Em grande parte do século 20, o Fluminense foi referência mundial em gestão esportiva. Por décadas fomos hegemônicos no então mais importante campeonato do país, o Carioca. Capital oficial da República até 1960 e de fato até os anos 1980, o Rio concentrava a atenção dos brasileiros, fazendo do Carioca o único campeonato efetivamente nacional, levado pelas ondas do rádio a todo canto do país. O compromisso do Fluminense com o futebol já vem da pia batismal. Dos quatros grandes do Rio de Janeiro, fomos o único criado para o “velho esporte bretão”, os outros vieram ao mundo como clubes de remo. Fundamos o futebol profissional, construímos o primeiro estádio brasileiro de alvenaria, que recebeu o jogo de estreia da seleção pentacampeã mundial, e para quem com frequência cedemos jogadores. Nos anos 40, uma prova de nossa força institucional, trouxemos metade da seleção paulista que encantava o país, reforçando nossa hegemonia no Carioca. O Fluminense era conhecido por montar grandes times pela contratação ousada de nomes de ponta do futebol brasileiro, éramos o “Fluminense da Seleção”. Nos anos 1970, essa vocação foi retomada pela montagem da Máquina, quando todos os jogadores do Fluminense tinham passagens importantes pela seleção brasileira. Encantamos o mundo com um futebol de pintura.
Minha geração teve o privilégio de ver o Fluminense conquistar 9 Cariocas em 16 anos. No meio disso, 2 Brasileiros, menos comemorados por nós que os Cariocas de 1969, 73, 83, 84 e 95. Muito menos. Mas nos anos 1980, a Globo adotou a FAF do Walter Clarck como seu projeto esportivo/institucional prioritário, levando o Flamengo, um clube popular, a um patamar de conquistas inédito em sua história. Para o projeto expansionista da Globo era importante a valorização do Brasileiro e da Libertadores, Flamengo à frente de suas novas fronteiras. Nos anos 1960/70, a diferença entre o número de torcedores dos principais times cariocas era bem menor do que a atual, desfigurada pelo temporal midiático sustentado pela turma festiva do Jardim Botânico. Nesse mesmo período, 1960/1970, o Botafogo de Garrincha e o Santos de Pelé, ao lado do Fluminense hegemônico do Carioca, eram os times mais nacionalmente consolidados.
Chegamos aos anos 1990 com um modelo social bolorento, presidido por figuras desprezíveis, incapazes de fazer frente à avalanche da Globo e do Vasco do Eurico mancomunado com a Federação Carioca do Caixa D’Água, um rolo compressor. Fomos para as trevas e vimos nossos rivais crescerem numa escala desproporcional. Vivemos a humilhação em vários episódios desse período, mas a torcida jamais deixou de se indignar. Metabolizadas as dores, fizemos do caos nossa Tragédia de Kerbala, seguindo a praxe das grandes religiões abraâmicas, que só se consolidaram na esteira de um episódio trágico, como a escravidão no Egito e a crucificação do profeta. A sequência de presidentes desastrosos se deu após a saída do imenso Manoel Schwartz, o único desse período a entender a dimensão do cargo. Voltamos a ser competitivos com o mecenato da Unimed, com quem o torcedor do Fluminense contraiu dívida de reconhecimento.
Depois de três títulos brasileiros em 5 anos e do vice-campeonato mais injusto da história do futebol planetário, numa festa jamais igualada em qualquer canto do planeta, experimentamos a passagem devastadora da Flusócio, turma que parecia defender teses bem intencionadas, mas circunscritas a um voluntarismo de ateneu. Transformou-se num projeto de poder fisiológico e deixou como herança a turma do Abad e do Mário. Esperto, o Mário entendeu melhor o momento.
Vivemos em 2023 a epifania episódica da Glória Eterna. O que seria a grande chance de alavancar de vez o Fluminense, mais ainda pela disputa da Copa do Mundo, serviu para um projeto populista de poder, descolado do senso de competência indispensável a um clube com ambições em um ambiente ultra competitivo como o futebol atual.
A Era Mário, onde nos encontramos e de onde teremos muitas dificuldades em sair, fundou um método obscuro de contratações duvidosas, centrado em medalhões com contratos longos e jovens mal peneirados. Tudo sob o manto cinzento de milhões e milhões de investimentos com baixo custo-benefício, vendas mal engendradas de promessas valiosas e a negligência com Xerém. Na média, as contratações dessa Era Mário estiveram sempre abaixo do padrão mínimo de eficiência. A eleição de um acólito só reforçou seu projeto pessoal de poder, com controle total dos processos de informação a partir da cooptação de influenciadores e da adoção de métodos repressivos à crítica, típicas de um vaidoso orgânico.
Há torcedor que, pelo trauma dos anos 1990, se contenta com o tépido papel de brigar por lugares honrosos em competições de alto nível. A eles gostaria de lembrar que a história do Fluminense não se rasga nem se negligencia.
Entender o Fluminense é saber que o bom não é o bastante.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão