Têm vida atribulada as mulheres dos enrolados. E vice-versa, se vice-versar desespumar quem patrulha pinimba de gênero. São os enrolados uma espécie de negação ridícula da simplicidade, sendo por conta disso a negação da inteligência, que se manifesta pelo simples, tal a fórmula da água, ainda que velhos políticos a desconheçam. Os enrolados se espalham por todas as atividades humanas. Estão nos escritórios, nos supermercados, nas fábricas, nos postos do INSS, nas lojas de conveniência, no trânsito, nas praias, nas portarias. Alguns até fazem sucesso como treinadores de futebol, com suas táticas exóticas, dissimuladas de inovadoras, indecifráveis para os comuns. Mas é no sexo que os enrolados se mostram estranhamente criativos. O dia-trás-dia sexual de um casal saudável já se subordina aos trancos e barrancos dos estresses diários, álibis para as proverbiais dores-de-cabeça que levam muitos a morder toalhas ou lavar garrafa a pretexto de aplacar o instinto selvagem. Agora imaginem vocês o que não será a vida sexual dos enrolados. Conheço desses uns poucos, e o que sei deles ou me é passado confidencialmente por um cunhado indiscreto – em havendo cunhado discreto -, ou ouço em filas de restaurante a peso. Ou no banco da frente das vans, onde sempre há os cretinos que não poupam os motoristas de sua tagarelice insuportável.
Coube o preâmbulo por tarefa de desconfundir o que aqui vou contar, embora reconheça muitos haverão de fazer de mim imagem desvirtuada após o que se dirá nestas linhas. Vou do Nogueira fuxicar suas intimidades. Quem é Nogueira, por Deus? Nogueira é sujeito desinibidamente enrolado, incapaz de dar conta das coisas com simplicidade. Sua rotina diária lhe é extenuante, impondo-lhe sacrifício onde residiria prazer e placidez. Daí sua expressão sempre-vez atormentada. Intento aqui tão somente lançar luz sobre tema complexo, que aflige muita gente que o mascara com jeitão descolado.
Soube indiscretamente de que forma se dá o longo rito sexual do Nogueira. Não sem constrangimento, já que tive acesso à informação por meio condenável: campana e instalação de uma câmera encabreirada nas suítes de casal da casa do desinfeliz. Pode parecer estranho, mas o casal ocupa duas suítes. Muitas vezes o Nogueira faz que vai entrar numa, dá volta, faz que vai entrar noutra, dá outra volta, e a mulher dele fica sem saber em qual suíte o Nogueira vai dormir. Quem se incumbiu de instalar a traquitana foi, et pour couse, um ex-cunhado dele, que me impôs guardar sigilo, o que honrava até hoje. Só me permito quebrar o por mim acordado por se tratar de um texto a que só terão acesso discretos confrades, todos fechados em pacto de discrição quanto ao que aqui se assunta.
Vamos, pelo chegado da hora, ao que interessa.
Nogueira sabe desde a manhã quando irá fazer sexo. A testosterona sobe-lhe à cabeça em forma de zumbido típico. O zumbido vai ao longo do dia dando lugar a uma curiosa excitação, manifestada por um tremular intermitente de pernas. Nesse dia ele altera o trajeto de volta à casa, indo de metrô da Carioca a General Osório (em dias normais ele desce direto na Cardeal Arcoverde). Na estação de General Osório, em banca de camelô, Nogueira compra uma revista de moda e uma revistinha de sacanagem. Por pudico, a revista de moda serve de anteparo, de atril, de dissimulação da leitura inconfessável da revistinha no trajeto de volta à Cardeal Arcoverde.
Nogueira apruma enfim ao prédio, e o porteiro percebe que há algo estranho. Nogueira mora no oitavo andar, mas vai até o terceiro de escada, pega o de serviço até o quinto, e dali, atravessando o apartamento de um vizinho vascaíno, vai de social até o nono, de onde desce de escada até o andar de seu apartamento. Está simultaneamente cansado e excitado. Essas sensações contraditórias indicam o efeito da testosterona a pique. Já não lhe traz agora zumbido ou tremular de pernas.
Nogueira adentra o quarto e faz a pergunta-senha: “Meu bem, você deletou o extrato?”. Nogueira odeia bancos, com suas informações diárias criando tensões em cada vez que abrimos seus aplicativos. Sua mulher assente: “Fique tranquilo, mô, não tem extrato aqui, não. Desliguei o celular”. Ele tira a cueca e, sabe-se lá, depois as calças. Caminha languidamente em direção à cama e deita-se em concha como a querer envolver Sheila, sua mulher, tal ostra à pérola. Sua muito. Em seguida, passa por cima dela por algumas vezes. O movimento tem o fito de retirar aos poucos o lençol, última fronteira a separá-lo do primado do prazer.
São agora, o Nogueira e Sheila, um só corpo, que se contrai e se estende em frêmitos de paixão. Nogueira tira o tênis, um, e depois lentamente o outro. Brinca com o travesseiro, subtraindo-lhe e repondo-lhe a fronha, bate a cabeça por três vezes na cabeceira da cama e estica o braço para apagar a última luz. Desliza provocantemente a mão pelo cabelo, inicia uma coreografia corporal que lembra o mover das serpentes, e só então vai com tudo.
Mas é tarde: Sheila dormiu.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão