Desconexas 28

Quanto mais estamos etariamente afastados da perspectiva da morte, mais a tememos. Quanto mais nos aproximamos dela, mais a entendemos em suas dobras  vertiginosas, em seus caudais de espanto, em suas ameaças domadas pela temperança, em seus desertos de sal e susto, em suas falésias de oceanos ferruginosos.

Aos velhos, a morte é tão domável como um domingo modorrento, mas ainda melhor que o domingo, pois a morte não tem Luciano Huck e Rodrigo Faro.

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Grande parte das frases geniais de Churchill foram ditas na velhice, quando a deterioração das células filtraria o ridículo como um coador Melitta ao café. Mas poucos se locupletam do efeito.

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A Torre Eiffel é hoje uma espécie de antena da Claro com uma Feira de São Cristóvão embaixo.

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Embora prevenir seja de bom tom, saúde não é teorema. Saúde, muita vez, é ciência emasculada pelo acaso. Me lembro sempre do craque de bola Sócrates. Depois de beber com amor e fúria por uma vida, morreu de infecção intestinal provocada por um estrogonofe. Tá certo que muitos dirão que foi por efeito cumulativo dos excessos, mas, por precaução, passei a moderar o consumo de creme de leite.

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Com a derrubada das Torres, o Bin Laden produziu uma consequência que se estendeu muito além da tragédia de 3 mil mortos: a volta triunfal da extrema-direita dos EUA e o começo do fim de sua democracia capenga, com um histórico de desrespeito aos direitos civis básicos.

Hoje, o que se vê por lá: recrudescimento da eugenia, a instalação de um governo acima das leis e a criação de milícias de estado.

A História nos ensina como isso acaba.

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Fico só fuxicando a vida desses deputados: deve ser muito bom ter tempo de sobra no lugar onde se ganha dinheiro.

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Tínhamos em Friburgo um agaporne que batizamos Fred. Agapornes são psitacídeos, aves que – é claro, vocês sabem – palram. Palrar é a capacidade de certos bichos de emitir sons que lembram a fala humana.

A Ângela, companheira que nos ajudava a manter em condições sanitárias aceitáveis uma casa com quatro filhos, conversava sem parar com o Fred. Podia semelhar apenas desejo, mas percebia no Fred uma certa desenvoltura em tocar a conversa em frente.

Aproveitei o processo de humanização onomatopaica do Fred empreendido pela Angela para, escondido, ensinar-lhe um bordão. Toda vez que eu falava “Aécio”, ele me respondia: “Nunca”.

Eu lhe dava razão como se a tese fosse dele.

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Percebo cada vez mais claramente que eu era muito mais engraçado para os meus filhos quando eles eram crianças. Hoje, eles riem de forma protocolar quando conto algo que julgava estrondosamente engraçado.

E tentar melhorar só piora.

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Ao percorrer os domínios de Maria Antonieta em Versalhes, impossível pensar que o Michael Jackson não morou ali.

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Vi o bom time de 70 ganhar um Brasileiro em cima dos melhores times da história do futebol brasileiro, recém-tricampeão do mundo, com uma geração espetacular. Vi o “timinho” de garotos de 80 ganhar com sobras um Carioca dos melhores tempos. Vi em 2009 a maior arrancada de recuperação do futebol mundial, um épico inigualável. Vi o mediano time de 95 tirar das mãos de um Flamengo estelar o Carioca de seu centenário. Vi mais, muito mais. E não precisei nascer há 10 mil anos.

Devo confessar: embora velho, estou pronto para viver mais coisas impossíveis, já que impossível e Fluminense só cabem na mesma frase em serventia de desmentido.

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Num certo carnaval, a chuva renitente pariu em Búzios um sol que não tinha tamanho. A elegia dos entocados é a pulsão de tomar as ruas e as praias como se atraídos pela nave-mãe do Spielberg, em Contatos Imediatos.

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Num mundo boçalizado pelos estertores da empatia, pelo reavivamento da  intolerância, em que o sensível é visto como fraco, a voz do Papa Francisco foi um rochedo, um contraponto humanizado à iniquidade. Francisco nos lembrou insistentemente do compromisso irrenunciável da Igreja com os necessitados.

Desde sua morte a humanidade sangra.

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Caetano se mantém filho de seu tempo. Inquieto, muita vez indignado, verbera com notável articulação contra a boçalidade e a intolerância, se não fossem ambas extensões mútuas. Dono de um texto lapidar, que faz falta à dinâmica da pensata brasileira. Seria indispensável se fosse apenas o intelectual provocante que é.

Mas foi muito além. Entregou à música brasileira alguns de seus mais sublimes marcos de delicadeza e brejeirice: Ciúme, Oração ao Tempo, Cajuína, Irene, Reconvexo, Desde que o Samba é Samba, A Tua Presença, e tantas outras. E fez isso sem se desconectar da coetaneidade, do experimentalismo, mantendo-se turbulento suco de tudo que o orbita. Na poesia e na música. Um dos grandes.

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Sempre me esforço para não me indispor com a Argentina. Há Buenos Aires, Cortazar, Sabato, Casares, Borges, Piazzola, as Mães da Plaza de Mayo, Leon Gieco, Kevin Johansen, o julgamento dos militares assassinos, Maradona, Spinetto, Charlie Garcia, Messi, Fito, Soza, o cinema, os poetas, sua comida. Tudo isso com etc.

Mas sempre há um Prestianni para me lembrar do contraponto asqueroso.

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É de uma indigência intelectual degradante alguém confundir a posição pessoal do artista com a qualidade de sua obra.

Não entronizei medíocres revolucionários. Não foram poucos.

Não preconceituei a obra dos reacionários Borges, Heidegger, Dante, Nelson, Gilberto Freyre, Ezra Pound, nem de tantos outros gênios politicamente à direita.

Cada coisa, sua coisa.

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Há vez por outra em que me regozijo da condição humana: família, aipim frito, amigos, Borges, Canetti, Fitzgerald, linguiça, Nietzsche, Mozart, I am the walrus, picanha, Pena Branca, Leminski, camarão frito, Hemingway, Jackson do Pandeiro, Machado, João Cabral, Nevermind, For no One.

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Em Power of Peace – o encontro demolidor do Carlos Santana com os Isley Brothers – o velho e bom mexicano largando a mão numa guitarra encardida e a lenda da Black Music tocando e cantando feito molecada inquieta, com direito a muito funk e hip-hop. Vale muito ouvir.

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Ouvindo folk irlandês.

Há no folk da Ilha Esmeralda um quê de tristeza cristã, uma dor no peito por uma culpa que não nos cabe entender, mas conforta. Um desejo de inundar um mundo duro e incompreensível de fé e alegria compensatória. O Evangelho nos deu também o gospel, a celebração de virtudes. Já as drogas fizeram do caminho a busca pelo instantâneo, um Deus ad hoc, ao alcance da seringa. Um contraponto trágico, cinicamente falsificador. Mas ainda assim um jeito torto de encontrar um Deus fugidio, próximo do erro humano.

Com ou sem seu infungível folk, ou mesmo de sua sublime literatura, amei a Irlanda com a mais intensa capacidade de amar que caberia ou cabe em meu combalido coração.

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John Lennon legou, com ou sem Paul McCartney, obra imortal. Vocalizou o sentimento de gerações. Hoje seria considerado “um sinalizador de virtudes”. Seus apelos por paz, “mimimi”. Vital para a minha compreensão do mundo. Guardo com a angústia de meus desencontros seus urros ao fim de “Mother”.

A notícia da sua morte foi aterradora pra mim, até hoje guardo o luto por ter sido pessoalmente lesado por ela.

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Assisti no YouTube a um vídeo com o Djavan explicando a letra de Açaí: a fruta provedora atraindo besouros e a manhã como um livro em branco. Molinho. 

Difícil foi tirar da cabeça que “trocando de biquíni sem parar” não era suruba, era só BB King, na madrugada, tocando sem parar.

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Dia teve que fui ver com a Rafa “A menina que roubava livros”. A resenha eu deixo pra Rafa, que é do ramo. Revi o filme agora. Nunca antes na história deste p…, quer dizer, na história da cinematografia mundial, um diretor fez tanto esforço para mudar a história original com o intuito de nos fazer emocionar a qualquer custo.

Mas a produção é luxuosa, com o ambiente de um pequena vila alemã na Segunda Guerra magnificamente reconstituído.

A história cuida de sentimentos humanos, como perda, saudade, medo, abandono, amor, e isso acaba nos aproximando do filme. 

Ao revê-lo, ficou um certo travo de que poderia ser melhor. 

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Na Libertadores de 1971, o Fluminense vinha embalado de um Brasileirão impecável, quando foi campeão desbancando os melhores times da história da competição: o Santos de Pelé, o Cruzeiro de Tostão, o Palmeiras de Ademir da Guia, o São Paulo de Gerson e Pedro Rocha, o Botafogo de Jairzinho e Paulo César, etc.

Vencemos as primeiras quatro partidas do nosso grupo: 2 x 0 no Palmeiras, em São Paulo; 3 x 1 no Deportivo Galícia, em Caracas; 6 x 0 no Deportivo Itália, em Caracas; e 4 x 1 no Deportivo Galícia, no Maracanã.

No quinto jogo, o Fluminense tinha pela frente uma baba, o Deportivo Itália, a quem venceu em Caracas por 6 x 0. Um massacre anunciado. Mas o impossível aconteceu: na maior zebra de nossa história, perdemos de 1 x 0 para os venezuelanos, em pleno Maracanã. O baque foi tamanho que entregamos o último jogo para o Palmeiras, jogando no Rio. Ficamos de fora da próxima fase da Libertadores, que naquele tempo só classificava o primeiro do grupo.

Fica a lição: a única coisa que interessa na fase de grupos da Libertadores é a classificação. O resto é espuma.


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