Desconexas 30

O país do Pelé e pentacampeão mundial de futebol resolveu cravar na camisa de sua seleção um ídolo de um outro esporte de um país que chama futebol de soccer.

O viralatismo em sua mais impensável expressão.

Antes que os idiotas da objetividade apontem que a Nike Jordan é uma marca, que o MIchael Jordan é sua identidade visual, blablablá terraplanista, lembro a eles que entender o peso simbólico de um signo como a camisa da seleção nacional de futebol mais importante do mundo é o mínimo que se espera de quem está distante do analfabetismo funcional.

Quando a CBF se mudou para a Barra da Tijuca, um burgo mais próximo da Flórida que da alma nacional, pensei: ninguém se muda para a Barra da Tijuca impunemente.

Ilhada culturalmente do Rio e do Brasil, refúgio de alpinistas sociais e boas almas e almas não tão boas que se exilaram do subúrbio pela via transgressora da economia informal ou pela via exemplar da economia do sacrifício, a Barra se tornou um mioma urbano. Embora notável o esforço da prefeitura em religar o bairro a seus ancestrais cariocas por BRTs desbravadores de territórios renegados, a Barra permanece borrão antropológico, um rascunho de interatividade social possível. Um mosto de vans enormes e shortinhos minúsculos estendidos ao limite por pernas musculosas com condomínios infestados de ray ban e linhas retas cafonas em que pululam sinais externos de vigarice. Uma espécie de xerox patético de uma Miami idealizada.

Embora tenha na Barra amigos que me inspiram por sua generosidade atlântica, ainda espero por um BRT sem volta.

Marcas se adaptam, a Coca-Cola usou azul no estádio do Grêmio e na passarela de Parintins. O McDonalds fez o mesmo quando foi proibido pela prefeitura de Sedona de usar o vermelho em suas instalações.

Que a CBF reveja a bobagem que fez. A seleção brasileira prescinde ser validada por uma marca global associada a um ícone do esporte que não seja nosso.

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Do vento, vem na cabeça uma velha música que adorava quando menino. Crianças cultuam repetições, filmes vistos, histórias já ouvidas, paisagens sabidas, rotinas vividas. O que a elas se repete as tornam seguras, imunes aos sustos do inesperado. E tome de suplício do “de novo, de novo, de novo”. Tudo o que desejam é não ser surpreendidas, tomar a si a antecipação do desfecho.

Voltando à música que num repente me veio à cabeça, a música é “Andorinha Preta”, que amava ouvir no compacto do Trio Irakitan e suplicava a meu pai que repetisse e repetisse por um torturante enfileirar de “de novo, de novo, de novo”.

A música repete incansavelmente o refrão “Eu tinha uma andorinha que me fugiu da gaiola”, até que um coro suave faz a cama do refrão, com os versos “Vai, andorinha preta, de asa arrepiada, vai, vai dormir teu sono andorinha, ô, que é de madrugada”. E o mantra se mantém: “Eu tinha uma andorinha que me fugiu da gaiola…”. E tudo segue se repetindo seguro feito um porto de lagoa.

Amava ouvir e ouvir essa música. Lembrando dela, no arrasto lembrei com saudade do velho Herberto, cabra de pavio curto, que escondia doçura sob o cenho cerrado. Paciente, fazia a vontade do filho que insistia no torturante “de novo, de novo…”.

“Eu tinha uma andorinha que me fugiu da gaiola…”

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Quem quiser entender o sentido de ter filhos, de dividir com eles o impossível, o imaginável e o inimaginável, o que a mão não toca, o que o dinheiro não compra, o que a rudeza não fere, o que o racional não decifra; quem quiser brincar de viver com os filhos, rolar no chão, colher fruta no pé, contar estrelas e inventar histórias, tomar banho de rio e contar pedrinhas; quem com eles quiser cantar cantigas e remedar barulho de bicho e gente, fingir que tem coisa descoisada no pé da porta, se esconder embaixo do lençol e terçar travesseiro, de trolar com chulé; que tem gente formigando no alto da colina, pertinho do céu, que se pode voar sem sair do chão, que é preciso ser criança pra coar o mundo pelos olhos deles; quem quiser mesmo entendê-los, é só não fazê-los espelho de expectativas que não nos cabem, pois não somos eles.

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O bolsonarismo ofereceu zona de conforto ao preguiçoso intelectual, aos que se sentem menos desafiados ao substituir ideias articuladas por bravatas e palavras de ordem. Tentador, daí tanta gente.

Não tem nada a ver com a direita que pensa.

É tacanhice mesmo, ranger de bobagens.

Hoje, por exemplo, na fila do Sacolão. Uma senhora babando sonrisais de bolsonarismo pergunta aos da fila em quem irão votar. Dois indecisos, dois bolsonaristas. E eu. Tentou argumentar com os indecisos, mas, ao declinar meu voto, acho que fui mais competente que ela:

– Não voto em quem golpeia contra o voto – acrescentaria: nem em filho cioso de sua carga genética pútrida. Mas a fila do Sacolão andou.

Percebi um sorrisinho sardônico num dos indecisos.

Funcionou.

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39º no Rio.

Apareceu um pinguim na praia de Copacabana. 

Pense num bicho mal informado.

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O silêncio brasileiro tem decibéis de esquina de Copacabana.

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No bairro do Flamengo, na minha infância e adolescência, o patrono dos “justiceiros com as próprias mãos” era Onã, e não um boçal de MMA.

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O Brasil é um continente pulsante de incentivos fiscais e renúncias tributárias. Não há atividade econômica em que o Estado não estimule por investimentos diretos ou concessões. Mas quando se tenta ajudar os mais pobres, o mundo despenca.

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O Brasil saiu mais burro dos quatro anos de bolsonarismo. Perdemos tempo e energia tornando rasas discussões complexas, debatendo Ciência pela lógica do fetiche, cultura pelo viés do preconceito. A luta é para não emburrecer, ler bons livros, ver bons filmes, ouvir boa música, manter-se íntegro num ambiente idiotizante.

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Precisarei me reeducar para reinstalar em meu campo de afeto antigas paixões, símbolos, instituições, pessoas, muito do que me marcava e me dava sentido, coisas que foram corroídas pela abrasividade peçonhenta e sufocante do bolsonarismo, derretidas pela boçalidade irreparada, pela agressividade babenta.

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Um estudante de onze anos foi suspenso por dois dias de uma escola estadual de Salvador porque estaria “fazendo ousadia e indecência” com um colega, segundo a vice-diretora. O menino estuda no Colégio Estadual Armandina Marques, no bairro Pau da Lima, em Salvador.

Bairro Pau da Lima!? Acho que a diretora não entendeu a mensagem metafórica do bairro.

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Millôr, padrinho querido e saudoso, já ensinava que o maior erro da natureza é a burrice não doer.

O burro com o salvo-conduto da confiança nem de analgésico precisa. Injusto.

Se burrice doesse, o bolsonarismo inundaria de aflitos o SUS e suas noites lembrariam “O Grito”, de Munch.

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Voos em férias são uma espécie de creche com asas. Crianças aos borbotões gritam e choram alternadamente, sem nenhum senso de harmonia. Como não posso pedir para que gritem e chorem lá fora, recorro ao meu mega ultra fodão headphone Bose que ganhei de aniversário do amigo Bernardo Montenegro.

O fone é equipado com um eliminador de ruídos que, acionado, nos faz mergulhar no abrigo seguro do silêncio que se põe de cama para as músicas que me confortam.

E viajo feliz.

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Faz tempo que meu dentista mudou pro Méier, bairro que me traz boas lembranças da infância. Meus avós, tios e tias paternos moravam lá. O Méier tinha um jeito pacato e doce de vila, com suas casas geminadas e varandinhas que emulavam interações. 

Dia desse fui na feirinha de lá. 

Proustiano.

Falando em Méier, lembrei de uma tia a que fui muito ligado na minha infância. Morava numa simpática vila no Méier. Seu marido entrava pela vila garbosamente montado em seu táxi Chevrolet 51. Eram os anos 60. A memória da infância reveste as lembranças de afeto, um lugar onde as imagens se encantam.

A morte dessa tia me trouxe o velho Méier que ostentava invejável qualidade de vida. Prédios acolhedores, vilas bucólicas, pelada de rua. O casario com sacada dava pra calçadas que reuniam pessoas.

O subúrbio era remanso generoso.

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Quem desejar simultaneamente sofisticação harmônica, suingue, referência eletrônica e surpresa, experimente Issa Bagayogo, um malinês cujo ofício é empurrar pro canto mais obscuro a obviedade.

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Ó, consultoria, quanta barbaridade é cometida em seu nome!

A língua portuguesa já pode apropriar o efeito semântico sobre “consultoria”:

– Já consultou as roupas?

– Filho, consulte as mãos antes de comer 

– E ainda diz isso com a cara mais consultada

– Boa! Essa foi de consultar a alma!

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A convicção é o castelo do cretino.


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