Dentro do Coração

Corre a lenda. Uma das histórias contadas por Sherazade a Xariar, rei da Pérsia, para mantê-lo todas as noites curioso sobre seu desfecho e poupá-la da morte, encerrava, resumidamente, lição sobre amizade.

Conta Anadim que Simbad, ao voltar de uma de suas viagens, vendo O Lavrador carregar sobre os ombros um fardo que o triplicou em tamanho, provocou-lhe:

– O que o faz carregar sobre si o que sobre si, pelo peso e tamanho, não se pode carregar?

– Disse-me o camelo: quanto mais leve o espírito, mais pesado o fardo que podemos suportar; quanto mais dentro do coração, mais apartado do impossível.

– O que torna seu espírito leve? O que carrega dentro do coração?

– Amigos

Os meninos caminhavam ruas que tomavam por casa. Eram dois aqueles. Não lembro se pela borda curvilínea da Avenida Rui Barbosa ou se pela aleia humanizante que se postava à frente dos edifícios da General Glicério. Costumavam andar juntos. Já muito amigos, decididos a estudar Engenharia, especulavam sobre uma futura empreiteira de nome explícito: Sales-Montenegro. Ambos apaixonados por seus times de futebol. Um, tricolor; outro, botafoguense. Conheceram-se no colégio. Muito cedo. Cravado sobre a topografia inquieta do Cosme Velho, o prédio modernista do São Vicente contrastava com a arquitetura austera dos ateneus católicos do Rio. Foi no São Vicente que tudo se deu. Vindos do primário, os alunos da turma 10, a antiga Admissão, descobriram cedo que aquele ajuntado de gente guardava segredos do acaso que só se explicam pelo acaso dos segredos. Fortúnio incomum. Ali nasceram amizades cimentadas por vidas vividas em companhia ou diáspora. A obsessão pelo futebol amalgamava a relação de parte deles. O torneio colegial, disputado na quadra caolha de cimento liso, caía àqueles meninos como as Olimpíadas aos gregos antigos. O time, forte. Tinha o Edegard, o Riva, o Pedro, o George, o Léo, mais tarde o Laurinho, tinha eu e o Carlos Augusto, os dois últimos os meninos que caminhavam pela Rui Barbosa e General Glicério especulando sobre a improvável empresa. Tinha também o então mirrado Durcésio, sobre quem já escrevi, e que se revelou anos depois homenzarrão de corpo e espírito com a força de um evento natural. Anos 1960. Mais de 60 anos passados. Começava ali, na turma 10 do São Vicente, uma rica história de amizades que sobreviveram ao tempo e aos desafios do convívio.

Uns dois anos corridos, esses mesmos amigos da Turma 10, já com o reforço do Laurinho, repartiriam férias e feriados prolongados no idílico sítio de Boca do Mato, patrimônio afetivo e material dos Corrêa Meyer, de onde veio em fileira de nome o Rivadávia Neto, o querido Riva. O sítio foi Xangrilá de uma leva de pessoas muito especiais. Divididos entre tricolores e botafoguenses, que se digladiavam em renhidas peladas, os amigos viveram no sítio uma época de fantasias emuladas pela generosidade dos pais do Riva e pelo convívio fraternal de almas que se fundiram em moto perpétuo. Ainda em Boca do Mato se juntou o querido Antonio, dono de refinado gosto cultural e afiado pragmatismo. Eventualmente, ganhávamos a companhia do Maurício, o Muri, e de seu irmão Marcelo. Já na companhia dos vizinhos que se instalavam no sítio do emérito botafoguense Paulo Azeredo, Muri e Marcelo fundaram A Barca do Sol. No colégio ou em Boca do Mato, a liderança do Carlos Augusto já se encorpava de forma natural. Foi representante de turma, revelou sua vocação de dirigente esportivo com o “Se Perder Acaba”, e co-criou comigo, o Lauro e o Hilton o performático Coral dos Psicodélicos. O Coral viveu glória efêmera ao adaptar o poema clássico I-Juca Pirama e cantar nos saraus a panfletária “Vim Lá do Fim do Mundo”. Tínhamos eu e ele modos diferentes de ver a vida. Eu, Beatles, ele, Rolling Stones; eu, Fluminense, ele, Botafogo; eu TV Tupi, ele, TV Globo. Eu, violão, ele, piano imaginário. Comungávamos no essencial. Bem dizer que todos os amigos de um tempo que faz daquele e de hoje souberam se manter amigos por obediência a um cânone pétreo: por maior que fosse ou seja a intimidade, ninguém faz dela álibi para faltar com o respeito. Tudo na certa medida.

Neste janeiro, mais uma vez pela ordem natural do tempo, Carlos Augusto puxa a fila dos nascidos em 1954. Vou falar mais dele que de outros, como já escrevi mais sobre outros que sobre ele. Carlinhos, como o trato, já nasceu com a boa companhia de duas figuras humanas raras: Seu Paulo e Dona Désirée. Paulo Montenegro, pioneiro das pesquisas de opinião pública no Brasil. Fundou um instituto que se imortalizou pela dicionarização de sua importância. Personalidade inquieta, iluminava ambientes com seu carisma e senso de humor cortante, contrastando muitas vezes com a austeridade serena da matriarca da casa. Tiveram mais três filhos, todos queridos por quem os cerca. Sob a liderança do Carlos Augusto, os irmãos Montenegro fizeram da marca Ibope o maior instituto de pesquisa da América Latina. Luís Paulo, antes, já havia transformado o pequeno auditório do São Vicente numa das referências culturais do Rio do final dos anos 1970. As irmãs Denise e Solange, rematavam com competência e leveza a suíte familiar. 

Minha vida e a do Carlinhos foram se imbricando naturalmente. No colégio, em Boca do Mato ou São Pedro ou Itacoatiara, na Rui Barbosa, na Belisário Távora, no Maraca, em todos os fazeres da agenda natural de adolescentes e dos recém-chegados à vida adulta. Tempo correndo, namoramos duas amigas de infância, casamos com elas em datas próximas. Tivemos filhos também proximamente. Já casados, fomos vizinhos de porta em Laranjeiras, menos de porta na Barra, mais ainda de porta no mundo. Jamais nos afastamos, ainda que por muitas vezes fisicamente distantes. A vida lhe foi trazendo incumbências graves para as quais se mostrou densamente preparado. Estava a seu lado em 1989, nos estúdios da Globo, quando num ato de coragem decidiu apostar nos números da boca de urna do Ibope, que apontavam empate técnico com ligeira vantagem para o Collor, e cravou que o Brasil acabara de eleger o azarão alagoano como primeiro presidente eleito depois de quase 30 anos. Histórico. Almoçamos dias depois de sua assunção à presidência do Botafogo. Estava feliz: “Beto, estou realizando um sonho de infância”. Tricolor seminal, eu sabia o que aquilo representaria de risco para mim. Deu no que deu. Ganhou um Brasileiro com um time de favoritismo improvável. Teve a ajuda de outro amigo querido, o Zé Luiz Talarico. Juntos, criaram um arrojado queise de marketing, com o patrocínio da Pepsi ao alvinegro. Transformou com os irmãos a marca Ibope numa empresa gigantesca e se tornou interlocutor preferencial de presidentes, ministros, líderes políticos, grandes empresários e jornalistas consagrados. Nada disso foi capaz de tisnar-lhe a essência. Manteve-se amigo com qualidades incomuns. Presente, solidário, compartilhador. Jamais deixou de retornar um telefonema ainda que lhe caísse no meio de uma reunião com o presidente da República. Era só esperar, o retorno vinha. Vem até hoje. Nossos caminhos profissionais se cruzaram intermitentemente, o que nos manteve em sintonia na maior parte de nossas vidas. Sem jamais deixar de ser sincero, ouve com interesse os problemas que com ele os amigos repartem. Dotado de particular senso de humor e temperança, só sobe nas tamancas se mexerem com o seu Botafogo. Aí o bicho pega. Jamais se afasta do Botafogo, o que lhe foi muito facilitado pela versatilidade do celular. Ainda que na redoma aquecida de um resort de uma estação de esqui, numa gruta de Évora, na sala da fazenda ou mesmo almoçando com amigos ou família, não é raro ver o Carlos Augusto tamborilando no celular em interação frenética com uns trinta grupos botafoguenses no WhatsApp. Não foge de polêmica, mas só a conciliação o sacia. Pude experimentar algumas vezes sua tocante solidariedade e engajamento visceral nas dificuldades dos que ele toma de afeto. Fosse bom senso ideologia, o Carlinhos seria carbonário da causa, incendiando na praça espíritos impulsivos. Sua presença referencial foi fundamental para manter unido o grupo de amigos da vida inteira, a que se somara ainda no “Se Perder Acaba” o meu irmão de berço Zé Luiz Talarico, parceiro da conquista de 1995. Retornou mais à frente do exílio temporal da turma 10 o querido Bonilha, e chegou em bom tempo Eduardo Almeida.

Devo ao Carlinhos as pistas para saídas de muitos labirintos em minha vida. Sei que todos os que o admiram e integram seu entorno de afeto viveram essa mesma experiência. Preservou-se esteio confiável e afetivo em momentos em que as soluções me pareciam intangíveis. Tudo o que em vida tocou deu certo, o que lhe permitiu realizar atos de solidariedade e amor ao próximo, como no episódio da doação de casas a famílias atingidas pela tragédia da Região Serrana Fluminense. Um gesto que ficaria anônimo não fosse a indiscrição de uma linda crônica do Zuenir Ventura. 

Ao puxar mais uma vez a fila da turma de 1954, agora com a companhia afetiva e serena da querida Maria Pia, Carlinhos se reafirma como catalisador de diferentes, de amálgama de matérias dessemelhantes, de farol disponível para os que lhe têm apego. Alguém que expressa e estende o sentido de que nada vale se manter vivo se nada em você faz a vida valer a pena. Ele faz. Muito. Pai e avô de lindas pessoas, chega aos 72 com a certeza de que viveu como O Lavrador das Mil e Uma Noites, de alma leve, com os amigos dentro do coração.

PS: a história de Simbad e O Lavrador, que abre esta crônica, não integra a coleção de histórias e contos populares das Mil e Uma Noites, originárias do Médio Oriente. Eu a inventei. E o que é o inventar senão manter o bom sentimento dentro do coração, a alma leve, pronta para os fardos do caminho?


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