Desconexas 19

A vida vez por vez encadeia as coisas com surpreendente nexo causal. Revi há dias La Bamba, a comovente história de Ritchie Valens, que morreu aos 17 anos no trágico acidente aéreo que vitimou também Buddy Holly e The Big Popper. Dias depois, zapeando streamings, me deparei com “The Day The Music Died”, um documentário sobre o clássico “American Pie”, do Don McLean. Fiz muito bem em conferir.

Definida pelo autor como “uma canção caleidoscópica e onírica sobre a América”, “American Pie”, um dos maiores fenômenos pop da história dos EUA, foi composta por um adolescente ainda desconhecido. Entregava jornais, quando soube da tragédia do acidente aéreo que ficou marcada como “The Day The Music Died” Segundo McClean, se deu ali o fim dos felizes anos 50, quando a classe média americana pôs os pés no paraíso do consumo, embora ainda presa a leis racistas e outras formas de discriminação. “American Pie”, em sua viagem antropológica recheada de metáforas de duplo sentido, se transformou no hino de uma nação recém-saída das lutas pelos direitos civis. Traumatizada pelas mortes de John e Robert Kennedy, Malcon X, Martin Luther King, os EUA sofreram ainda um duro baque em sua autoestima pela extensão no tempo da absurda Guerra do Vietnã, com desfecho desfavorável ao Império. Seus oito minutos e meio de duração eram um desafio para as rádios populares, que exigiram uma versão mais curta. Mas o arrasto do sucesso estrondoso fez o país inteiro clamar pela versão estendida. É de longe a música mais – latu sensu – descarnadamente americana da história do pop.

Estava em 1971 focinhando um LPs na Bilboard da Santa Clara, quando o meu chapa lojista fez uma ironia sutil sobre uma música caipira que tinha acabado de chegar na loja. Ouvi e gostei muito, o que foi estranhado por ele, já que só comprava rock de guitarra enguiçada e black music. Levei o disco com o polegar do Capitão América na capa. Não me arrependi.

O excelente documentário da Paramount esquadrinha exegeticamente a extensa letra da música, com seus diversos significados. Passeia pela expiação de injustiças de uma sociedade que abriga pessoas doentiamente preconceituosas e competitivas. Vários artistas, no documentário, falam sobre o impacto do clássico de McLean na construção dinâmica da nacionalidade americana, e muitos afirmam que jamais haverá outra “American Pie”. Entre eles, o gênio Brian Wilson. Quem sou eu pra discordar dele?

Vale ver.

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Por falar em causa e efeito., o Crivella prefeito do Rio tinha o mesmo nexo causal que o de Keith Richards governador do Utah.

A cidade se livrou de um fardo, de sua antítese espiritual, da expressão pálida, esbranquiçada, sem vida, de sua negação.

Que o Rio retome pelo futuro que lhe resta sua vocação de cidade criativa, chão de todos. Mas nem sempre o futuro nos apronta boas novas. Pé atrás. 

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A Operação Carbono Oculto nos revelou uma verdade que muitos já tinham como sabida: as fintechs são a maior fonte de golpes e lavagem de dinheiro do Brasil, uma aliança tácita do crime com o mercado. 

Mas quando se pensa em controlá-las:

– Ain, lá vem intervenção, vão taxar o PIX!

Não, burro!!! Não é intervenção.

Crime organizado não tem esse nome por acaso. Se não tapar os buracos, se não sufocar suas fontes de lavagem, vão apenas colecionar mortes que serão repostas pelo crime, enquanto os territórios continuarão sob seu domínio.

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A questão da segurança no Rio só se resolverá quando a polícia sair do crime.

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Há em todo gesto da extrema-direita e de seus vocalizadores uma intenção clara de sequestrar os sensíveis para uma realidade em que sintam dor, para um mundo em que lhes seja sofrido viver, para a atmosfera sevicial das aberrações. Há método, e esse método reproduz a lógica da tortura, o desejo de agredir e impor medo.

Repetido sistematicamente, o método nos captura pelo horror e nos torna dependentes de odiar, o que nos enfraquece.

Bramir nossa indignação a cada cenário hediondo desse trem-fantasma em que nos enfiamos só nos aprisiona, só fortalece quem tem por estratégia nos manter irados e temerosos.

Há vulnerabilidades gritantes nos radicais, tudo neles ressoa desumanidade histriônica, retórica sob medida para satisfazer seu nicho de baixa exigência intelectual. Talvez isso explique suas ligações com o crime organizado, sua promiscuidade com as milícias, com a prática de tungar o dinheiro público dissimulada pelos berros da revolta orquestrada.

Só a democracia os fustiga, pois seu alimento é a indignação dos empáticos por sua incivilidade.

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O jogador de futebol é cercado frequentemente da pior escória social. Os mais fracos tornam-se vítimas fáceis de profissionais da espoliação. Esses parasitas dão ao jogador a falsa ideia de que podem tudo. Inebriados, tornam-se massa de manobra sob medida para os párias, e passam a transitar com desembaraço pela linha tênue que separa o legal do crime. 

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Plea Bargain.

Sob esse anglicismo pernóstico, se revela a intenção sub-reptícia dos togados e doutores em “resolver” pela oferta de penas menores o que o sistema judicial não consegue pela inteligência e eficiência funcional: a redução do alto índice de irresolubilidade dos processos criminais.

Não precisa ser especialista – não sou, sou curioso. Basta assistir a meia-dúzia de documentários premiados no Netflix para se ter ideia do estrago que a Plea Bargain fez aos sistemas judicial e prisional americanos. Sugiro 13ª Emenda, Making a Murderer, Olhos que Condenam, The Confession Tapes.

Milhares de inocentes pressionados a admitir a culpa por total incapacidade de suas defesas responderem ao poder avassalador da máquina acusatória do estado, sempre presa a um pressuposto arbitrário que desejam provar, e o rolo compressor da corrupção das penitenciárias privadas, sequiosas por novos detentos.

Com o Plea Bargain, o sistema melhora suas estatísticas de solução de crimes e lota os presídios de minorias raciais. Não é por outro motivo que os EUA têm hoje a maior população carcerária do mundo.

Por aqui, 210 mil pessoas encontram-se em regime de prisão provisória, 1/3 da população carcerária. A imensa maioria, obviamente, pretos e pobres. Mais grave nos EUA: 80% das pessoas do sistema ainda não foram condenadas. Destas, 33% são negras, 12% da população. Muitas serão forçadas a confessar crimes que não cometeram.

E isso nem de longe fez dinimuir – aliás, contribuiu para elevar – os brutais índices de criminalidade na terra dos livres, aquele canto do mundo que se arbitrou o papel de paradigma moral da humanidade.

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Lembrei hoje de uma tia a que fui muito ligado quando criança. Tia Margarida, a que restava dos tios e tias paternas. Morava numa simpática vila no Méier, um bairro marcado por suas vilas simpáticas. Seu marido, tio Arruda, entrava pela vila garbosamente montado em seu imenso táxi Chevrolet 51. Preto, obviamente. Eram os anos 60. A memória da infância reveste as lembranças de afeto, levam-nas para um lugar onde as imagens se encantam, onde sonho e realidade dão-se as mãos em gostosa cumplicidade.

Foram bons dias.

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Só o desprezo supera o ódio. Se não se consegue atingir o campo seguro do desprezo, fica-se preso ao ódio, dependente químico do ódio.

Só o desprezo tem o poder seminal de expor o ódio a seu pior inimigo: a sublimação.

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Ilhada culturalmente do Rio, refúgio de alpinistas sociais e boas almas e más almas que se exilaram da periferia muitas vezes pela via transgressora da economia informal ou da via exemplar da economia do sacrifício, a Barra é um mioma urbano. Notável o esforço da prefeitura em religar a Barra a seus ancestrais cariocas por BRTs desbravadores de territórios renegados. Mas é inútil. A Barra é um borrão antropológico, um rascunho de interatividade social possível. Um mosto de vans enormes e shortinhos minúsculos, anfitriã cafona de contraventores, subcelebridades e barões da lavanderia.

Me consola ter por aqui amigos que me inspiram por sua generosidade atlântica, ilhas de exceção geográfica.

Mas ainda espero por um BRT sem volta.

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Brasília me fez bem e mal. Bem, pelos amigos carinhosíssimos que fiz ali; mal, pela saudade de Goiás. Reouvi por esses dias vadios algumas coisas do João Caetano e me repus por via transversa num certo lugar com a sensação de jamais ter saído dele.

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Não carece tarefa de pouca monta se tornar uma anta. Ou já se é, ou demanda esforço e dedicação. Muitas vezes se é anta por teor de escritura lavrada em cartório, quando se associam aos nossos nomes, para efeito de praticados e provados, os nomes dos que nos geraram. Mais fácil o caminho, se filho de antas. E se assim o for, libertado estará dos mais temíveis augúrios e obsedações. Se constipado mental de nascença e crescença, a vida se faz alegre e alvissareira, correndo suave como água de riacho de Monet.

Mas se herdamos dos pais a inquietação, a mania de contrapor coisa com coisa, o sestro de pensar, o desejo da contemplação, o impulso de desrebanhar do rebanho, de fazer insatisfação o vestíbulo, se isso se dá com a gente, a obra de se tornar uma anta é épica, um esforço de estivador 6 x 1, um tijolo-por-tijolo de muralha de ombrear a da China.

Não foi por outra centelha que venho pensando em reunir amigos para agrupar num vade-mecum da felicidade descompromissada, qualidade orgânica das antas urbanas, um juntado de conselhadas e imiscuições pra intento de facilitar a vida dos que desejam abandonar a água turva da inteligência e mergulhar com sunga e biquíni de grife no Caribe da obscuridade alegre.

Se os amigos toparem, tô dentro.

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Fomos, eu e Tereza, beber um vinho e beliscar uns quetais na Passagem, bairro-berço de Cabo Frio. Lotada, a Passagem refletia uma verdade indesmentível: o dinheiro voltou às pessoas no Brasil de hoje. Supermercados congestionados, aeroportos tomados de gente, bares e restaurantes repletos, praias e estradas inundadas de corpos e carros. Os mais pobres melhoraram de vida, ganharam renda. Incontestável.

Na volta, entramos num Uber com uma bandeirinha do Brasil no painel. O cara, um armário com camiseta regata. Óbvio que, como a imensa maioria dos uberistas, era da turma do mito de merda. Comentamos, eu e Tereza, sobre o que vimos na Passagem e vivemos todos os dias. A Tereza foi mais longe: “agradeça ao Lula”. O cara deu uma acelerada brusca e passou o resto da viagem ruminando babas de Alka-Seltzer.

Ganhamos a noite. 

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Termino essas notas desconexas com a notícia da morte do Lô Borges.

Chocado.

Lô elevou muito o nível harmônico da canção popular brasileira.

Coautor de um dos mais importantes discos da música pop mundial, Clube da Esquina, Lô foi um artífice, sua música me puxou pela mão quando tudo parecia perdido ou fugidio.

Pessoalmente lesado com sua morte.

Passe em paz.


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