Feliz por ver “Nóis é Jeca Mas é Joia”, do Juraildes da Cruz, como tema de abertura da ótima série “Pablo e Luisão”.
Vivia em isolamento geográfico em Friburgo, mitigado pela presença constante dos amigos e pelos filhos desabrochando. Nos intervalos da velha parabólica tocava uma linda música como trilha de um comercial institucional da TV Anhanguera, de Goiás. O filme derramava águas impensáveis, horizontes indescritíveis. Pensava: “o que é isso?”. Era Goiás, barriga de aluguel do Brasil, com suas chapadas de bilhões de anos. Mais tarde, já morando em Brasília, conheci pessoalmente Juraildes da Cruz, autor da música, com o imenso Xangai. Goiano de nascença e tocantinense por cabo de geopolítica, Juraildes é um desses compositores inspiradíssimos, cujo talento é chupado vampirescamente pelo mainstream. Na minha lista de hoje, randomizada de várias influências, acabou de tocar “Ei, flor”, a música que me intrigava naquele cantinho de mundo, sobre um vale que me empurrava para o céu com a força de dez antigravidades.
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Meus amigos estão acima de tudo, embora vez por outra com eles desconcorde, sem jamais abrir mão do amor que lhes tenho. E assim vou discordando meio calado, porque há muito mais razões para que com eles concorde. Nada supreendente: são meus amigos. O melhor de mim, depois de meus filhos e filhas.
Mas acho estranho alguém, pela exaltação de um chão civilizado a milhões de dólares daqui, desancar o Brasil, se foi por aqui que esse alguém construiu o que lhe permite hoje desgostar daqui. O Brasil pode ser para muitos uma imensa frustração, mas o “mundo civilizado” se construiu exaurindo a ferro e submissão os recursos com os quais poderíamos por aqui construir um “mundo civilizado”. E mesmo no que se costuma chamar de “mundo civilizado” há tantos absurdos quanto no país em que nascemos e a quem devemos, por baixo, reciprocidade. Nem é preciso se graduar em história da civilização, basta ver um ou outro documentário nos canais de streaming e descobrir a sujeira represada sob o tapete da civilização: racismo, xenofobia, justiça desigual, aporofobia, imperialismo, arrogância, e tantas outras manchas de desumanidade.
No universo nebuloso da civilização não há ingênuos.
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Amizades resistem ao tilintar de moedas e se mantêm íntegras acima de qualquer objetivo subalterno.
Canalhas se rendem à primeira nota.
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Restaurante japonês é o único lugar em que o combinado sai caro.
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Só lembrando que religião não garante caráter, não atesta moral. Hoje, há no Rio diversas milícias e traficantes ligados ao neopentecostalismo, que é a grande maioria do movimento evangélico no Brasil. Muitas atrocidades foram e são cometidas em nome de Deus. Os católicos, com a Inquisição e as Cruzadas; os muçulmamos, com a Jihad; os judeus, com o sionismo; e mesmo os pacifistas xintoístas do Japão cometeram massacres na China e Coreia. Recentemente, nos Balcãs, ódios tribais religiosos motivaram a carnificina. Na Irlanda, o ETA matou milhares de inocentes em nome de uma tese antes religiosa que territorial.
Não me lembro de umbandistas pregando contra o STF, acusando o sistema eleitoral de fraudulento, invadindo igrejas ou templos, pregando o ódio contra outras religiões ou prometendo metralhar a petralhada.
Vai ver eu não prestei atenção.
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A vida é água de Marte, desfaz-se antes de se tornar inextinguível.
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O que mata o Brasil é o de repente.
De repente o cara compra uma casa de 10 milhões; de repente outro cara aparece com um Cayenne zerinho; de repente um emergente viaja pra Miami de executiva com a família inteira; de repente o Instagram se toma de perfis com rotinas de moradores de Mônaco.
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Da janela do meu quarto em Barcelona eu via Deus por especulações fugidias. Nas torres da Sagrada Família que se encaixam tímidas por plano reduzido e na quadra de uma escola onde crianças simulavam Messi em encenações de um Camp Nou imaginário.
Em Barcelona, Deus se revela sob gênios de artes delirantes.
Gaudí, Messi, dobras humanas surreais que só encontram tela no absurdo de seus talentos.
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Faz tempo que meu dentista mudou pro Méier, bairro que me traz boas lembranças da infância. Meus avós, tios e tias paternos moravam lá. O Méier tinha um jeito doce de vila, com suas praças de cidade de gente e casas geminadas anunciadas por varandinhas que emulavam interações de intimidade afetiva.
Marco sempre meu dentista para o dia da feirinha da Dias da Cruz.
Proustiano.
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A África talvez hoje produza a mais sofisticada música do planeta.
A dor se construiu dissonância e harmonizou tambores e sensibilidade. Imbricados em genocídios estúpidos, reinventaram o prazer pela experiência da dor lancinante. Estão ensinando ao mundo o quanto perdemos por não entendê-los irmãos, antes de submetê-los.
A resposta africana à opressão é literatura, poesia e música de afrontar com a mais afiada das facas nosso preconceito boçal.
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Mulheres. Ventre do mundo, origem e destino de todas as consequências, destino e origem de todas as causas.
Bom demais dividir o mundo com elas.
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Não sou propriamente um entusiasta da preguiça, mas não tenho por ela preconceito.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão