Desconexas 18

Num certo dia vivido.

Rafinha, filha, você me libertou de minhas mais renitentes culpas, de algumas de minhas mais difusas paranoias. Refrescou minha alma não pela brisa da surpresa, mas pela expectativa confirmada, ainda que a expectativa passeie por vales enquanto espera montanhas para dormir em seus cumes. Valeu cada medo infundado, cada noite indormida, cada desencontro com a solução fácil, cada tensão que pelo amor não lembrou desespero, mas apreensão de amor paterno. Você se tornou a mulher que esperava que se tornasse. Forte, inelutável.

Quando pisar o chão de seu futuro, pise firme, altiva. Muito bom reconhecer que você não se corrompeu intelectualmente, não se submeteu ao pragmatismo enganoso. Nunca duvidei de você, ainda que minha vida experimentasse vez em quando pisar chão movediço. Tinha na manga de minhas precauções um ás de ouro. Continua guardado e íntegro.

O destino nem sempre é inconsequente, ele também faz justiça, essa crença que nos gruda à vida com a cola etérea que nos faz sobreviver teimosos ao empuxo perverso do patético.

Segure firme em suas mãos o que lhe foi entregue por seu esforço.

O resto…bem…o resto é a vida. E ela pode ser bonita.

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Não acredito em ódio. Para nada. O ódio é tóxico, contamina o que temos de humano, produz em reação cada vez mais ódio, num ciclo ácido e impiedoso.

Tudo o que o canalha quer é ser combatido com ódio, pois o ódio se basta como gerador de repulsa.

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A Bárbara nasceu e chorou por seis meses. O que parecia desespero já era uma forma de cantar. Aos dois anos já animava nossas festas em Friburgo com performances memoráveis de “Vai ter que rebolar”, da dupla Sandy e Júnior.

De lá para cá ela confirmou minhas melhores expectativas. Filha exemplar, irmã solidária, artista sensível, aluna brilhante, ela evoluiu como cantora de forma impressionante. Valeu desconsiderar cada segundo em que a família aos berros pedia para que parasse de cantar por toda a casa. Por onde semeasse suas viagens mentais com seus cabelos coloridos e cacheados.

Pode ser que em breve ela realize o antigo sonho de revelar seu talento para o mundo fora do privilégio de seu convívio. Torço para isso que lhe entregue a felicidade que a vida por justiça cuidará de cumprir. Merece muito.

Muito orgulho dela.

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Amor é Geometria. Triângulo: eu, o outro e a dúvida. Pode ser isósceles, equilátero, retângulo, mas a soma será sempre 180 graus. Que é a medida do recomeço. Sempre é melhor recomeçar o que está certo. O que está errado não recomeça, apenas insiste.

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Quando não se começa a fazer amor pelo olhar, é grande a chance de terminar pelo adeus.

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Quando o Herberto Neto, um dos meus filhos, completava 16 anos, já mostrando seu virtuosismo como guitarrista e desejando fazer produção fonográfica, o que cravou, disse-lhe umas pequenas coisas. 

“Carregamos no nome o legado de um tremendo cara, o velho Herberto, que saiu de Andaraí, na Chapada Diamantina, aos 23 anos, com uma ideia na cabeça e os originais de um romance na mão, romance que trinta anos depois se fez traduzir em mais de vinte línguas.

Filho, não faça brinquedo do que pode lhe ferir, nem leve a sério demais o que é apenas um brinquedo. Creia, a vida vai lhe trazer muito mais impressões de gravidade do que se possa mesmo considerar grave.

Pise nesses 16 com a volúpia de seus melhores solos. Abra-se para timbres que lhe pareciam velhos, quando eram sinais de auroras boreais, com aqueles verdes fluorescentes serpenteando sobre nossas inseguranças. Seja campo magnético, jamais fagulha.

Amo você com a intensidade do amigo e a rabugência dos pais. Pais são rabugentos por temerem que os filhos lhes repitam no seu pior, mas o que apronta ser pior pra nós pode ser caminho de sustança pra quem vem depois. Coisas dessa vida que nos toma por inesperar.

Um toque: corte sua barba sobre jornais, pois cabelos com pasta de dente entopem pias. E se serve para as pias, serve para o que mais vier. A vida entope, se não a cobrimos com jornais imaginários.

Vou amá-lo para sempre, com meus defeitos, meus sestros, meus temores.

Agarre a vida com as mãos mais firmes que puder.

Enquanto estiver por aqui, vou lhe ser porto e tempestade: sou apenas pai.

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Brabo ter que passar um tempo que não termina a uma distância impensável de quem se ama.

O tempo e o amor podem ser bons cúmplices, mas nunca se justificarão pelo atalho cretino de uma conclusão clichê.

Se se ama, o tempo das gentes é tão relativo quanto o tempo de Einstein.

Não se perde tempo quando o tempo se faz saudade. Saudade é tempo que se ganha.

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Faz mais que dez anos. Estava em Buenos Aires passeando com um MIguelito portando seus oito anos de incontível efervecência. Simultaneamente rica e exaustiva a experiência de ter um filho hiperativo. Naquele dia, embora ainda purgasse a dor de uma recuperação meia boca de uma fratura do rádio, andei por umas quatro horas com o Miguelito. Ele simplesmente falou sem parar por essas quatro horas. Falava e falava, sem mesmo exigir de mim interlocução. Às vezes, um muxoxo do tipo “hum”, “sim”, era a senha para que a falação continuasse fluente e ininterrupta. Miguelito falou de ontem, de hoje, de amanhã, temperando suas divagações com comentários sobre tudo o que rolava na rua. Uma senhora oriental desferiu um arroto esquisito. Ele: “É por isso que acho chinês estranho, eles arrotam muito. A comida deles tem muitos gases”. Vá entender.

Empático, Miguelito cumprimenta sem exceção todos os sem-teto do caminho, emite opinião sobre a cor do ônibus, a saia de uma idosa, a raça de um cachorro, a banca de jornal que não vende o que ele pensava comprar. E tome de cantarolar, brincar de sibilações, ruídos onomatopaicos, e o escambau.

Sem parar.

Um só instante.

Ao fim das quatro horas, ganhei muito com o nosso passeio. Fiquei mais próximo do Miguel e comprei um Catena Malbec a 35 reais.

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Ouvir Pena Branca e Xavantinho em uma varanda da Barra emoldurada pelo Village Mall me faz reachar o espírito transgressor que pensei ter morrido em mim.

Soa como Tom Waits num templo da Universal.

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A vida encanta pelo que não podemos prever, pelo inesperado.

A vida calculada esconde as surpresas de quem pensa mantê-la sob domínio pragmático.

O futuro é uma invenção dos cretinos.

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Meus filhos são o filtro dos meus erros.

Ao vê-los e revê-los, eu realimento uma fé restauradora, fico meio que desconfiado de que pude ter dado certo.

Lindo, mas assustador.

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Comentários

Uma resposta para “Desconexas 18”.

  1. Avatar de Rodrigo Capdeville
    Rodrigo Capdeville

    que sortuda é a Rafinha! parabéns, Beto!

    Curtir

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão

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