Já faz tempo. Verão de 2009-2010. Voltara de Brasília, em temporada de três anos, onde bons amigos deixei ao lado de boas recordações. Submetido a restrição motora de meu braço esquerdo por conta de síndrome neurológica pós-livramento-da-segundona, passei por meses a acrescentar ao trinômio bermuda-chinelo-camiseta, com que piso nos meus dias, um acessório pra légua de desagradável: colar cervical. Não bastassem o desconforto físico e a sensação de portar caxumba pescoçal de ângulo reto e meio, a traquitana somava à fornalha carioca os graus necessários para me conduzir a um meio-dia de Atacama. O acidente me entregou ainda o suplício de ver minha teclagem e capacidade de comunicação reduzidas à velocidade de uma tartaruga gorda, se houvesse tartarugas gordas, com triglicerídeos a pular dos cascos marcando caminho e passagem por rastros gordurosos de cárter rombado. Me trouxe mais: a disponibilidade para a contemplação, para fuxicar um Rio de que me afastara por três anos.
O que compensava a dureza desses tempos de restrição motora era que o Rio vinha pacificando suas zonas conflagradas. O carioca descia dos prédios, saía de suas casas, retomava as ruas, restituindo à cena de um ambiente singular a alegria convivial que fez da cidade exemplo de acolhimento e despreconceitos. As ruas de Ipanema, Leblon e Copacabana andavam cheias de gentes desencanadas, de gentes de todos os cantos, cariocas inclusive. Armários escandinavos, rambos eslovacos, traziam às ruas do Rio uma espécie de lente de aumento corporal. Nós, os de excesso corporal com menos de um metro e oitenta, nos sentíamos por vez coadjuvantes deslocados de filmes de gladiadores. Andavam muitos em pares, tatuados e piercingzados, à vontade, uma cena que expressava a proverbial cultura includente da cidade. Caiu sem cica no deixistar carioca. Bons dias.
As praias lotadas, nesse tempo de restrição motora, me viram por duas vezes em vinte dias. Tenho nostalgia de praia, mas de areia guardo ressabio. Areia é sansa desrecatada, num abriga prurido, se entranha onde só imaginação ou intimidade permitem. Mas vaguei vez em quando pelas ruas da cidade tateando as dobras do meu lugar. Parido, nutrido e encaminhado no chão do Rio, por aqui me ponho em casa. A cidade ainda é a minha cidade, embora o Rio dos verões deste tempo não se restrinja ao Rio de agradáveis dias vadios. Não há nada nem lugar que semelhem o Rio. Único em sua exuberância natural e plena de cantinhos hedonistas, escondidos graciosamente por onde um olhar desatento não os percebam. Mas, hoje, muitos cariocas se aquartelam, nossas ruas nos impõem medo e cuidados restritivos. Há tensão no ir e vir, o noticiário se transformou num pastel bizarro de câmeras de tevê flagrando crimes. Um em cada quatro cariocas vive em região controlada pelo crime organizado, com delimitações que incluem barreiras de concreto. Há um quê de Mad Max que nos desconforta no desfrute da melhor carioquice, uma ecologia de pequenos e grandes prazeres visuais, gustativos, sensoriais. Nesses territórios oprimidos impera uma lei que não a lei de todos. O estado vai se pondo contra a parede, minando a capacidade seminal de o carioca ser feliz em plenitude. Embora a centelha de felicidade esteja viva, latente, ao alcance de cada um de nós. O carioca é mestre em reinvenção do prazer.
Com o lento voltar de minhas funções motoras, por principais as dedais, voltei à época a contar mais coisas nos meus escritos. Mesmo enquanto perambulava de clínica em clínica, deixando-me furar, eletrocutar, espetar, torcer, raioxizar, ressonançar, sempre sob o patrocínio de exames com nomes de virar esquina, de fazer Itaquaquecetuba e Pindamonhangaba lembrarem Jaó. Em contraponto, a cidade me abraçava. E me abraça, quando a ela volto de meu mais tempo em Cabo Frio.
As mudanças que nos afligem se impuseram por ritual vagaroso e incontível. O esgarçamento das instituições se deu com a promiscuidade entre quem deve proteger e servir e o crime organizado. Transformaram a cidade num pastel intrigante de prazer e medo.
Mas é o Rio. Sempre será.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão