O velho Simico dia disse a sô Chacrão:
– Num dá pra remedar do Tinhoso, não, sô Chacrão. É trança de maldição o arranjo desse menino com o desfeito. Num dá, não, sô Chacrão. Tem muito hômi e muié promessando o qui num sustenta, só pro mode de se livrar do arame que enreda o coração dos que num creditam.
A história correu mundão e chegou a mim pelo contar jeitoso de Nemésio da Guarda, a quem passo a graça da palavra.
Por descoberta de oio atento, muito chão de piçarra num era o bastante pra fiar o tanto de horizonte espichado que apartava aquela gente do mundo dos que se deitam em descrença e tino. Era terra distante do tudo, solo fértil pro descobrir o que num garra de parecê pé-diante de quem se ocupa de tocar a vida pelo enredo de querer mais e mais, de juntar pra mais de braça, de despejar pelo rés de braço o que num cabe no colo. Ali o ar soprava poeira de histórias e contados, desenhava risco de cor e assunção. O qui num cabe no vezo das gentes lá era comezinho. É tal de filho-de-Deus proseando com bicho e arve braçando arve por remedar namoro, qui num se conta o que num deve ser contado.
Muita raça de gente, por obra do num sabido, prestou na nascença espetá o peito e correr sangue do bidome pro baixo. Gente que nunca espreitou dotô, gente que num doecia nem por pigarro seco. O padre na reza da missa clamava pelo curar do Esprito Santo, rogava por drenar a sangueira das gentes. Num tinha mais roupa branca que num acusasse o vermelho da maldição pelo lado sinistro das blusas e riba de vestidos de recato e provocança. Pelas braças da currutela, se espraiando pelas lonjuras das moradas das glebas, tinha profeta urrando pelo acabar dos dias, suplicando a morte por desafogo. Ninguém de Deus corajava explicar a sangueira por obra de razão ou ciença.
Chacrão era dono de terra pra mais de dois o que a terra dos todos somava. Ele num farpava a cerca por desimaginá qualquer sansa de atrevimento de desinfeliz pular pro dentro do que era seu. Chacrão alardeava:
– Num farpo, não. Chão de Chacrão é chão de lei de respeitança. Num há boi nem gente que atreva pisar pedacim de terra que me foi outorgada por geração través de geração invadindo e marcando pelo chumbo o que me foi ficando meu e se fará dos meus por restos de dias. É alvará de bala, escritura de bacamarte!
Vez e sempre, num havia consciência que num temesse o sopro de castigo que escorria do cuspe tabacado que sô Chacrão lançava no chão de por onde sô Chacrão pousasse descanso. Se um descoitado se arredasse no caminho do cuspe, e por assim num deixasse a gosma tocar o chão de seu destino, se o desculpe num viesse num piscar, era porrete no desinfeliz. Chacrão só temia a fazença de verdade que o contado da roça que num era sua semeava pela fé dos deserdados. Só a bicharada em falança ou as arves em braçada de namorico. O que num respondia à força da artilharia de sua capangada, o que num quedava a tiro ou susto. O que num se prostrava por medo de deitar sono ou bobeada.
Se Chacrão num farpava as limitanças de sua terra-tudo, muito menos autorizava bambuzinho sequer em cantim de terra dos escaninhos de chão que completavam o lugar. O que num era seu, de ninguém era também. Pai de prole graúda, Chacrão num fazia fio por mais de dez engravidanças. Era muié sua barrigando e cuspindo feto por menos de mês.
Pro surpresa de gente e resto, mulher do Chacrão barrigou por passar de mês, e os bêbados que se juntavam noite por véspera garraram de nunciar farpação de cerca por onde cerca num tinha, por cada roça encolhida pela sustança terral dos domínios do poderoso. Chacrão fez de revés de crença e ordenou pau de marmelo em fio-da-puta qui desse leito a história de sem-pé. Mas cerca nascia, e farpada nascia a cerca.
A barrigança de sá Deslinda invadiu pro mais de 40 semanas, e sá deu à luz um menino com sangue escorrendo por peito bidome abaixo. Chacrão num se tomava mais de veleidade paizeira. Por condão de manter a ordem instituída na marra de legado geracional e cheiro de espingarda, Chacrão determinou furar o coração do menino pro ver o se o que se passava lhe afrontava poder ou cobiça. O coração furado do menino num sangrou. E Chacrão mandou rancar o coração por dúvida num restar. O coração do menino era um casulo de farpado, arame roscado feito novelo coraçado. Chacrão, por conta de deixar as arves no longe e os bichos proseando por légua afastada do quié seu, num ouviu o arremedo de conselhança que lhe perigava saber do que um farpado pode fazê se um coração se enreda em veleidade.
Cobiça farpada é cerca de vento.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão