Revendo Documentários

“Fico te Devendo uma Carta Sobre o Brasil”, documentário de Carol Benjamin, filha de César Benjamim, com co-produção do João Moreira Salles, uma viagem sofrida pelo universo sombrio dos subterrâneos da ditadura.

Em que momento mergulhamos no torpor, nos afastamos de nossa capacidade de nos indignar com a opressão, a boçalidade e as ameaças à liberdade?

Ótimo texto e impressionante a qualidade das citações(Pessoa, Hesse, etc) e conteúdos das cartas. Um libelo sobre como a dor excruciante da lembrança pode limitar o registro histórico.

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A vida vez por vez encadeia as coisas com surpreendente nexo causal. Revi há dias “La Bamba”, a comovente história de Ritchie Valens, que morreu aos 17 anos no trágico acidente aéreo que vitimou também Buddy Holly e The Big Popper. Dias depois, zapeando streamings, me deparei com “The Day The Music Died”, um documentário sobre o clássico “American Pie”, do Don McLean. Fiz muito bem em conferir.

“American Pie”, um dos maiores fenômenos pop da história dos EUA, foi feita por um músico ainda desconhecido. Ainda dolescente, quando entregava jornais, soube da tragédia que ficou marcada como “The Day The Music Died”. “American Pie”, em sua viagem antropológica recheada de metáforas felizes, se transformou no hino de uma nação recém-saída das lutas pelos direitos civis, traumatizada pelas mortes de John e Robert Kennedy, Malcon X, Martin Luther King e com a autoestima devastada pela Guerra do Vietnã. Seus oito minutos e meio de duração eram um desafio para as rádios populares, que exigiram uma versão mais curta. Mas o arrasto do sucesso estrondoso fez o país inteiro clamar pela versão estendida. Uma das músicas mais densamente americanas da história do pop.

Estava em 1971 focinhando um LPs na Bilboard da Santa Clara, quando o meu chapa lojista fez uma ironia sutil sobre uma música caipira que tinha acabado de chegar na loja. Ouvi e gostei, o que foi estranhado por ele. Levei o disco com o polegar do Capitão América na capa. Fiz bem, bom disco.

No excelente documentário, que esquadrinha exegeticamente a extensa letra da música, com seus diversos significados, vários artistas falam sobre o impacto do clássico de McLean na construção dinâmica da nacionalidade americana, e muitos afirmam que jamais haverá outra “American Pie”. Entre eles, o gênio Brian Wilson. Quem sou eu pra discordar dele?

Vale ver.

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Reassisti “American Factory”. Um documentário sobre a compra, por uma corporação chinesa que fabrica vidros para a indústria automotiva, da planta da GM em Dayton-Ohio fechada pela depressão de 2008.

A chegada dos chineses numa comunidade destroçada pelo desemprego e desesperança significou a chance de retomar a vida para 3 mil trabalhadores. Mas o choque cultural e de relações trabalhistas entre os dois países traz um enredo de dramas pessoais e frustrações que marcam as diferenças entre um país com tradição sindical e um fechado, com reflexos óbvios na produtividade e no eixo emocional do trabalhador.

Um tremendo documentário, premiado e incensado internacionalmente.

E ao final ainda rola um papo de 10 min dos produtores com o casal Obama.

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Já tinha assistido há tempos, em 2004, a um documentário sobre um ecologista – Timothy  Treadwell – que viveu por doze verões com os ursos pardos do Alasca, até ser comido por um deles. Documentário padrão Discovery, com muita qualidade, mas com pouco aprofundamento humano, uma história impressionante adornada por uma estereotipização digamos ingênua dos ecologistas. Timothy filmou cem horas de imagens sobre sua inacreditável aventura-obsessão. À época, lembro-me de ficar chocado com a brutalidade da morte do Treadwell em contraponto à sua fé na auto-inserção num mundo de seres selvagens e instintivos.

Logo em seguida, a saga de Timothy Treadwell foi documentada em “Grizzly Man” por ninguém menos que Werner Herzog. O premiado cineasta alemão agregou humanidade à história e a narrou com um texto matador. Cada palavra pode ser saboreada lentamente, como lenta é a narração de Herzog. Ao contar uma história de um humano sonhador assassinado por um dos ursos que pensava proteger, Herzog cunhou uma obra-prima de ensinamento holístico, mesmerizante, uma ode epifânica ao respeito que se deve ter entre os ambientes dos diversos habitantes deste planeta diverso e limitado.

Ensinante.

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Pode parecer romantismo, e é. Pode parecer apego à tradição, e é. Pode parecer resistência ao rolo compressor da globalização, e é.

O documentário Mondovino, dirigido por um bom provador francês, escancara a luta da cultura do “terroir” contra a pasteurização imposta pelo mercado americano de vinhos.

É tocante e provocador ver uma pequena província da França resistir ao tsunami dos Mondavi.

Quem um dia colheu uma fruta no pé, pisou na lama, limpou o Conga dos carrapichos, subiu em árvore, recolheu lagarta em caixa de sapato, remedou barulho de sapo, jogou bola em ladeira e rua; quem um dia fez da infância um través da norma, vai ficar feliz de não se sentir sozinho num mundo de desinvidualidades.

Imperdível.

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“PJ 20”, um apanhado dos vinte anos de carreira do Pearl Jam. Preciso, documental, informativo, o doc constrói tijolo por tijolo num desenho trágico e grandioso a cena da Seattle dos anos 90, quando bandas como Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains viraram inflexionaram o rock pasteurizado do pós-punk. Obrigatório.

Dos precursores Andy Wood e Chris Cornell aos eternos Kurt Cobain e Eddie Vedder, “PJ 20” é um balaio de delícias e desesperos.

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Idiotas deixaram-se inflamar por incitadores que os fizeram de bucha de canhão para criar as condições de um golpe improvável. Movidos pela idolatria a um boçal especialista em usar a função pública em benefício próprio, muitos viram suas vidas arruinadas pela histeria radical das redes.

O tempo nos mostrou que o documentário da Petra Costa, “Democracia em Vertigem”, envelheceu muito bem. Aliás, não envelheceu, se viu rejuvenescido pelos fatos.

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Pode-se não pedir pra tocar Raul, pode-se por desconhecimento não gostar do Raul. O que não pode é deixar de assistir ao documentário “Raul – O Início, o Fim, o Meio”.

Fosse apenas por Ouro de Tolo e Gita, já bastaria, mas Raul foi muito além. O documentário passeia, com fluência narrativa, com drama e espanto, pela inquietação criativa de uma mente inquieta.

Oferenda de luz para mentes turvas.

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Faz tempo de grosso. Assisti com a Rafa, minha filha, crítica de cinema da Variety Internacional, no Philos, a um documentário que defende tese ingrata aos apressados: os Beatles foram muito mais culturalmente importantes para o fim da União Soviética que a Glasnost do Gorbachov: “How The Beatles Rocked the Kremlin”.  

Duas gerações soviéticas aprimoraram impensáveis técnicas de escaramuça para ouvir e reverenciar os Beatles num ambiente repressivo.  Descobri estarrecido que uns malucos gravavam em fotos de raio-x os LPs que nunca chegariam pela via normal aos sovietes imberbes.

Em subterrâneos, revolucionários estéticos desafiavam o bloqueio cultural que o Presidium impôs a jovens que eram forçados a se divertir com aquelas músicas bizarras, sob a égide de um estado absolutista e gerontocrata.

Não cabe aqui discutir uma teoria abstrusa que opõe estética e ideologia. A melhor literatura soviética foi esculpida sob o jugo de um Czar escroto e sanguinário. Mas as vidas das gentes, matéria-prima da literatura, voa libertária sobre regimes de toda espécie.

Aguça os sentidos ver uns malucos confinados a sótãos de Anne Frank sendo impulsionados por um “leitmotiv” vital aos jovens: entender a contestação como antessala da liberdade.

O documentário termina com um show do Paul em Kiev, sob as lágrimas pungentes de milhares de jovens com 60 anos que faziam um acerto de contas simbólico com o obscurantismo a que forçadamente tiveram que se submeter.

A cultura é ainda a mais renitente das ideologias. Se morre a cultura, morrem os povos.

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Faz anos que assisti, também com a Rafa, a um documentário sobre Darwin, gênio da raça, alguém que em nome da ciência teve a coragem de comprar uma briga ingrata contra o criacionismo, pedra-de-toque da cultura religiosa, a dominante.

Mas me lembro que logo em seguida vi na internet uma notícia que desmente o cerne da teoria da evolução: a mulher do Leonardo Moura foi eleita a mais gata entre as mulheres dos boleiros.

Voltei ao criacionismo.

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Uma das histórias mais fascinantes do Serguei, bardo do incipiente rock brasileiro, foi a lenda – ou não – de que ele tinha comido ou fora comido pela Janis Joplin. Era chapadamente apaixonado pela Janis Joplin – ouvi Summertime um milhão de vezes -,  fiquei eufórico por esse gol brasileiro e tricolor.

Mais tarde, assistindo a “I’m a Man”, um documentário sobre o fantástico Leonard Cohen, narrado por ele, soube que Chelsea Hotel era uma evocação elegante a uma noite em que pegou a Janis Joplin no lendário hotel de NY.

Nosso velho Serguei estava em ótima companhia.

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Revi “Narciso em Férias”. O talento narrativo do Caetano – meticuloso e certeiro, delicado e cortante – confere encanto à crueza estética do documentário, mas reacende o medo de ver agora as sombras daquele tempo se moverem ameaçadoramente.

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O documentário “As Duas Mortes de Sam Cooke”, sobre a suspeita morte de Sam Cooke, relacionada com sua militância nos movimentos civis pelo fim da desigualdade racial naquele paisão democrata, me fez ouvir agora com calma um dos maiores cantores da soul music de todos os tempos. Gênio.

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Emir Kusturica, cineasta sérvio, fez dois excelentes documentários: um sobre o Maradona, de quem é admirador eufórico; outro sobre o que foi para ele ganhar um prêmio em Cannes em meio à perversidade da violência decorrente do ódio tribal que devastou a antiga Iugoslávia: “Cannes: The Moment Before”. Neste último, ele narra linearmente toda a angústia de um cineasta novo, fora do circuito geográfico dos medalhões, disputar com chances um prêmio em Cannes. Scorsese já havia esculpido outro documentário sobre a emoção única de levar a Palma de Ouro, com “Táxi Driver”.

Não é pra qualquer zé mané ganhar um prêmio em Cannes. O Brasil já faturou alguns.

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“1975: O Ano do Colapso” capta um fenômeno desencadeado pela crise dos anos 1970 nos EUA, no rastilho de Watergate, Vietnã, etc: uma safra de filmes confrontadores, descarnados, muitos deles, obras-primas definitivas.

Não dá para deixar de ver.


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