Desconexas 17

Muitos são os dogmas religiosos sobre a morte. Para muitas religiões, a morte é castigo; para outras, libertação. O budismo pune, até que se limpem todas as impurezas, com a reencarnação, com o reenfrentar as agruras, sofrimentos e perplexidades que fazem da nossa vida um fardo de que esforçamos por nos libertar pela insobriedade ou pela fé ou pelo amor buscado. A morte reúne componentes de estupidez e libertação. Para os católicos, a morte é perda, ainda que se creia em uma nova vida vivida em um Lar etéreo, onde as pessoas caminham lentamente, derramando ensinamentos e chatices. Judeus não conhecem o diabo, mas a ira de Deus; creem na vida após a morte mais como um postulado que afirmação. Muçulmanos se punem pelo que praticaram aqui para ter direito à vida após a morte.

Não importa o que a exegese religiosa da morte nos ensine, duro perder de forma trágica uma pessoa querida sem que a vida nos tenha ensinado um quinhão de conforto secular com isso.

Não me consola especular sobre para onde foi um alguém que me fará falta, só que me deixou.

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Fui pai cedo e velho. São duas experiências muito distintas, embora intensas e com o mesmo amor. Sofri com os ritos de passagem de cada um deles. A dependência vital na infância, a desolação com as angústias da adolescência, a chegada da trilha por onde andar sozinho, mas sempre à nossa espreita.

Sei e provei disso e de mais um pouco. Fora dos gestos histriônicos da paternidade visceral, muito do que ela nos ensina cabe na dimensão despretensiosa da simplicidade. Não por acaso, um dos bons confortos que provei nessa aventura veio hoje com uma mensagem de um amigo que me tocou em meu sentimento paternal de uma forma delicada e confortante. Um reconhecimento pleno de afetividade de uma  possível e singela qualidade minha.

E o que não é a felicidade, se não o reinado do singelo?

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São Pedro da Aldeia tem poucas colinas. São pontuações discretas de uma imensa harmonia natural. O nosso sítio era numa dessas parcas colinas. Naquele sítio confortei as assombrações da infância e as perplexidades de um adolescente assustado pelo jogo duro da vida se revelando. Mas todas as poucas colinas de São Pedro da Aldeia me lembram minha mãe. A memória de minha mãe está ali, elevada em cada uma daquelas colinas diluídas no céu abarcador que deram sentido à minha vida. Plenas, pontuações discretas do entorno da lagoa.

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Até hoje me estarreço por lembrar que um psicopata sem empatia, ressentido, pequeno, um Frankenstein de bizarrices, conduziu um país com 210 milhões de habitantes na travessia da pior pandemia deste século. 

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Numa transmissão da Globo o Luís Roberto explicou o significado do 171. A vocação irrefreável do conselheiro Acácio de microfone.

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A vida é água de Marte, desfaz-se antes de se tornar inevitável.

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Às vezes, por renitência cretina, procuro entender a mitologia mundana da imprensa brasileira. Quanto mais nos aceitamos vítimas do subdesenvolvimento intelectual, mais valorizamos os ícones do senso comum. E por aí vicejam solenes os próceres do “patrimônio da razão”. 

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Nem sempre coisas que parecem chocantes nos chocam. Há banalidades e tragédias: chiclete de melancia e o suicídio dos insanos que seguiam Jim Jones, por exemplo, chocam.

Mas devo confessar: ando por conta de muito chocado com a desenvoltura dos cretinos.

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Minhas noites indormidas são tenazes de insetos aterrorizantes revirando o lençol que me abrigaria.

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Na véspera do 4/11, no dia anterior à Glória Eterna, passavam pela minha cabeça ilações vadias. Sofrimento e alegria se alternam em mim muitas vezes sem que os reconheça em suas singularidades. Soube purgar cada grama de sofrimento que os tempos obscuros do Fluminense me trouxeram. Provei uma experiência para a qual a vida jamais havia me equipado. Roí o chão mais carcomido, travei o amargo mais radical. Me lembro de cada segundo daquela noite trágica de 1998, e prometi a mim mesmo que jamais desistiria de quem nunca me deixou sozinho no território de minhas perplexidades. Caguei para preconceitos intelectuais ou para o estranhamento dos gentios, dediquei cada minuto de minha vida vivida comigo a reconstruir o chão em que pisei e pisarei minhas raríssimas certezas e minhas mais abundantes dúvidas. Hoje, desfruto a convicção da escolha certa, de apostar numa paixão que me mantinha e me mantém preso à vida.

Estava sereno, à espera do que o destino me prometera com o risco de optar por nele acreditar. Acreditei, não me arrependo um segundo sequer de agarrar o impossível pelo último nó da rabiola.

O que viesse vinha bem, era um puta lucro.

E se não viesse, foda-se, já foi pior.

Mas viria. Eu sabia.

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O primado da irrelevância e a satanização do pensamento levam ao alinhamento automático à agenda fútil e à sedução pela estupidez.

Um país pode e deve se dividir pelas ideias, jamais pelas certezas cristalizadas dos idiotas.

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A menor distância entre duas certezas é a dúvida. A menor distância entre duas dúvidas é a certeza.

Aposto na segunda, mas estou em dúvida.

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Sempre considero minha ignorância. Faço bem: o certo é se achar ignorante até que um relance o deixe em dúvida. Imunizei-me sempre pelo soro da dúvida quando o veneno da certeza ameaçava me tomar as artérias. É o que faço, mas não recomendo, pois quem recomenda prova do veneno.

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O convicto jamais se desacompanha de sua ignorância.

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Produzido pela Oprah Winfrey para o Netflix nem faz tanto tempo, “Olhos que Condenam” é um grito angustiante contra o absurdo poder discricionário do estado quando decide condenar alguém, ainda que inocente. Pior ainda se motivado por qualquer forma de preconceito.

‪Cinco vidas adolescentes dizimadas pela manipulação sórdida dos fatos em nome de uma certeza vazia, motivada apenas pelo desejo de confirmá-la.‬

‪Um libelo contra a absurda desproporcionalidade entre o peso do estado e o do cidadão comum, que sustenta o estado. ‬

Se optarem por assistir, aconselho um Plasil antes.

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A cretinice, quando refugiada na ideologia, encontra campo fértil de reprodução. Há bons pensadores que se permitem ver o quadro brasileiro acima das amarras ideológicas radicais, mas, uma pena, não aprenderam a gritar ou, pior, seus gritos não ecoam. Se critico algo, não sou necessariamente partidário do oposto a que esse algo representa. Posso navegar, à Rosa, na terceira margem do Rio, desde que nessa margem habite a repulsa veemente aos valores e crenças do fascismo.

Mas os fanáticos gritariam: “Isentão!!”.

Tempos cansativos.


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Comentários

Uma resposta para “Desconexas 17”.

  1. Adoro ler essas pérolas!!👏👏👏😍😍😍

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Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão

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