Quem Vai Tirar o Enivaldo de Lá?

Não foi sem ressabio que Enivaldo recebeu o telefonema de Eustáquio. O velho amigo fazia tempo que se esfumaçara da lembrança de Enivaldo. Eustáquio, antes ainda de sentar praça na vida pública, investido com direito a fanfarra e frozô de puxa-sacos na venerável função de secretário de Cultura de Campo Torto, já era chegado a costear os homens enternados, discursadores de ofício, ilustres mandatários e autoridades quetais. Era tido como rapapesista profissional, homem de falar no correr do verbo. 

– Que diabo esse cara quer comigo? – ruminou Enivaldo:

– Amigo, amigo, há quanto tempo a gente não se vê. Sabe como é, ando enredado com essas funções de solenidades, inauguração, dia sim, homenagem, dia sim também. Você entende, não é, Enivaldo? Vamos no correr do que interessa: rapaz, reservei para você uma missão daquelas que a gente só incumbe um amigo, mais até que um irmão. Não sei se você andou lendo a Gazeta Campotortense. Nossa secretaria vai inaugurar a toque de caixa o Conjunto Cultural João de Mello, uma justa homenagem ao inesquecível poeta João de Mello, patrimônio cultural de nossa terra.

– Li, li sim, Eustáquio – Enivaldo meio que muxoxou – e o que eu tenho a ver com isso?

– Tudo, Enivaldo, tudo! Você é um dos mais respeitados animadores culturais de nossa cidade. Lembro-me ainda dos festivais que você organizava no tempo do colégio. Ficaram marcados em gerações de Campo Torto.

– Mas, Eustáquio, não era bem eu quem organizava, era mais a Neleide. Eu ficava só ali do lado dela, pitacando, dando uma forcinha.

– Que é isso, Enivaldo? Não há ninguém aqui em Campo Torto que não ligue aqueles inesquecíveis festivais à sua pessoa. Não se deprecie, você não toma jeito mesmo, continua com seu jeitão simples, humilde pela conta do exagero.

– Diga logo o que você quer, Taquinho – Enivaldo sentiu-se estimulado a recuperar a intimidade perdida pelo formalismo que marcava o Eustáquio daqueles tempos.

– Você sabe, você não é ingênuo. Estamos em fim de governo, a obra ainda não está totalmente terminada, mas o prefeito quer inaugurar de qualquer jeito ainda no seu mandato. O conjunto ainda não tem estrutura aprovada pela Câmara. Estamos meio que no ar, sem ninguém na secretaria que possa assumir a direção desse marco da cultura campotortense. Só você, Enivaldo, só você pode responder por essa missão cívica, pela qual guardará gratidão por toda a eternidade o povo de nossa cidade.

– Pera lá, Eustáquio. Eu não tenho vínculo nenhum com a prefeitura, sou um cidadão comum. Acho arriscadas essas coisas de contas públicas, com juiz e promotor lavrando decisório, fungando no cangote da gente, não sei.

– Deixa de bobagem, Enivaldo. A importância da obra é tamanha que ninguém vai reparar nisso. Você tem ideia de quem a projetou? O maior arquiteto da história de Sorocaba, uma instituição para a cultura de todo o interior paulista, Memésio Caldas.

– O projeto é do Memésio, Eustáquio? É muita responsabilidade. Mas, bem… se é do Memésio, vá lá, desde que seja por uns dias, eu…eu topo. Por uns dias, heim, Eustáquio! Sou um homem com folha corrida nos fazeres culturais de minha, de nossa terra. Afinal fui o organizador dos festivais do Ateneu Robério Silva – no vento da empolgação, Enivaldo tratou de deslembrar da Neleide, a quem antes fizera justiça.

– Então, Valdinho – tudo agora transcorrendo naquela intimidade que se instala quando amigos dissimulam ressentimentos – vamos em frente, que atrás vem gente.

– Só você, Taquinho. Se é assim, conte comigo.

Enivaldo se armou do velho reibam de polícia que mantinha estojado, cheirando à tinta, sob uns blusões de madras a quem recorria a cada festa do peão por onde se exibia rasqueando viola. Foi chegar no João de Mello e baixar a primeira ordem: “Quero a chave, a chave”. O incauto servidor municipal a quem até aquele momento cabia zelar pelo novo próprio da cidade caiu na esparrela de inquirir Enivaldo: 

– Como é que é?

Enivaldo foi direto: 

– Sou Enivaldo Siqueira, escolhido pelo secretário Eustáquio Santiago para assumir o Conjunto João de Mello. Tem mais: com plenos poderes. Vá me passando logo a chave e cuidando de preparar relatório de ocorridos. Quero saber de tudo, tudo. 

Renildo, funcionário faz vintena do município, pensou em perguntar a Enivaldo, velho conhecido, se ele arrumara vínculo com a administração da cidade, mas logo desistiu: “Se é homem do doutor Eustáquio, não demanda autorização”. Enivaldo, chave à mão, antes mesmo de sentar na cadeira, entabulava idéias. Especulava oficinas de bricolagem, exposições, instalações, sacolejava os neurônios para dar conta de envolver a comunidade na programação do espaço, de planejar a agenda de eventos para o octogenário de Memésio Caldas, no ano seguinte: “Administrar é se antecipar aos fatos”, repetia e repetia.

Enivaldo se revelou nos quarenta dias que lhe couberam como gestor do centro cultural um administrador criativo. Deu vida a um espaço sem a menor estrutura, sem funcionários, abandonado à própria sorte. Dia correndo dia, venceu o tempo da gestão de Eustáquio na Secretaria de Cultura. Por assim de ofício, baixou sepultura o reinado de Enivaldo no João de Mello. Prefeito novo, secretário novo – Robério Andrade, neto de Robério Silva, o fundador do Ateneu -, a situação ilegal de Valdinho emergiu de estalo da névoa em que vivera pelo tempo de quarentena. Já no primeiro dia de governo, antes de partir para a primeira visita ao Conjunto João de Mello, o novo secretário foi alertado por um servidor da prefeitura sobre a situação de Enivaldo: “Secretário, não sei onde o doutor Eustáquio estava com a cabeça”. Robério mal sabia o que o aguardava ao chegar ao mundo que Valdinho tomara por arcano. Não cabia tarefa simples no dar cabo de lhe dar um chute no traseiro. Enivaldo foi curto e grosso: “Não pedi pra assumir, agora quero ficar”. Robério, radical do bom senso, tentou amenizar a tensão do encontro começando a prosa pelo reconhecimento do bom trabalho de Enivaldo nos parcos quarenta dias em que tivera o João de Mello nas mãos, mas sem deixar de ser sincero no trato da irregularidade que marcava toda aquela situação. Enivaldo tudo fotografava com sua implacável Cânon de 6,2 megapixels, e foi constrangendo Robério com intransigência cada vez maior em seus argumentos. 

– Sou animador cultural respeitado, promovi os festivais do Ateneu de seu avô, dei vida a um natimorto. Não acho justo ser agora cuspido por um detalhe legal que não me cabe respeito. 

Robério retrucou:

– Não é detalhe, Enivaldo, lei não é detalhe, lei é para ser cumprida. O Procurador Geral do município exigiu que você deixasse as chaves e o comando do João de Mello ainda hoje. 

– Não sou lixo pra ser jogado na porta, irritou-se Valdinho. 

Robério deu por encerrada a visita ao Conjunto e voltou à secretaria, onde daria trato à estratégia para tirar Enivaldo sem recorrer à truculência. Reuniu a assessoria e lançou o repto: “Quem vai tirar o Enivaldo de lá?”. Totonho Pincel, artista plástico com talento reconhecido em toda região de Campo Torto, famoso por sua sinceridade crua, chamou a si a missão: “Fique tranquilo, secretário, vou lá e demovo o Enivaldo dessa ideia absurda de resistir”.

Dia seguinte, café tomado às pressas pela nervosura de resolver logo o impasse, Totonho partiu feito marechal de campanha para liquidar o assunto. Chegando ao João de Mello às sete e meia, imaginara esperar por Enivaldo. Surpreso, Totonho descobriu que Enivaldo dormira no Conjunto, onde estocara mantimentos e se preparara para resistir até o limite de suas forças. Pincel foi curto e grosso: 

– Enivaldo, você tem que devolver as chaves agora e sair daqui imediatamente. Este é um próprio municipal, e apenas servidores do quadro do município podem zelar por ele. Somos gratos por sua eficiência e dedicação, mas não podemos estender uma situação ilegal. 

Enivaldo se exaltou, já agora agarrado à cadeira: 

– Não saio, já disse que não saio! Isto aqui é minha casa, minha vida. Não sou lixo, não sou gordura, sebo. Dediquei o melhor de mim nesses quarenta dias, não vou admitir levar um chute na bunda como um moleque, um bastardo. 

Antes que Totonho pudesse retrucar, Enivaldo continuou: 

– Tomei a cruz e vou defender o Lugar Santo. Sou um templário, estou aqui para zelar pelos peregrinos, não é qualquer Saladino que vai me afastar do sepulcro sagrado. Consumi-me em corveia, agora resistirei. 

Pincel enfim entendeu o que se passava: “O homem enlouqueceu, Robério”.

Desavendo outra atitude a tomar, Robério solicitou os préstimos da Guarda Municipal para retirar à força o ensandecido Enivaldo, o que foi feito sem que se evitasse, a bem dos costumes, uns trancos no desinfeliz. Toda Campo Torto ouviu naquele dia os gritos lancinantes de Enivaldo: “Sou Urbano II, vou reunir os reis da Europa, vou retomar o Lugar Santo, mamelucos desgraçados”.

Mês-traz-mês na carretilha do tempo, as únicas notícias de Enivaldo eram trazidas por Vevé Pedalada, carteiro com juntada de serviços no ofício de espalhação de falados: 

– É tudo muito estranho. Ele fica deslonjado de uma mesa no centro da sala, dando ordens em voz alta à mulher, coisa esquisita. Um dia manda a mulher ouvir o curador de uma tal exposição, outro dia fica repassando num papel em branco uma lista de convidados, vez por outra se enfia num terno e diz que vai despachar com o secretário. Coisa de ruindade das ideias.

Enquanto as doidices de Enivaldo se restringiam ao âmbito de sua casa, ninguém em Campo Torto dava bola pro disse que disse de Vevé. Tudo corria com jeito manso de riacho, até que fez dia, para espanto geral, Enivaldo irrompeu em praça pública armado com uma vassoura de ponta afiada em calçada de concreto, bradando ao céu: 

– O filho da puta que se puser no meu caminho vai ser varado pela espada de Artur. Portulano à mão, vou retomar o João de Mello com ajuda dos mongois, não sem antes subjugar o Egito.

Aí não teve jeito, em nome da ordem pública e dos bons costumes de Campo Torto, os soldados desceram-lhe o porrete e o recolheram aos costumes por perturbação da ordem pública e uso desajuizado de expressões subversivas. 

Baixado em hospício, Enivaldo hoje cuida do Instituto de Cultura Philippe Pinel.


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Comentários

Uma resposta para “Quem Vai Tirar o Enivaldo de Lá?”.

  1. Hahahahaha,que delícia de texto!!😂😂😂😂

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