80 anos do Alceu Valença.
Estive com o Alceu Valença uma vez. Encontro temperado de cravo e pimenta da minha admiração irrestrita. Num restaurante de um amigo-irmão que tinha um sócio que era primo dele, Alceu. Em Mury, Nova Friburgo. O encontro foi precedido de promessas vãs e frustrações contidas. Mas dia teve que garrou de acontecer. Cheguei no restaurante e o Alceu estava lá, desmentindo todas as minhas piores desconfianças daquelas promessas vãs. Conversamos deliciosamente madrugada adentro. Falamos de tanto de histórias baianas e pernambucanas, mas nos concentramos no Ascêncio Ferreira, um dos grandes poetas da terra fértil de Bandeira e Cabral. Ascêncio é fonte pródiga de casos boêmios impagáveis. Rimos de corredeira. Queria dizer ao cara que aquele momento era muito mais tocante pra mim do que ele pudesse intuir, que o considerava um artista imenso entre os grandes de nossa música. Mas me calei submisso ao bom senso e ao prazer da conversa.
Por alguns meses vivi a sensação gostosa de o sócio do meu amigo me dizer que o Alceu voltaria, mas lhe pedia que o “baiano” daquela noite estivesse por lá.
Uma bruma leve da paixão que vinha de dentro me fazia feliz por chegar pra brincar no quintal imaginário do reencontro. Alceu é ponto fora da curva, com uma obra incorruptível, e eu, carioca, levitei feliz por saber que era o “baiano” que teria, por terçar conversa numa madrugada furtiva, agradado ao Alceu. O segundo encontro não se deu. Melhor assim, ficaram as lembranças intocadas do primeiro encontro. Do jeito que a vida ensina.
Foi lembrar do Alceu para tocar agorinha mesmo “Anunciação” na minha lista de hoje. Ouvir “Anunciação” é ser tragado por um chamado arrebatador. A melodia é pontuada por uma guitarra de timbre etéreo denunciando uma falsa tristeza onde há só esperança e sinais. Alceu canta como um tuaregue em lamento, vocalizando os sinais “anunciados” de uma paixão que vem de dentro. Nem precisaria que a voz de um anjo lhe sussurrasse no ouvido. Ela vem em galope lento pra brincar no seu quintal.
No final, melodia e letra se envolvem numa celebração quase em súplica, anúncio e percepção: “tu vens, tu vens…”.
Ouvir “Anunciação”, burburinho de alma no cio. Escutar os sinais.
—–x—–
Não importa o tamanho do ontem, o tudo de nós que deixamos pelo caminho é centelha perto do que não deixamos.
—–x—–
Já conhecia “Toada”, gravada pelo grupo Cantares, integrado por um dos autores da música, o Juca Filho. Salvo engano, numa edição patrocinada pela Funarte. Me apaixonei pela, não à toa, toada da música, em que que se convida uma morena para “ouvir essa cantiga”, e “sair por essa vida aventureira”. Quem nunca? A combinação da levada maneirosa com a morena e o convite irrecusável a um jovem em “sair por essa vida aventureira” me fez apaixonar pela música já na primeira vez que bateu em meu ouvido. “Toada” era prato recorrente no cardápio das rodas de viola, vez em apês apertados, vez outra junto a fogueirinhas de papel, com o mundo sendo rasgado de simplicidade. Amei a música com a intensidade desfiltrada com que os jovens amam. Tempo não muito passado, veio o primeiro independente do Boca Livre, puxado pelo cover de “Toada”, que vendeu mais que smartphone em Acari. A linda versão do quarteto que já encantava plateias do Teatro Ipanema me realocava à paixão juvenil que tinha pela vida aventureira, incensada pela velha “Toada”. E melhor: a bordo de um projeto corajoso de quatro jovens que resolveram desafiar a à época poderosíssima indústria fonográfica. Depois, a pirataria – para muitos, legítima defesa do excluído contra o jabá e o roubo nos preços dos cds – e a internet trataram de buliçar as coisas, não sem antes cooptar o Boca Livre. Inevitável.
Mas a “Toada” que vai vagar por minha alma e coração será sempre a toada do Cantares, libertária e malemolente, intensa e preguiçosa.
Agora há pouco pus pra tocar na minha lista.
Um menino dentro de mim esticou a pele ao ponto de sangrar vento.
Foi bom.
—–x—–
No definitivo “Elogio da loucura”, Erasmo de Roterdã sustenta que só a loucura nos salva das intempéries do caráter humano. Ao defender que “Só os loucos têm o privilégio de dizer a verdade que não ofende”, Erasmo delirou instigantemente sobre a loucura como o ambiente em que se revelam as verdades que a sensatez esconde.
Segue Erasmo: “Segundo a definição dos estóicos, a sabedoria consiste em ter a razão por guia; a loucura, pelo contrário, consiste em obedecer às paixões; mas para que a vida dos homens não seja triste e aborrecida Júpiter deu-lhe mais paixão que razão”
O gênio de Roterdã começou a rascunhar o que outros gigantes definiriam como atributos da cretinice: “Rir de tudo é próprio de parvos, mas não rir de nada é de estúpido.”
Aos que ainda jovens levam a vida muito a sério, bom lembrar: quando jovens e rijos a nossa visão de vida é tão rarefeita quanto uma previsão do Eduardo Cavendish.
E lembrando o conselho do Nelson aos jovens: “Envelheçam”.
Minha parte estou fazendo.
—–x—–
Um amigo já recebeu um presente seu e agradeceu com “adorei de paixão!”?. Outro amigo já lhe chamou para uma noitada sob o argumento “vamos sair pra dançar?”.
Desencana. São tempos de liberdade e tolerância.
—–x—–
Há certos filmes que se justificam apenas por nos fazer revisitar o que temos de melhor. Uma sensibilidade sublimada pela aspereza de dias massacrantes, uma solidariedade calada pelo egoísmo falsamente necessário. Filmes que nos lembram sentimentos que guardamos latentes, à espera de que algo os despertem de um sono existencial. E ficamos felizes pelo reencontro com o que nos é essência e de que nos separamos por conta de nos ocuparmos de tocar os dias a bater ponto em nossas incertezas.
“O Farol das Orcas” é uma história real que reúne reclusão, vastidões patagônicas, mar sem fim, orcas, amor materno, autismo, paixão, insubmissão, pequenas tramas que fazem da aldeia, como na velha lição de Tolstoi, uma amostra do mundo.
Nem sei se é um grande filme, mas vê-lo me fez bem, me fez sentir melhor do que esquecera de que seria capaz.
—–x—–
A idade me moldou: o que importa são as pequenas coisas. Coisas que estão em nossa órbita, disponíveis por um mínimo gesto, um esticar de braço. Ir à rua, ver amigos, beijar os nossos, especular no mercado o café da manhã, o jantar simples mas ousado, colher pelo dia simplicidade plantada.
Fomos moldados para o ordinário, não para estocar conquistas. São os dias comuns que nos marcam. O resto é vício.
—–x—–
Quando a obra é imensa, o autor se desobriga de ser pessoalmente brilhante. Quando a obra é irrelevante, o caminho que resta ao autor é parecer brilhante para em vão compensá-la.
A ausência do talento é uma das maiores crueldades que a natureza impõe aos pretensiosos.
—–x—–
Tem vez que, por renitência cretina, tento decifrar a mitologia mundana da imprensa brasileira. Quanto mais nos deixamos fazer vítimas do subdesenvolvimento intelectual, mais valorizamos os ícones do senso comum. É por onde vicejam solenes os próceres do patrimônio da razão.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão