O Partido da Educação(Samba de Uma Nota Só?)

“Eis aqui este sambinha feito numa nota só, outras notas vão entrar, mas a base é uma só”. 

Era criança em tempo de aprontação, mas lembro a estranheza ao ouvir pela primeira vez o singular “Samba de uma Nota Só”, do Tom e Newton Mendonça. Foi num dos vários discos do João Gilberto que meu jamais esquecido irmão Heitor colecionava e que eu ouvia, querendo ou desquerendo, por partilharmos o quarto. Foi bom pra mim, Heitor sabia de música boa. Lembro também da primeira vez que vi alguém tocá-lo ao violão, numa das rodas que mitigavam as noites insones e depressivas de 1975, em Brasília. Memória que de mim não descuide, foi no violão do Custódio Rezende, compositor brilhante, parceiro-irmão, com formação musical na dissonância típica dos acordes do movimento que o corrosivo Sérgio Porto definiu como samba desanimado. Ao reparar com mais cuidado na harmonia que servia de chão para a repetição provocante de apenas uma nota, tomei um susto. Sobre a cama de uma harmonia complexa mas de andamento limpo, os fundadores Tom e Newton Mendonça forjaram uma melodia cinicamente simplória, cujo segredo era escancarado pela letra já em seu segundo verso: “…feito numa nota só”. Achado genial.

O Tom letrista não era novidade. Embora dotado de gênio harmônico, Tom já se revelara um criativo letrista em suas parcerias com o injustamente esquecido Newton Mendonça, músico refinado. Jobim confirmou seus dotes raros vida adentro, assinando solitário alguns dos clássicos de nossa música. Já Newton Mendonça se fez para o Tom como o Vadico para Noel. Não se sabe ao certo se a letra do “Samba de uma Nota Só” se fez por juízo do Tom, do Newton ou dos dois. À medida que a letra avança, e avançando com ela a harmonia e a melodia, o clássico revela um paradoxo que se presta a decifrar a intenção dos autores. Que alertam: “Outras notas vão entrar, mas a base é uma só”. 

Em sua segunda parte, o samba se desdobra da melodia monocórdia em uma explosão de notas, uma para cada sílaba da letra. Para cada uma dessas notas, uma cilada armada por Jobim e Mendonça, a paliar pela sofisticação pirotécnica da melodia e da harmonia o vazio do discurso: “…quanta gente existe por aí que fala tanto e não diz nada”. Muitos, por distração, usam o clássico eternizado por João Gilberto como metáfora da monotonia. Ingênuos. 

Os poetas maestros sabiam das escaramuças das vidas das gentes: a beleza se enamora da simplicidade. Eles mesmos confessam, fingidamente: “…já me utilizei de toda escala e por sinal não deu em nada”. E voltaram para sua nota como a voltar para o amor de que não se consegue fugir. Arrependimento oportuno. Quem dele não se acomete? A lição dos mestres da bossa nova vale para o varejo existencial, para a eliminação de crenças, para a revelação de verdades complexas e banais. Descomplique sempre, ainda que seja para atravessar uma rua, temperar tapioca, encaminhar uma decisão crucial ou tratar de caspa. Serve, principalmente, para a higiênica extirpação de toda e qualquer futilidade material ou intelectual, tão em voga na vigência da verborrágica sociedade da opinião.

Se cabe num samba, cabe na vida. E cabe para nos lembrar da decisão vital que todos nós, brasileiros, ciclicamente somos instados a tomar: quem cuidará de nossos interesses no cosmo pegajoso das supremas decisões, a política? Quais serão os próximos atores, outorgados pelo voto, a produzir nossas futuras decepções? Confesso o tédio de me ver por vezes de tantas forçado a executar o movimento pendular entre o voto em quem não quero votar por convicção e o voto em que devo votar por não querer que aquele em que não voto por convicção ganhe o jogo. 

Nossa adolescente democracia pode não ter produzido a constelação de mártires que fundaram as bases civilizatórias do Velho Mundo, em grande parte financiadas pela expropriação das colônias, mas não foram poucos os que por aqui experimentaram sacrifício para que hoje tivéssemos o direito de pensar diferente. Construímos, tropeçando nos cascalhos da história, uma democracia pluralista, includente, um país onde as correntes de pensamento se expressam livremente. Mas nos falta abrir à diversidade a chance real de se representar de forma proporcional nos fóruns de poder. Diversidade que profilaticamente deve reprimir as vertentes que produzam consequências brutais em minorias com o mesmo direito de se expressar, no bom ensinamento de Karl Popper em seu Paradoxo da Tolerância. Tolerância ilimitada leva à irrupção da violência da intolerância, nociva à democracia. A eleição de duplo escrutínio nasceu da intenção de garantir, no primeiro turno, a manifestação e representação das mais várias formas de ver a vida e o mundo. Muito se perdeu quando fizemos do primeiro turno um plebiscito, restringindo precocemente o debate das ideias. Somos ou não uma democracia representativa? Por que nos atermos ao tudo ou nada desde o primeiro round? Ao ganhar ou perder no momento em que todos deveriam ganhar? Pode-se ganhar apenas avançando, conquistando paulatinamente representatividade, ampliando as bases de expressão orgânica das ideias que defendemos, comendo pelas beiradas. Tese hoje improvável, se não precedida de uma ampla reforma eleitoral que enterre de vez o sistema proporcional exclusivo. 

Como se dá hoje, o que vemos é a entronização dos donos de partidos e o favorecimento para o Legislativo dos candidatos apoiados por corporações, igrejas, crime organizado, sindicatos ou instituições setoriais da atividade econômica. Já no segundo turno, no correr do rito democrático de obtenção da maioria do eleitorado, aí sim cabe a contraposição das ideias e intenções dos dois mais votados, já acrescidos dos apoios e compromissos programáticos fechados com os que ficaram no caminho. Os dois sobreviventes que se esmerem em persuadir quem neles antes não votou.

Decidir em quem votar na ballotage pode até se dar por simpatia às ideias ou excludência, mas, antes, o desejado é que as eleições contemplem a representatividade na formação dos parlamentos, as casas do povo. Esta a lição histórica. Estão aí os verdes, que trouxeram sua causa para o proscênio das decisões de poder e hoje canalizam parte importante da agenda de um planeta agônico. No início, com a radicalização que se prestava à causa combinada com resiliência granítica. Derrubaram muros de intolerância e edifícios de descaso. Cansativo encenar o papel de marisco entre o rochedo dos privilégios da banca e o mar de histrionismo dos populistas. Não há terceira via? Viabilize-se a quarta, quinta, sexta via, ainda que insuficiente, mesmo com o meu voto, para ganhar a próxima eleição. Talvez nem a próxima da próxima. Em 2022 foi importante derrotar a ameaça fascista materializada por um tosco idólatra de torturador, mas o fascismo estará sempre à espreita enquanto o conhecimento não for efetivamente democratizado, única via para a socialização real das oportunidades. Por que não um partido do samba-de-uma-nota-só da educação? Sou um classe mediano arquetípico, o que não me desonera – antes me obriga – de exigir um ensino público universal de qualidade, revolucionário, efetivamente reparador de nossas constrangedoras diferenças sociais. Hora já tardia.

Num país que quebra contratos da previdência, confisca e surrupia a pensão de velhinhos, subverte regras como as do reajuste de salários, estimula a precarização do trabalho, sustenta cartéis corporativos incrustados no estado e deixa os portões escancarados para as verdades impositivas do abstrato mercado, por que não vincular a hoje na agenda taxação dos ricos a um programa de educação integral de qualidade? Já nasceria com o significado simbólico de reduzir a concentração do conhecimento e oportunidades pela contribuição dos que historicamente se beneficiaram delas. Sobraria orçamento para garantir outras políticas públicas irrenunciáveis diante de nossos abismos sociais. Embora todos as desejemos transitórias, hoje, cruciais. Mofou o Fla x Flu ideológico antecipado, a polarização fulanizada, eleição atrás de eleição. Há muito, a economia, o senso comum de superfície e a fisiologia, de um lado ou de outro do domínio dos meios de produção, sugaram a ideologia da política.

Hora já correu de dar limites ao monopólio acadêmico dos liberais americanófilos e de parte da esquerda intelectualmente blasé. Não cabe mais o donismo da verdade no fórum dos nucleares problemas do país. Quero uma idéia só. Simples e revolucionária. No Brasil, os partidos deixaram há tempo de expressar teses, conceitos ou programas, e se transformaram em cartórios sórdidos de interesses pessoais, currais de rufiões. Quero um Partido da Educação, com um “E” estiloso em sua logomarca, parecidinho com o “V” dos verdes. Carrego a nostalgia dos botes do Greenpeace atravessando o caminho dos superpetroleiros. Nosso inimigo é outro mas será sempre o mesmo: a ganância e as consequências de sua voracidade. Só a educação de qualidade das massas servirá de contraponto real para o corolário “meritório” das elites. Vou pular pro bote da Educação. Educação pensada e agida como processo transformador, transversal, emancipatório, universal, luta planetária. De lá verei a terra firme onde devemos aportar.

O resto das políticas públicas – saúde, saneamento, habitação, cultura, ciência e tecnologia, desenvolvimento regional, etc – vem por desdobramento da solução natural, cobra-se forte depois. Como ensinaram os maestros Tom e Newton: “Outras notas vão entrar, mas a base é uma só”.

Quem se habilita?


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