Encontrei por tarefa do acaso Glicério, ex-colega de trabalho. Estava acompanhado de Lianilson, seu caçula. O nome do filho mais novo, uma homenagem ao ator-herói dos filmes de ação que tanto encantam o bom Glicério. Ele acabara de chegar de uma temporada curta num hotel-fazenda. Os olhos feéricos de entusiasmo com tudo que viu e viveu. Foi eloquente:
– Você precisa conhecer, Beto. O quintal do paraíso!
Da cama ainda caio e choro.
Me lembra a primeira vez que ouvi falar desse tal de hotel-fazenda. Correram-me à mente as mais bucólicas especulações, com cabras ao lado de vacas de tetas europeias placidamente desfrutando gramíneas tenras e suculentas. Garrei de imaginar um facho de luz holístico a nos guiar em grupo pelo paraíso redivivo. Sem serpente e com maçã desavisada de vestíbulo de pecado. No meu assuntar só aportavam sóis tépidos e luas cintilantes. Cavalos de cinema que me autorizavam ser vistos do alto de meu cânion particular, com direito a riacho correndo macio e brisa leve. Vez e meia uma folha dormitando em caminho riscado torto e confortante em meio a um lindo gramado se estendendo até onde bater o olho, comprido feito sucuri de fábula. As cidades onde deitam chão esses hotéis são cantos de sereia em seus nomes acabados em ópolis, eira, juntada de letra que chegava aos olhos e ouvidos das gentes com aquele sobio de chamado. Os nomes lembram céus na terra, carregando apelido de montanha, cor, lago ou morada. Serra Verde, Lagoa Branca, Casa da Água, Rio Dourado. Nome de confortar espírito tombado em ansiedade indomada. Tudo em cumplicidade terna e consolativa. Os tais dos hotéis-fazendas viviam orbitando o universo de meus desejos irrealizados, aqueles que fazem de nossa vida um canteiro de frustração consentida. O não ter pelo desejar, o desejar pelo não ter. Assim que andam os homens. E as mulheres, por derredor de causa. E não indo aos tais hotéis-fazendas, os tais desejava, cuidando de não ir por poder desejar. E minha vida foi confortável e desafligida.
Mas não aprendo.
Já portador de idade corrida, olhando pelo retrovisor os 60 sumirem feito leite aguado pela marcação da estrada, veio a tentação. Numa dessas noites em que navegamos bobageira pela rede, chegou-me pela caixa de entrada, sem que ninguém houvesse a ninguém concedido o direito de entrar, um suspeito i-meio a bordo de um chamado provocador: “Fim de semana no paraíso”. Coisa de vadiagem internetiana. Cliquei no bicho, e o bicho me abriu, pelas maravilhas do foto-chópi, aquelas imagens de meu caderno de inquietações pela via do desejo de ter, quando o que queria era o desejo de não ter, para manter o desejo na conta do dia. Caí na esparrela de consultar a família sobre o tal do fim de semana. E todos assentiram com bulir com o inesperado. O que vi e passei foi dureza.
Desde que brasileiro limpou nome no essepecê e descobriu o mundo encantado da prestação sem juros, o brasileiro num aceita mais morrer sem da vida ter exaurido a última gota de prazer. Quer cair de boca nesse mundão fascinante do varejo ao alcance das mãos, com celular e 4K a botar rai-definíchom pelas ventas. E num querer morrer virgem de experiências levou o brasileiro à histeria pela saúde. E tome de academia e cúper. Meia soquete e tênis de oitocentos contos. E tome mais: tome de vida saudável, com caminhada em caminho de bicho, andação por árvore quié morada de macaco. E desce cachoeira e sobe ribanceira. Danar de voar feito passarim, se jogar de penhasco, surfar no vento e o escambau. Tréquim, ófi-rôudi e mais de não medir.
Comprei o diacho do pacote. No que pus os pés no famigerado hotel-fazenda para viver meu “Fim de semana no paraíso”, fui logo vendo uns paramentos de fazer força e sacrifício, umas geringonças esquisitas espalhadas pelo chão, um montão de coisa pendurada em poste e árvore, gente andando por fiação e garoto encapetado literalmente subindo pelas paredes, com pais e mães babando sonrisais de orgulho cretino. A piscina, com rede esticada no meio, cercada de apetrechos e brincantes. Passou por mim uma charrete lotada, arrastando-se pela obra do sacrifício de um cavalo arfante feito um esquimó asmático. Um pesadelo.
Fui prali, em meu “Fim de semana no paraíso”, imaginando ler o livro que escolhi com acuro, ouvir por meia e volta um sonzinho do mato, passarim piando, bicho-do-mato bichomatando. O meu paraíso particular é simples, caixa de coisa parada, com rede pra depois do almoço e cama com almofada mole pra depois do jantar. Varandinha com jeitão de avanço sobre o que num é morada por ser da natureza. Pensei em voltar pro sossego de casa, ainda que sossego em casa do viver da vida de duas meninas e dois meninos. Além de trabalhoso, as crianças não entenderiam. Resolvi esperar. Veio o almoço. Um salão imenso com uma ilha central opulenta, ponteada de rechôs com opções que prometiam o prazer impagável de comida caseira honesta. No que levantei, fui atropelado por três crianças que corriam pelo salão como se o salão fosse um parque de Herodes. Mal consegui chegar ao que mentalmente elegi para compor o prato. Quando dei conta, tudo já estava revirado e morno, pra desmoralização da arrogância dos rechôs e da coreografia nervosa de garçons perdidos. Um cartazinho, no entanto, me tomou pela vontade. De noitim ia correr pelo casarão do hotel uma musiquinha caipira, a que de imediato somei em minha esperança vã uma e outra prosa de cigarro de palha molhado de cachaça. Tranquei-me no quarto pra função de num ver aquele frenesi bizarro que se instalara no meu outrora mundo do desejo do não-tido. Fez noite e rumei pro casarão, sem antes dar um quinhão de tempo pra num correr o risco de ainda encontrar uns chatos pelo caminho. Naturista dorme cedo, pensei. Errado. Quando pisei no chão caiado do salão maior da casa, vi os dois violeiros num cantim, cantando com força pra fim de superar a gritaria de um mar de crianças que lhes faziam ilhas melancólicas. Seus pais e mães apinhavam o salão, somando decibéis aos já estrondosos de seus filhos. Os coitados dos violeiros, que bobos não são, cuidaram de cantar baixinho, rendidos à opressão sonora da horda de crianças. Criança por criança tenho as minhas. Voltei em rito sumário pro quarto. Quando sonhava com meus livros, minhas listas de música caipira e minhas redes, às seis da manhã, um idiota bateu freneticamente na minha porta com aberrações do jeito “Vamos acabar com a preguiça, minha gente, vamos andar que o dia é longo. Tem caminhada, arvorismo, rapel, tirolesa. Vamos, gente!”. Aquele desinfeliz reconduziu-me ao patético de minha permanência naquele terrão do diabo. Fechei a conta e tomei rumo.
A vida, para os que chegaram aonde cheguei, já nos impõe uma rotina cruel de renúncias e sacrifícios. Não podemos comer o que gostamos, beber como desejamos, sassaricar como já fizemos. Nossos dias se tomam do incômodo realizar de tarefas sobrevivenciais. É caminhada, não sem antes e depois alongar; fisioterapia, em que somos forçados a movimentos que muitas vezes nos constrangem e semelham sevícias; pilates, uma forma de tortura lenta que precede o caco em que nos tornamos depois; exames periódicos com intervalos cada vez mais curtos, alguns, embaraçosos, outros, claustrofóbicos; academias, em que desfilamos nossa alentada taxa de gordura corporal em meio a apolos e sílfides anabolizados. Quando se quer descansar, se trata de descansar de jeito, de se livrar do que nos oprime em nosso correr dos dias. Não desejo descansar aos gritos motivacionais de um coach de meia soquete e short curtinho, sofrer com a estridência ao redor de tarados em movimento.
O bom Glicério que me perdoe: mais vale não ter por ter o desejo, que fazer do desejo a pulsão de ter.
Resumindo: tô fora.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão