Diniz, você deve ter bem marcado na memória o seu telefonema ao Mário, em 2022, quando um treinador que respeita o Fluminense pediu demissão. Pediu demissão por não se ver mais capaz de encontrar as soluções para um momento grave do time, com sinais de alarme piscando freneticamente. Não era um treinador qualquer. Era o imenso Abel Braga, campeão do mundo, da América, o cara que nos levou ao título nacional de 2012. Vulcão de espontaneidade, hedonista, Abel bebe e conhece bons vinhos, toca piano e não vê problema em falar poblema. Abatido por uma tragédia devastadora, 48 horas depois estava em pé à beira do campo do Maracanã para testemunhar o mais comovente minuto de silêncio da história da humanidade. Combalido, mas íntegro, estava ali pelo futebol – e pelo seu Fluminense. Foi confortado pelo afeto e solidariedade de milhões de tricolores espalhados país afora. Pois esse Abel teve a humildade de pôr o Fluminense acima de suas aspirações pessoais. Afinal, para o bom e velho Guerreiro, “O Fluminense é foda”.
Diniz, meu camarada. Você surgiu encantando São Paulo quando fez o improvável Audax brigar pelo Paulista. Um futebol inovador e vistoso. De lá, subiu para o Atlético Paranaense e passou a encantar o Brasil. O velho Abel, quando foi enfrentá-lo na Arena, deu o mote, profético: “Vou dar a bola pra eles”. Ganhamos bem o jogo. Abel sabia que o maior adversário do seu método, Diniz, vem do próprio método. O Atlético começou a perder em sequência. A crítica esportiva se dividiu entre os resultadistas e os românticos. Essa dicotomia o seguiu até hoje. No Fluminense de 2019, não fosse a interferência do Celso Barros, estaríamos revivendo 2009 e sofrendo o que sofremos naquele ano heroico em que desmoralizamos o impossível. Mas o time jogava bonito, enfileirava chances perdidas. Em 2024, nem isso. O mesmo aconteceu quando você passou pelo Santos e São Paulo. O hipnotizador de serpentes encantava a mídia esportiva, acariciava os sonhos dos românticos, mas os resultados minguavam com o passar do tempo, e você não conseguia encontrar as saídas para revertê-los.
Quando o Abel deixou o Fluminense em 2022, não foi por temer o pior, foi por se sentir honestamente incapaz de mudar um quadro que se apresentava sombrio. Foi digno, deixou clara mais uma prova de amor ao clube que o revelou para o futebol. Veio então o telefonema que abre esta carta. Por que não ligar para o parceiro? Na conversa, segundo informações que vazaram, você deixou claro que usara o tempo do desemprego para se aperfeiçoar, para se refundar como profissional e pessoa. Estava pronto para o desafio. Jogamos bonito em 2022 e fizemos uma chegada sensacional no Brasileiro. Tudo conspirava para um 2023 glorioso, embora nem tudo deixasse de ser preocupante. Um presidente vaidoso, histriônico, guardava com você semelhanças suficientes para uni-los: a convicção de estar certo, ainda que os fatos os desmintam veementemente. O elenco montado com sua ativa participação priorizava medalhões que foram aos poucos se apossando do vestiário, restringindo o aproveitamento de muitos meninos que sobem todos anos de Xerém, os mais talentosos vendidos a preços vis. Havia rumores sobre influências perniciosas de empresários, nenhuma transparência. Os indícios estavam lá. Mas quem os sublimou? Justamente o conceito que você tanto critica: os resultados. Veio o Marcelo, e tudo ganhou densidade simbólica. Fomos bicampeões cariocas jogando um futebol de empanturrar de beleza a retina dos puristas. Embora cambaleantes, avançávamos na Libertadores. Houve, obviamente, o 5 x 1 no River, um jogo com características muito peculiares. Ainda que mal no Brasileiro, deu-se o milagre: uma monumental aliança entre o torcedor e o time, que se viu empurrado pela esperança até a Glória Eterna. 4/11 foi lindo. Muito lindo, inesquecível. Tudo parecia caminhar para uma longa parceria. Sua veemência em defender teses estranhas à cultura dos treinadores brasileiros ainda não ganhara tons de soberba.
Já em 2024, a aposta nos veteranos foi dobrada, e desde o início ficou claro que não era a opção correta. Os resultados não vieram. A Recopa foi um título de dois jogos contra uma LDU que nem de longe lembrava a consistência de 2008. Foi duro. No pênalti. No Maracanã. De lá até meados do ano, nem mesmo o bom resultado no grupo fraco da Libertadores de 2024 foi capaz de reacender a esperança com que derrotamos com frequência o impossível. Fomos lanternas do Brasileiro, 6 pontos em 11 rodadas. O desfile se fazendo féretro. Por muito menos o Abel, o velho Abel, o corretíssimo Abel, pediu pra sair, para deixar sua paixão reagir sem que sua presença se tornasse obstáculo. O Fluminense acabou forçado a fazer o que teria sido evitado caso você o tomasse de exemplo.
Fácil entender que sua passagem breve pela seleção deixou traumas, marcas entranhadas numa alma carbonária. Resultados péssimos, demissão desumana. Você se tornou arrogante, intempestivo, foi se apropriando da verdade como posseiro. A sua verdade. Use o tempo para mais uma vez se reconstruir, vai lhe fazer bem. Você terá sempre a gratidão dos tricolores, mas, no futebol, diferentemente da vida, gratidões podem se tornar fósforos riscados, carbonizados pela dor.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão