida, luta sem tréguas, excruciante. A melhor contribuição de envelhecer é olhar com piedade para as cretinices que um dia cometemos convictos de nossa sagacidade.
Se um dia a humanidade marchasse para um único destino, um único porto que reunisse nossas qualidades comuns, esse destino seria certamente um lugar de contrição de nossas cretinices.
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O juiz de garantia, em tese, serviria para mitigar a absurda desproporcionalidade entre o aparato acusador do estado e a capacidade material de o cidadão se defender, quando atacado pelo estado.
O estado acusador não tem a menor responsabilidade em ressarcir os prejuízos infligidos a quem acusa. Nem no campo material – graves – nem no campo da honra – irreversíveis. E esse estado é poderoso, tentacular, detentor de todas as ferramentas e meios de coerção necessários para impor sua tese.
O promotor que destrói a honra e o patrimônio material de acusados que provam sua inocência sai impune do excesso cometido como se nada tivesse a ver com o gigantesco estrago produzido.
Vira a página e procura outro para acusar.
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O cretino curioso que tem opinião num ambiente de discussão científica está blindado a toda forma de inteligência. É capaz de encontrar “Alexandre, o Grande” numa sessão espírita e lhe dizer com sinceridade que a invasão do Egito foi um erro.
E se você argumentar que Alexandre jamais perdeu uma guerra, ele reage prontamente: “É sua opinião”.
Ô, doença!
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Um cara quando faz um implante capilar ou usa peruca é motivado por uma espécie de salvo-conduto cretino para o convívio social. Ele passa a pateticamente acreditar que só ele e o médico dele saberão do implante, ou que apenas ele e o espelho saberão da peruca. Ignora todos os indícios estéticos de contrafação capilar, que o transformam em uma espécie estranha de portador de um gambá parasita sobre sua cabeça-adorno.
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Escritor, poeta, frasista, filósofo, roteirista, humorista, dramaturgo, tradutor, ensaísta, historiador, linguista, cartunista. Genial em tudo o que fez, Millôr, de quem me orgulho de ser afilhado, demarcou a diferença entre a irreverência idiota e o humor sofisticado. Ele deixou bem claro a qualquer cretino que se pretenda engraçado que o buraco é mais embaixo, é onde mora consolidada a honestidade intelectual, a solidez do conhecimento.
Falta Millôr quando estamos caminhando para a pasteurização da inteligência, para um mundo onde, por audiência assegurada, um Leandro Karnal ou um Nelson Motta vicejam com a agressividade de heras em rugas.
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O cretino tem razões que a própria razão escarnece.
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Se alguém pergunta a um outro alguém se já leu um livro de auto-ajuda, um dos dois é cretino.
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Quem caminha não tem disposição para correr nem coragem para ser sedentário.
Eu caminho.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão