Xavantinho e Indigenous

Pro ouvir música num sou de emeiação, num tranço fila: ouço o que me adentra bem as orelhas. Despreconceituo feito um Ronaldo Fenômeno à socapa. Tenho cá comigo, entretanto, minhas gostanças, e recheio meu tocador cum um miolo delas. De começo, muito brega seminal, o lamento bramido do lumpesinato banguela. Não trança de brega ornado a Armani, com chão de teclados pastosos ventriloquando violinos de perfumaria. Gosto do brega das feiras, das casas de beira, do salvo-conduto das moças, dos cornos e dos corações esperançosos. A trilha dos que esperam pela via do improvável a mão estendida e quente dos que possam lhes tirar de algum lugar. Qualquer lugar seja. Ouço excentricidades como Marilene dos Teclados, Arenilson, Waldivânia, Layrton, Lindomar, mais uma sansa deles, alguns paraenses. Volta por meia, Claudinho e Buxexa e umas graças do Tierry. E, claro, Odair, Paulo Sergio e Amado Batista. Músicas que contam histórias que nos captam pela sinceridade crua, pelo absoluto descomprometimento com pruridos. Traições confessadas, opções sexuais declaradas, promessas lenitivas e desabridas, confissões incorretas, traumas insuperados, penitências expiatórias, maus-gostos desreprimidos. Um rio de paixão em correnteza de cabeça d’água. Ouço por costume e me costumei de ouvir.

Fico por outro tocado de sentimento terno com a pungência da toada caipira, da viola rasqueada em pagode, galope ou moda. São também histórias tristes de chão perdido, de grotão abandonado, de amor separado por chão de milha e incerteza. A viola é uma espécie de cravo de colo, o terrão na conta pro deitar tristeza. Já o sertanejo universitário, com berros acima do tom e glacê de bolo de casamento de Miami, não ouço, não. Mas dou muita trela aos bons goianos, gente de trova boa. E uns gaúchos de encher cuia de mate, feito Vítor Ramil. 

Ouço muito pelo mais africanagens e rap, quando bom. Mas ouço muito, por invés, roquenrol de guitarra invocada. A geração mitológica comeu terra de palmo abaixo ou envelhou, mas voam por sobre os de hoje com o saber espreito de um falcão de milhagem alta. Ouço sempre. Dos nem tão novos, Nirvana, Alice in Chains e Pearl Jam. Rascantemente melancólicos. E muitos outros. Tem o Eric Gales, reencarnação bastarda do maior de todos, Jimi Hendrix. Prince, Steve Ray Vaughan, Jeff Beck, Chris Duarte, Kenny Sheppard, Mark Knopfler. Mais porção que num digo que aqui num é lista. Por dia outro ouvi uns siouxs malucos que mandam um rock sujo de esticar pelo de braço: Indigenous, o nome dos caras. Vale daunlodiar. Metal e punk, ouço menos, mas guardo apreço pelos grandes. Gosto do bom folk americano, os ícones e algns novos. Pano de fundo de qualquer lista, Beatles, Leonard Cohen, Van Morrison, black music e Bob Dylan. Da MPB, os craques do samba, os mitológicos e muitos alternativos, estes, com carinho apertado por Itamar e Melodia. Ando seduzido pelos dias de agora com os que orbitam a sonoridade dos Hermanos Hernández. Jazz e eruditos, ouço com frequência terapêutica, mas volto aos meus.

Assim, no meu tocador de arquivo, vão convivendo pela via da paz cósmica de um Tupã transnacional as vozes e-muladas de Xavantinho e de uns sioux de rama.

Sem lasquim de árvore derrubada, de pátria traída, de idéia abolida. Sem a cretinice do alinhamento automático ao da hora.

Toca pelo que toca. E vivo o bom.


Descubra mais sobre Ninguém Tem Razão

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


Comentários

Uma resposta para “Xavantinho e Indigenous”.

  1. Avatar de schlieck54
    schlieck54

    Minha ignorância, lembro do pena branca, virou indígena ?!

    Obter o Outlook para iOShttps://aka.ms/o0ukef

    Curtir

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão

Descubra mais sobre Ninguém Tem Razão

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue lendo