Estamos na Semifinal – Estamos em Casa

No dia em que entortamos o destino e chegamos entre os quatro maiores do mundo, ao lado de três gigantes europeus, o Fluminense se sente em casa. Afinal, somos um gigante brasileiro, sul-americano e mundial. Por nossa história e mística, por nosso peso na construção das bases do país maior vencedor do futebol mundial. Hoje, é mais um passo. Mas nunca duvidem de que somos capazes de ir mais longe, contrariando o senso comum, os supercomputadores e os idiotas da objetividade. Três anos mais antigos que o Chelsea, não nascemos ontem. Passando pelo imenso desafio da semifinal de hoje, um embate entre orçamentos separados pelo resultado da geopolítica de séculos de exploração europeia, o Fluminense levará o terceiro mundo e sua resiliência à chance antes impensável de uma glória mundial. Diante da nova realidade do futebol planetário, regida pelo poder econômico, só um clube com nossa história poderia ter a pretensão de inverter a lógica do previsível. 

Nascido do sonho de dezoito apóstolos que desconheciam estar fundando as bases de uma liturgia eterna, o Fluminense tornou-se a mais importante instituição esportiva brasileira do século 20. Não nasceu sozinho, com ele nascem o futebol profissional, o primeiro estádio, a Seleção Brasileira, fincam-se as fundações da história de nosso esporte mais popular. Já nasce ungido de eternidade. Sua influência se espalhou por todo o mundo, produzindo mitos e lendas que inundam a crônica do futebol planetário das mais lindas histórias.

Com seus joviais 123 anos, o menino Fluminense sonha como sonham os meninos. Vê o mundo como um território a conquistar. Uma imensa floresta, imaculada, com pássaros que voam sobre gaiolas destroçadas. Seu exército de apaixonados doa-se a manter em seus corações o viço de uma fé inabalável, provada nos mais terríveis invernos e tempestades. Por fé, carrega peso e leveza. Encontram-se e desencontram-se os que o amam, embora jamais deixem de estar disponíveis, abertos. Há uma orquestração tácita de espíritos generosos nessa dança de paixão e entrega. Seguidores de um Deus doméstico, descobriram a maior dentre todas as felicidades nessa crença indestrutível. Não temem como Prometeu ser amarrados a penhascos por revelar aos homens os segredos de seus deuses. Os deuses são apenas um, ainda que em três cores.

Seu hino carrega o determinismo místico de um texto religioso. Os primeiros versos, mandamentos: “Sou tricolor de coração/ sou do clube tantas vezes campeão”. Excomungados serão os que os profanarem. O moleque Fluminense vai muito além dos sonhos de seus fundadores, nada o limita, nada o prende a pudores que o aprisionem. Holístico, habita o planeta tépido dos castos, pulsa nas camas das prostitutas, e aponta para o céu quando se veem mortas as esperanças das palafitas. Pátria dos proscritos e lar dos escolhidos. Esfinge e óbvio. Tantas vezes volúpia, nunca paz inexpressiva. Mora cuidadoso na consciência dos bêbados e embriaga de delírios os abstêmios. Indivizível, por ser a Verdade. Um amor que não refuga diante de preconceitos e transforma o todo em um. Indecorosos e decorosos. Chuta o balde do escárnio e cutuca com vara curta a arrogância dos babacas. O Fluminense é um lugar. Que não cabe onde cabem os lugares, com suas geometrias toscas e banais. Um número que não se enquadra na excludência óbvia de pares e ímpares. Um grau visceralmente aumentativo. Não é de ninguém, por ser de todos.

O menino Fluminense renasce todos os dias, grávido de emoções afloradas. Em cada quarto de maternidade onde na porta há pendurado um símbolo tricolor que lembre estar ali vindo ao mundo mais um continuador. Nas mesas de bar onde corações e discursos inflamados ponteiam de lágrimas e gargalhadas a explosão de uma paixão que grita em decibéis tribais. Em cada lábio trêmulo e olhar rútilo que ressuscitem, por obra e graça de um amor que não cobra, o bom, velho e imortal Nelson Rodrigues. Na lembrança de um gol do Waldo, do Manfrini, do Assis, do Fred, do Flávio, do Rivelino; dos gols que não vimos, mas imaginamos. Das escalações mentais – sempre irretocáveis – que levamos pra cama à guisa de atalhar o sono.

O Fluminense vive porque vive em cada um de nós uma teimosa criança, um coração indomável, uma paixão avassaladora e eterna. O Fluminense moleque quer jogar bola em nossos sonhos, e isso o torna capaz de desmentir verdades proverbiais. Lá, ele nos abraça e compreende. Nos aceita como somos. E nós o amamos plenamente. Ele nada nos pergunta. Nós não lhe duvidamos.

Hoje, ao pisarmos o gramado do Melt Stadium, não estaremos sós. Há uma história de glória e sacrifícios de uma instituição monumental. Ao enfrentarmos o poder econômico de um clube controlado por muito tempo por um suspeito magnata russo do petróleo, o Fluminense contará mais uma vez com o entorno que lhe agiganta para muito além de sua história. A fé de milhões de apaixonados, o penhor de sempre se manter do lado certo da história, a pulsão incontível de domar o impossível. Hoje, nossos bons jogadores se tomarão do poder inexplanável das profecias de Oscar, do caudal de sacrifício e glória que forjaram nossa força. Sacrifício e glória, base das grandes ideias, nacionalidades e instituições.

Seremos.


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Comentários

2 respostas para “Estamos na Semifinal – Estamos em Casa”.

  1. Que Texto!! Que homenagem fantástica!! Fiquei arrepiada!🥹👏👏👏👏👏❤️❤️

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  2. Avatar de totallydonutb457ca4e16
    totallydonutb457ca4e16

    Sou totalmente Fluminense 💚❤️💚❤️💚

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Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão

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