Me lembra ainda menino quando vi pela primeira vez a Sally Field. Linda em sua insuspeita beleza pós-adolescente, a exalar carisma por cada poro de minha tv arcaica. Fazia uma noviça que juntava ao dom de desnudar pensamento a valença de voar a bordo de seu generoso chapéu. Ou seja lá o nome que se dê àquele tranco, que remedava em sua forma um palácio do Niemeyer. O nome do seriado: Noviça Voadora. No rastro da noviça rebelde que desajeitou um cara-de-bravo barão austríaco.
Gostava de ver a noviça enredada com as encrencas mais pueris, por quais qualquer criança nutre simpatia instantânea. No tempo arqueológico, onde tecnologia era arremedo, cabia a alegria em estado bruto, que faz das crianças vítimas fáceis da mímica de austeridade dos adultos. Meninos pré-pleistêichom desinteressavam de noviças, por as noviças injetarem culpa religiosa na libido reprimida que os mesmos meninos transformavam em energia consumida em banhos de quinto de dia. Já de padres tínhamos medo, antes mesmos de os padres garrarem de dar curso a hábitos, ops!, exóticos.
Voando pelos céus de nossa imaginação já não nos concitavam apenas os super-heróis de enredo intrincado. Voava também um simpático projeto de freira. E voava simplesmente por seu chapéu possuir um arremedo de aerodinâmica que lhe permitia empinar as térmicas.
Lembrei da Noviça Voadora quando perplexo assisti à decolagem daquele padre doidão que intentou correr mundo por cima de passarim e nuvem puxado por bexiga de festa de currutela. Já faz 17 anos. A noviça de minha infância voava por GPS de inocência incobrada. Já o padre do Paraná, insano, no invés de tratar de missa, embarcou no enredo fácil da sociedade do espetáculo, e amalucou de voar por conta de traquitana que num dava conta de controlar.
O esporão da tragédia costeia a cerca do patético com mais intensidade e frequência do que se imagina. Para tudo o que se vive e morre.
O que vemos hoje nas redes sociais são padres voadores de opinião, gente a tagarelar sobre coisas sérias com a desenvoltura de um Newton sob uma macieira. A sociedade da opinião chegou para ficar, e será ainda mais frenética com o uso da inteligência artificial a contrapesar a cretinice natural. Muitos dos opinionistas vão aos céus com suas frágeis bexigas e desaparecem feito o padre pela galáxia superlotada de cagações de regra. Mas acho saudável a falação sobre o que de fato importa na vida: o universo instigante das banalidades. Fora da segurança das banalidades, precisamos estudar, mas aí perdemos graça e pulsão de vida.
O perigo é que gente que se atribui importância confunde seriedade com sisudez. Enruga a cara ao tratar dos assuntos banais. Patético. A sisudez, que Montesquieu chamou de “armadura dos parvos”, quando se presta a dissimular ignorância ou à parecença de seriedade, é praga de três bíblias.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão