O Caçador de Marajás e a Refazenda

Maratonei por estes dias a ótima série “O Caçador de Marajás”, no Globoplay. Impossível assistir ao que o documentário nos toca pela memória refrescada sem se tomar de estarrecimento. As eleições de 1989 carregavam o peso simbólico de marcar o reencontro do povo brasileiro com o direito de escolher seu presidente. Após 21 anos de ditadura, o Brasil ensaiou seu caminho de volta à normalidade democrática pela via da mobilização nas ruas, com o povo fungando no cangote dos militares. Os primeiros passos se deram com a anistia ampla, geral e irrestrita, ainda sob a tutela do ditador João Figueiredo. Ao fim de seu interminável governo, o general Figueiredo, percebendo não haver clima para mais uma sucessão militar, meio que deixou correr frouxa a Convenção do PDS, onde seu candidato, o coronel Mário Andreazza, foi humilhantemente derrotado pelo obstinado Paulo Maluf. O ex-governador de São Paulo exagerou na dose da cooptação fisiológica dos convencionais, num desgaste insuperável com lideranças do partido, que, insatisfeitas com a volúpia cooptadora imoral de Maluf, se juntaram ao lado de forças do centro para formar a Frente Liberal. Com a emenda das “Diretas Já”, do deputado Dante de Oliveira, sepultada pelo Congresso Nacional ao lhe rejeitar quórum constitucional, os liberais entenderam que era hora de derrotar o candidato dos militares, ungindo Tancredo Neves, eleito indiretamente. Se ganhou a eleição, Tancredo foi derrotado por uma diverticulite que lhe abreviou a vida antes de sua posse, uma comoção nacional. Ulisses Guimarães, então presidente da Câmara e ainda sob a aura de ter presidido a Assembleia Constituinte, entendeu que a sucessão natural deveria ser dada dentro da chapa do Tancredo, em que era vice José Sarney, um liberal forjado na turma da Bossa Nova da UDN, mas que apoiou a ditadura militar. Estavam ali sendo criadas as condições para que cinco anos mais tarde irrompesse a “flor do limbo”, um jogador que entendesse haver à época um enorme contingente de eleitores que se mostrava sensível ao surrado discurso moralista da mesma UDN que gestou Sarney. O mesmo Sarney que serviu de limbo para o Caçador de Marajás, flor ilusória.

Centrado na crítica implacável ao governo invertebrado do político maranhense, Collor saiu de Alagoas, que governava, e se lançou candidato a presidente por um partido nanico, contra o desprezo de todos as lideranças da política brasileira – “Que petulância!”. Ainda governador de Alagoas, o jovem bravateiro se vendeu como implacável caçador das regalias da elite de servidores do estado, o que lhe valeu o estimulante apelido de Caçador de Marajás. Seu último período como governador já o desmentia na essência de sua alcunha, pois esfacelou os cofres do governo ao perdoar dívidas gigantescas dos usineiros alagoanos, um escárnio com duras consequências para a economia do estado por décadas.

Com um aproveitamento competente do pouco tempo que dispunha nas tevês, tanto na pré-campanha quanto na campanha, Collor se mostrou ao Brasil, com o artifício de uma verberação vocal e gestual forjadas, como personagem negada escancaradamente por sua biografia. Mas encantou serpentes. No último mês de campanha, para descrença de muita gente boa, liderava as pesquisas eleitorais, e o quadro das eleições se resumia aos dois candidatos com chances reais de disputar com ele o segundo turno: Brizola e Lula. As eleições de 1989 reuniram o que havia de mais expressivo entre os cardeais políticos brasileiros. Foram candidatos Ulisses, Covas, Maluf, Aureliano, Brizola, Lula. Com a coadjuvância de Afif Domingos, Caiado, Roberto Freire e um também desacreditado Fernando Collor de Mello. Havia ainda o simpático Fernando Gabeira, que, além de contar em seu currículo com a participação no sequestro do embaixador dos EUA, trazia o frescor das ideias de sustentabilidade com compromisso social. Era um Gabeira de outros tempos, bem diferente do comentarista errático dos dias de hoje. 22 nomes chegaram às urnas, um recorde.

Nos dias anteriores à eleição de 1989, uma imensa mobilização dos grandes artistas brasileiros levou de vez para as ruas a campanha do líder sindical e do PT, Lula, já então soprada pelos mais impactantes filme e jingle da história das campanhas eleitorais brasileiras, o “Lula lá”. Quando tudo caminhava para um segundo turno entre Collor e o veterano líder gaúcho, o Ibope detectou a subida meteórica do Lula e deixou em aberto sua previsão para a ballotage. O Ibope estava certo: deu Collor e Lula.

A poucos dias do segundo turno, passei pela Cinelândia, onde se realizava o último comício do Lula no Rio. Uma multidão, puxada pela linda voz do Djavan, cantava, esperançosa e abarcantemente, o “Sem medo de ser feliz – Lula, lá”. Fiquei com a impressão de que o jogo estava virando. Mas não apenas emulado pelo desastre e melancolia do ocaso do governo Sarney, de que se mostrou o mais ferrenho opositor, com inflação nos píncaros e políticos desmoralizados, Collor ainda se beneficiou de uma edição tendenciosa da Globo do último debate, um debate em que quebrando uma tradição sua, Lula foi mal. No dia da eleição, votei e fui passar o dia no Ibope com o amigo-irmão Carlos Augusto Montenegro. Fechada a boca de urna, esperamos o fim da votação. De lá, já com as urnas fechadas, fui com ele para a Globo, onde, entrevistado pelo Alexandre Garcia, divulgaria o resultado da pesquisa, que mostrava uma diferença pró-Collor no limite da margem de erro. Movido pela confiança nos dados do Ibope, Carlos Augusto assumiu os riscos e cravou para o país que o Brasil redemocratizado tinha um novo presidente. Estava certo. 

Ao ganhar a eleição, Collor provocou uma expectativa frenética por seu governo, comprometido, segundo ele, com a combinação entre modernidade e austeridade. Mas o que ninguém poderia prever é que ele iria muito além do razoável. Um dia após sua posse, por uma caótica entrevista de sua ministra da Economia Zélia Cardoso de Mello, Collor anunciava a um país estarrecido o confisco de toda a poupança, saldos bancários e investimentos acima de 50 mil dinheiros. Milhões de brasileiros foram levados ao desespero da iliquidez. Muitos idosos capitularam impotentes; outros, idosos ou não, se mataram. Um amargo início de mandato, baseado no caldo de sofrimento de milhões. Não parou por aí. Histriônico, anunciava por gestos superlativos um combate raivoso e criminosamente generalizado aos servidores públicos. Tudo isso para sustentar o mais ambicioso plano de assaque aos cofres públicos da história brasileira, capitaneado pelo mandarim provinciano PC Farias e seu Morcego Negro, o jatinho que se tornou emblema dos malfeitos. Ao chamar unicamente para si os benefícios do butim, contrariou interesses dos coroneis e seus currais eleitorais, colhendo de volta um clima insustentável nas relações com o Congresso. O escândalo eclodiu e ganhou força com as cada vez mais chocantes notícias do método PC Farias, culminado, ironicamente, pela compra de uma modesta camionete Elba com o cheque de um fantasma. Sim, o esquema circulava bilhões por contas com falsos titulares, os fantasmas. Uma vergonha chocante e constrangedora.

No início de seu governo, Collor anunciou medidas importantes de modernização da economia brasileira, com liberação de importações e combate às reservas de mercado. Foi insuficiente. No fim, desgastado, apesar de todo esforço em convocar um ministério de notáveis e se apropriar, em parceria com Brizola e Darcy Ribeiro, da ideia de nacionalizar os Cieps, um projeto com forte apelo popular, Collor foi impichado. Caiu de podre. Foi vítima da maldade que cultivou. Anos depois foi inocentado pelo STF e voltou ao Congresso como senador por Alagoas. Reincidiu na corrupção e hoje está em prisão domiciliar numa cobertura em frente ao mar, em Maceió. 

Um amigo bicho grilo, adorável pessoa, à época me fez uma observação interessante: “Nada que começa e se apoia na maldade pode acabar bem”. Ele estava pleno de razão. A maldade se constitui de matéria densa e insidiosa. Embora muitas vezes inerte, se tocada, volta com intensidade muito maior do que a bondade se mostra capaz. 

29 anos depois da aventura do Caçador de Marajás, o Brasil repetiu como farsa a história, ao eleger um mentecapto idólatra de torturador, especialista em maracutaias de gabinete, arauto da morte, desprovido de empatia, a quem coube conduzir o país no meio da maior pandemia do século. Pandemia de que fez deboche, oferecendo como resultado 700 mil mortes a bordo de jet skis e motos. Uma nova aventura felizmente interrompida pelas urnas. Mais um que apostou na maldade e recebeu de volta o que só a maldade é capaz de oferecer. Em breve terá o mesmo destino do Collor, provavelmente em prisão domiciliar numa mansão em Brasília. A democracia jamais estará imune às escolhas erradas, ainda que em seu processo histórico cobre caro pelos erros de quem deve representar.

Um dia depois de maratonada a série, fui abençoado por assistir ao vivo, na Arena Farmasi, ao show de fim da temporada do tour “Tempo Rei”, do imenso Gilberto Gil. Aos 83 anos, Gil, não apenas confirmou seu talento de gênio. Ele cuidou de nos lembrar de quanto sua carreira foi um pacto com a bondade. Esteve sempre do lado certo. Militante ambiental, intelectual com forte formação de engajamento nas causas sociais, Gil esparge serenidade, ternura, sem deixar de ser vigoroso, incisivo, na defesa de suas convicções. Uma serenidade que o permitiu conversar com a música, com o planeta, com a poesia, com o tempo, com os homens e mulheres, com a natureza, com Deus, disseminando amor de uma forma nem sempre tanto esotérica assim, incompreensível. Seu Deus, nosso Deus, é mais. Refazendo. Saí de lá mais uma vez acatando seu ato de disseminação de amor ao não-eu, demasiado humano ou não. Catarse do bem, um momento de redenção da bondade.

A maldade do Collor sendo conflitada pelo remédio da bondade monástica do Gil fez do meu fim de semana um passear de especulações que me cobriram de gratificação e esperança. Tempo rei.

PS: Essa esperança me impulsiona a não apenas completar o 15º dia sem tarja preta para dormir, mas acreditar que será possível viver desrivotrilizado. Não é guerra para se dar por vencida. Embate de todas as noites. O monstro continua entocaiado atrás da cerca. Cabe a mim fazer da cerca frágil ou resistente aos descuidos. Ou desespero. Ainda dormindo pouco, mas dormindo o mínimo, algo impensável há menos de um mês. Sinto meus movimentos mentais e físicos se beneficiando da abstinência. Que venha mais um dia. De cada vez. Agradeço à cumádi Hilta, pela indicação do Magnésio Treonato, e ao sempre generoso irmão Carlos Augusto, que me cedeu um frasco de melatonina spray. Santa combinação. Se ainda não durmo como os normais, pelo menos cultivo a esperança renovada por Gil de um dia poder fazê-lo.


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Comentários

Uma resposta para “O Caçador de Marajás e a Refazenda”.

  1. Que texto maravilhoso!!

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Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão

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