O Simpósio

Baseado em fatos surreais.

Os convites chegaram simultaneamente na câmara de Padre Timóteo, um tesouro de Belanda. Os vereadores, tontos, dividiam sua perplexidade com seus pares, sem a menor ideia do que se tratava. Zezé do Gás, edil com quatro mandatos, cascudo nessas coisas de política, comentou com Deró Bandeira, seu colega de vereança: “Isso é armadilha de inimigo, de gente que quer desmoralizar uma casa de respeito, fortaleza inexpugnável na defesa dos interesses do povo de Padre Timóteo”. Deró foi mais cuidadoso:  “Zezé, se esse convite chegou por aqui é porque alguém mandou. Antes de aprumar a espingarda, deixa ver o tamanho da onça”.

Os convites que tanto escabrearam Zezé e Deró eram idênticos para todos os vereadores. Seu texto:

“Políticos de Belanda, nós que, no exercício de mandato conferido pelo voto popular, trabalhamos diuturnamente pelos interesses maiores de nossa terra e de nossa gente; nós, que, renunciando muitas vezes a deveres familiares e empresariais, dedicamos nossas vidas à causa maior de ajudar o povo; nós, que abrimos mão de nossa privacidade e do direito ao descanso em nome da missão mais nobre que existe, que é servir sem se servir; precisamos deliberar com urgência sobre uma questão que se impõe sobre todas as outras questões. Não é assunto para se tratar agora, mas de importância a justificar um grande evento nacional: ‘O Simpósio’.

Procurem em uma semana o presidente local de seu partido. Ele os orientará sobre os próximos passos necessários para a consecução de nosso objetivo.

Que a paz do Senhor permaneça com todos.

O Coordenador”. 

Soube-se logo que todos os políticos belandenses com mandato receberam o mesmo convite: vereadores, prefeitos, deputados estaduais, governadores, deputados federais e senadores. Não se sabe se o presidente da República foi convidado. Se o foi, manteve-se discreto. Houve grande inquietação.

Passada uma semana, Zezé e Deró procuraram Zaqueu Santiago, presidente do partido a que ambos pertenciam. Zaqueu foi direto, mas enigmático. O Simpósio se realizaria na cidade de Confreança, no estádio do Tucaramã. A data estava fechada: 28 de outubro, dia de São Judas Tadeu, padroeiro das causas impossíveis. A pauta do encontro era reservada, os políticos só a conheceriam na abertura do evento. Zaqueu deixou claro que, por decisão da Executiva Nacional, a presença de todos os políticos do partido era obrigatória. E que o assunto deveria ser tratado com sigilo absoluto. Zezé do Gás e Deró Bandeira insistiram com Zaqueu em saber do presidente do que se trataria o simpósio, mas este lhes foi sincero: “Não adianta insistir, não posso falar do que não sei. Ninguém conhece o assunto do encontro, só o comitê organizador”. E assim foi por toda Belanda, com os vereadores e prefeitos sendo orientados pelos presidentes dos diretórios municipais de seus partidos; os deputados estaduais e governadores, pelos diretórios estaduais; os deputados federais e senadores, pela Executiva Nacional.

Zezé não se conformava por não saber de mais detalhes: “Zaqueu, são uns 50 mil vereadores, 4 mil prefeitos, uns 600 deputados estaduais, mais de 500 federais, 84 senadores. É muita gente, é coisa de umas 60 mil pessoas. Onde é que esse povo todo vai caber? Como é que essa gente vai organizar, controlar esse mundão de almas, Zaqueu?”. Zaqueu retrucou pausadamente:  “Zezé, Zezé, essa gente sabe o que faz. É por isso que decidiram pelo Tucaramã. Tem mais uma coisa: eles pediram que cada um de nós leve um celular com acesso à internet. Quem não tiver, é só dizer, que eles vão providenciar um”.

À medida que a tensão da espera pela data do simpósio aumentava, crescia a ansiedade entre os políticos belandenses. Por esse tempo cada um recebeu um comunicado contendo instruções detalhadas sobre como chegar, onde se hospedar, como obter o credenciamento, receber o chip de controle, e o que fazer para registrar a impressão digital para efeito de monitoramento biométrico. E uma recomendação: “O Simpósio” começaria rigorosamente às 4h da manhã. O comitê foi minucioso sobre os procedimentos que deveriam ser respeitados para que tudo se mantivesse sob sigilo absoluto. Para que a opinião pública não estranhasse tamanha movimentação nas redondezas do estádio, o grande evento seria dissimulado pela realização de um Primeiro Encontro Nacional das Lideranças Religiosas Municipais. Se alguém, por interesse ou tara, quisesse se inscrever, encontraria como resposta à consulta a informação de que as inscrições já estavam esgotadas.

No dia do grande encontro, às três e meia da manhã o quórum já era impressionante: 58 mil dos 61 mil mandatários belandenses já se encontravam no estádio. Quando soou o toque de inauguração da cerimônia, apenas 372 políticos estavam ausentes. Um silêncio de velório se seguiu à ordem que vinha do placar eletrônico: “Silêncio: está começando O Simpósio”. Do centro de um palco à semelhança de altar abriu-se um fosso de onde saíram vários fachos de luz. As luzes foram sendo interceptadas por um corpo cujas sombras esculpiam formas indefiníveis. As sombras foram convergindo para um corpo único, desenhando claramente a silhueta de um homem: O Coordenador. E em silhueta esse homem se manteve durante todo o evento. Sua voz, modificada digitalmente, era seguida pela transcrição do texto nos painéis eletrônicos do Tucaramã:

“Caros amigos e amigas, políticos e políticas belandenses, começa agora o evento mais importante da história dos partidos políticos de Belanda. Começa agora… – uma longa e eloquente pausa se seguiu – …’O Simpósio’. Todos vocês, no credenciamento, tiveram os chips de seus celulares trocados. Com esses chips, todos os presentes poderão participar das importantes decisões que iremos aqui tomar nesta madrugada histórica. Quem não trocou por descuido o chip, será identificado e convidado a se retirar do Tucaramã. Não insistam em gravar, filmar ou fotografar, pois os chips instalados bloqueiam essas tarefas em seus smartphones. Trataremos de uma única questão, mas as deliberações sobre essa questão serão adotadas por quórum qualificado de 2/3 dos presentes. Pedimos a todos os que já instalaram seus chips enviarem agora um SMS para Amigos de Belanda com o seguinte numero: 2810171. A partir desse SMS todos já estarão habilitados a votar pelo celular.

Antes, no entanto, impõe-se pequeno preâmbulo. 

Amigos e amigas, nós, os políticos, somos vítimas de toda forma de preconceito e injustiça. Só cada um de nós sabe o quanto de espírito público e renúncia nos são exigidos no desempenho de nossas tarefas cívicas. Noites maldormidas, tensões em nossos casamentos, ausência na criação dos filhos, renúncia aos prazeres mundanos e à privacidade. Dedicamos os melhores dias de nossas vidas aos interesses do povo. Pelo povo somos capazes de tudo, e pelo povo somos conduzidos e reconduzidos. Mas a opinião pública nos execra, nos lincha moralmente em praça pública. Somos vigiados se fazemos pelos nossos, somos atacados se, em nome do bem-estar do povo, procuramos nos manter sem passar necessidades, condição irrenunciável para podermos nos dedicar integralmente à causa maior.

Durante muito tempo vimos recolhendo contribuições extra-salariais que visam somente a preservação de nossa integridade financeira, o que é bom para o povo. Isso, no entanto, é visto como uma forma de apropriação indébita. Sabemos que não é bem assim. Sabemos tratar-se de nada mais que uma justa gratificação de desempenho que agregamos a nossos atos administrativos, uma compensação por tanto sacrifício. É dessa sobre-remuneração que trata a pauta do Simpósio.

É do conhecimento de todos que Belanda vive momento delicado, com grande clamor popular pela melhoria e ampliação dos serviços públicos essenciais. Recolhemos 36% do PIB em impostos, de uma forma geral. Para fazer frente aos investimentos necessários, comprometemos 40% do PIB. Precisamos acabar com essa defasagem, que nos leva a aumentar a dívida pública na proporção de 4% do PIB ao ano. Não é segredo para todos nós que o investimento do estado pode ser qualificado, sem que se precise gerar déficit público. Só assim, com responsabilidade, contribuiremos para a diminuição do fosso social em Belanda e criaremos as condições para garantir saúde, educação, transporte, moradia e saneamento a todos os belandenses.

É por esse estado de coisas que este simpósio se justifica. Nossa intenção aqui é submeter aos senhores e senhoras um pacto de redução no valor que agregamos ao investimento público. Podemos, por força de exemplo, pelo prazo que aqui ficar estipulado, reduzir o sobrepreço das contratações dos atuais 19%, em média, para 10%. Por esse grande ato de desprendimento e patriotismo, criaremos as condições para que o país resgate sua enorme dívida social. Importante lembrar: em nome da eficácia dos efeitos, o que for aqui decidido deverá ser levado a todos os secretários, dirigentes de estatais, e outros agentes públicos, sob forma de recomendação inegociável”.

Seguiu-se à fala do Coordenador um tumulto. Os políticos honestos – não foram poucos, justiça se faça – se retiraram enfurecidos e  dispostos a denunciar o enredo daquela madrugada surreal. Mas as provas eram precárias, apenas testemunhais. Não havia nomes, não havia um líder reconhecível. A organização d’O Simpósio cuidou de não deixar rastros. Outros políticos, os muito desonestos, não quiseram nem abrir a discussão sobre a redução do superfaturamento em contratos públicos. Bateram em retirada. “Como manter nosso padrão de vida sem o sigilo das emendas? Nem pensar” – esbravejou Nico Rosado. Um bom número ficou, e esse grupo decidiu, após muita discussão, pela realização de um novo Simpósio tão logo se anteveja um cenário mais claro para Belanda. Ovacionado, “O Coordenador” leu a decisão final, agregada por uma pequena concessão: “Até a realização do novo Simpósio, reduz-se o sobrepreço para 15%, e ninguém fala mais nisso”.


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Comentários

Uma resposta a “O Simpósio”

  1. Hahahaha!! Sensacional!!😅😅😅👏👏👏😍

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