Excertos de Lembranças Tricolores

Na morte do Telê

Morreu o Telê. 

A morte, antes de tudo, se trata de uma imensa sacanagem. Ficamos flanando pela vida a idealizar a vida como um Tívoli Parque sem fim, e vem a morte, sorrateira, com seu condão de decretar nossa temporalidade. Efêmeros, nos imaginamos eternos ao fecharmos defensivamente os olhos enquanto o tempo cuida de passar,  consumindo-nos com vaidades estéreis, ambições mesquinhas, inveja do carro do vizinho e ressentimentos inócuos. Quando sublimamos o caminho da simplicidade, a gente se enreda em uma teia patética de valores que sequer lembram nossa essência.

Morreu o Telê.

Esmaecem por um rés de tempo as três cores que um dia fizeram um menino chorar diante de uma figurinha carimbada que lhe completara o álbum e lhe trouxera um sentimento de felicidade plena, até então jamais experimentada. Naquele dia um time tricolor entrou para sempre na vida do menino, e se lhe revelou como território seguro, refúgio intemporal para todas as incompreensões que nos reconduzem mecanicamente ao universo insondável de nossos fantasmas. Cercado pela atmosfera confiável daquelas três cores a não deixar morrer no menino de todas as idades o lúdico de sua infância, que atribuía sentido ao inescrutável, jamais esse menino se sentiu solitário.

Não terei do Telê apenas saudades, mas o reconhecimento por tornar minha vida possível.

No Fla x Flu da chuva(A noite do Gene Kelly de chuteiras)

Chovia a chuva de todas as chuvas naquela noite. O Fluminense começou o jogo de forma implacável. Manfrini e Toninho, em gol à la Carlos Alberto contra a Itália, decretaram um solene 2 x 0 ainda no primeiro tempo. No segundo tempo, já depois dos 30 minutos, o Flamengo empatou o jogo com dois gols seguidos do Dario: 2 x 2. Dadá Maravilha não poderia escolher noite pior para, desengonçado, ousar fazer dois gols no time do Manfrini. Dois minutos depois do segundo gol do Flamengo, a metade do coliseu que circundava a grama-água se assombrou ao ver a bola do Manfrini, depois de o craque driblar o goleiro, sair de seus pés e preguiçosamente caminhar na direção do gol vazio dos flamenguistas. Aqueles quatro segundos que transcorreram entre o tapa do Manfrini na bola e a bola entrando mansamente no gol do Renato foram os mais longos quatro segundos da história dos homens e das mulheres. Nem os quatro segundos da expulsão de Adão e Eva do Paraíso; nem os que levaram os jacobinos para ajeitar na guilhotina a cabeça de Maria Antonieta; nem os necessários para que se abrisse o Mar Vermelho; nem os que César precisou para decidir atravessar o Rubicão. Quando Dionísio, honrando o deus mitológico, fechou o placar – 4 x 2 -, tudo se tornou lembrança passional.

Muitos anos depois, recebi o Manfrini e família em minha casa de Friburgo. Dias inesquecíveis, de revisitas a imagens coladas na mais mágica memória. Havia escrito dois contos em sua homenagem. Ele os leu sozinho no quarto reservado ao casal ilustre. Saiu de lá chorando e injustificadamente me agradecendo. Como se não soubesse que sou eu que lhe devo para sempre. O craque Manfra nos deixou no fim de 2025. Precocemente. Quando se foi, reverberou em meus melhores pensamentos o seu amor pelo Fluminense, amor que fez o meu amor encontrar eco onde só caberia admiração.

Na aposentadoria do Edegard, um irmão tricolor

Edega, irmão. Hoje é o último dia em que você acessa sua caixa de entradas a partir de Adrianópolis, sua segunda casa, o lugar onde os dias sempre começaram à noite. Às 17 horas você dará os primeiros passos numa nova fase de sua vida, com menos exigências formais e com mais tempo para se dedicar à família, aos amigos, ao Fluminense e a você. Chegue tranquilo, pois o mundo que o espera lhe será tão generoso quanto você o foi com o mundo de que hoje você se despede. Não haverá turbulências desnecessárias nem angústias do não-feito. Você cumpriu com o mérito de sempre uma linda trajetória funcional, cujo reconhecimento não se limita aos companheiros de trabalho: todos seus amigos reconhecem em você um animal ético, solidário, e um técnico competente, que se dedicou com insurpreendente garra e honestidade a quem lhe pagou o salário. Sua cabeça, irmão, encontrará no travesseiro de todas as noites o conforto de uma consciência limpa. Este mundo novo que você tateia lhe será confortável como os velhos tênis que tanto o agradam.

E permanecerá sempre a seu lado, indomada, arrebatadora, às vezes conforto, às vezes aflição, a paixão pelo nosso Fluminense, que é a casa que nos guarda e consola.

No prefácio de “As Laranjeiras Imortais”, do tricolor orgânico Marcelo Meira

“As Laranjeiras Imortais”, apesar da carga de saudade, está longe de ser um libelo saudosista. Pelo contrário, como seu relato se dá a partir da visão de mundo do torcedor, ele é totalmente esperança. Não se encontra em nenhum momento do texto uma citação que possa soar melancólica. Se há saudade do vivido, há muito mais saudade do devir. Há saudade do futuro que catatonicamente construímos em cada noite mal dormida, quando escalamos o time dos sonhos e revertemos os placares adversos do passado com a mesma desenvoltura com que estabelecemos os placares futuros. Nesse êxtase silencioso o Fluminense sempre vence. Não há gol perdido, os dribles se dão como obras de arte acabadas. Não há falta cuja cobrança não termine com a bola lá na gaveta, depois de realizar imponderável trajetória e estufar a rede como um peixe enfurecido. Tudo se dá meticulosamente imaginado, entremeado por repetições infindáveis de escalações que não aceitam desfalques. Mercuriais. Incensamos agora o objeto de nosso ódio recente ou futuro. Estamos inteiramente desobrigados da coerência.”

“A imagem do menino de 35 anos, gandula autonomeado, correndo com crianças de 12, 13 anos, caindo de maduro no chão molhado da Granja Comary, onde treinava o Fluminense, lembrou-me Bud Guy, em “Sweet Tea”, aos 70 anos, como se às margens do Mississipi estivesse, fazendo fundo a uma colheita de algodão imaginária, abrindo debochadamente o CD, resmungando “…eu sou um velho, eu não sou mais o mesmo”. A unha do polegar fazendo as vezes de palheta em um violão de aço com afinação frouxa, para em seguida detonar um álbum seminal, sujo e descarnado, que Jimmy Hendrix assinaria aos 18 anos. O torcedor apaixonado tem a mesma idade do velho bardo do blues: nenhuma. Ambos têm a idade dos anjos. Adultos arranhados de Ferencz.”

“Ao pousar a última lauda dos originais deste livro em minha escrivaninha, dando cabo assim a uma lenta degustação que vinha temperando aqueles dias de emoção da leitura, fiquei simultaneamente feliz e frustrado. Feliz pelo fato de o Marcelo ter escrito um livro definitivo sobre a paixão do torcedor, um livro à altura de “Febre de Bola”. Frustrado, porque o fim da espera das remessas contendo doses homeopáticas de prazer e sofrimento tricolores provocava em mim uma espécie de interrupção de rito, um anticlímax para a excitação que a leitura descontinuada me provocava em seus intervalos. Reli o livro agora de uma vez. E o descobri provocantemente diferente. E assim o foi a cada releitura. As histórias do livro emulando novas histórias, novos adornos das mesmas histórias. Vida chamando vida, a cada detalhe de cada jogo lembrado, a cada lembrança que a lembrança desse jogo me fazia lembrar. Não se reconta uma história de amor sem que a ela se acrescente em cada relato um novo enlevo. Este livro, e nisso reside o que o diferencia de um livro de memórias comum, não é apenas um livro de memórias tricolores. É um livro sobre o quanto se confundem no torcedor a sua vida e a história de sua relação com o clube de sua paixão. São a mesma história. Como nas velhas escrivaninhas, uma gaveta só se abre se a outra que lhe tranca for aberta. Nos escaninhos da memória de torcedor não há legenda do que é vida e do que é paixão. Há apenas oferta de amor irrestrito. Somos assim mesmo. Por isso parecemos tão estranhos aos olhos dos normais, aos olhos dos que se ocupam em nos achar patéticos quando escolhemos nas festas e reuniões os cantos da sala para em gestos histriônicos mergulhar na obsessão enquanto eles falam de amenidades mundanas.

Ao relatar suas memórias tricolores, Marcelo Meira cumpre brilhantemente seu objetivo. Como convém a um livro que trate da paixão do torcedor, não cabe aqui o cuidado metodológico de um Spinoza a destrinchar racionalmente a cabala luriânica. A paixão do torcedor se auto-explica. Ela se revela, e só a entenderá quem lhe dedicar dever de ofício ou a ela se render impotente. Sente-se. E só.

O que é que eu sou?

Sou tricolor de coração, sou do clube tantas vezes campeão!

Porra!!!”


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