Essa história de português baixar o braço em brasileiro pelas ruas de Lisboa me deixou por cá bolado. Chegado a uns espasmos patrióticos, quando por vez finjo cisco no olho pra função de desculpar pingo de lágrima escorrendo preguiçosa aos primeiros acordes de Francisco Manuel da Silva. Garrei de ficar puto com a netada de Dom João VI, que morou por aqui e surrupiou um tantão de riqueza brasileira pras terras portuguesas. Num estampido de nacionalismo irrefreado, decretei em tinta e ato: vou boicotar qualquer assuntação de produto lusitano que cruzar meu trovado caminho. Enjoei de antes cum azeite Gallo, trampei com vinho verde, desisti de romaria a Fátima. Enchidos e alheiras, nem a porrada, vou de Sadia com capa de banha e molho vinagrete. Azeitona pretinha, com caroço do tamanho dela, parei. Vou de Vale Fértil, sem gosto, mas brasileira feito piado de anum. Fui mais longe: limei bacalhau, gemas doces e passei a duvidar do Cristiano Ronaldo.
Com o ler as notícias com mais cuidado, só fui vendo os detalhes sinistros de português xenófobo chamando brasileiro de cachorro sarnento, lisboeta arregaçando brasileiro em cárcere improvisado no aeroporto, portuense cuspindo na cara de morenim sestroso, alentejano vomitando xingamento nouvido de traçado de tupi com palmares. Fiquei fulo de fazer cobra piar. O que assuntava ser odiozinho de varejo, comichão de raivança, virou formigamento de amuança contra o mundo. E me lembrei dos putos dos italianos arrombando com meus sonhos em 82, do canalha do Zidane por conta de aprontação francesa em cima do piriri do Ronaldo. E fui boicotando: macarrão, pizza, ciabata, molho de tomate, queijo seco, patê, brie, croissant e vinho de terroir. Em carreira, fui me açoitando de lembrança. A chacina nacional dos uruguaios em 50, os argentinos rematando peruano no atacado em 78. Boicotei mais uma conta: nada de picanha maturada, chimichurri, contrafilé pampeiro, ceviche e atum arrochado em lata.
Me tomei agora de espírito carbonário com o fanfarrão do Trump tascando tarifaço, querendo enfiar seu nariz rugoso em decisões do Judiciário brasileiro, debochando da gente, chantageando o país, afrontando nossa soberania para livrar da cadeia um suspeito de vários crimes contra a democracia, que está sendo julgado segundo todos os ritos do processo legal. Cortei Coca, cachorro quente, emenêmis, Ruffles e Pringles. Pressão, glicose, colesterol e triglicerídeos baixaram. Efeito colateral. Só temo pelos amigos descolados caso o Trump taxe anglicismos. Como eles viverão privados de usar mindset, squad, brainstorm, mood, vibe, trip, score, nice, top, breakeven, turning point e mais um monte? Ficarão de bad(ops!). Fui lembrando e boicotando, num acerto de contas solitário feito quixote patriota a rodear os moinhos de vento da xenofobia primeiromundista.
Sobraram-me com garbo a tapioca, pão de queijo, açaí, tacacá, charque, torresmo, paçoquita, feijão preto, mariola, angu, baião-de-dois e biscoito Globo. O pequi, que vou com cuidado, em misturança de arroz papento, dando cobertura a um galinho caipira. E cachacinha de Salinas, que ninguém é de ferro.
É pouco, mas é muito.
Como minha boa e velha dona Juraci já ensinava: “Da minha família falo eu. Se o de fora falar, vai se ver com minha fúria”. Pra dar porrada em brasileirada pela atenção de viajança desenfreada que bateu ponto no Brasil ou bufar contra a nossa democracia, neguim vai ter que aturar minha boicotança.
Acautelai-vos, alienígenas!

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão