Chegamos às Oitavas

O Fluminense chegou às oitavas da Copa do Mundo de Clubes. Fomos além do que muita gente boa ou ruim previa. Nosso grupo era ilusoriamente fácil. Vimos nos intercontinentais que essa impressão estava muito descolada da realidade do futebol mundial. Não é novidade em nossa história. Nossos “timinhos” foram longe, conquistaram títulos épicos. Provaram com o tempo ser subavaliados, muito em decorrência de uma certa má vontade de quem vê o Fluminense como vinagre no mel de suas vidas tépidas. O Fluminense é isso mesmo, um passo descompassado na marcha dos contentes, um clube que por tradição se manteve do lado certo da história.

Longe de confirmar teses ufanistas, o Mundial veio para revelar o que intimamente quem tem bom senso sabia: em competições longas, os mais fortes da Europa, pelas qualidades e extensão de seus elencos, sobram muito em relação aos nossos clubes de ponta. Mas não é apenas o aspecto financeiro que conta para a consolidação dessa realidade. Bons gramados, calendário ajustado, estádios modernos, clubes sólidos, enfim, um pacote de motivos.

Os brasileiros chegam às oitavas costeando o precipício de nossa realidade. Vivemos no terceiro mundo o “cânone da conversão”. Se pagamos aqui a um craque um salário de 1 milhão de reais, lá eles pagam 1 milhão de euros. Precisamos pensar com os ricos em sua viagem: “Não converta”. O que parece inalcançável para nós, é mesmo inalcançável, mas normal para a Europa.

As ligas europeias lidam com números que magnetizam o movimento de transações de jogadores em nível mundial. A porta do céu para meninos que nascem e vivem aqui na pobreza, com pais que trabalham 10, 12 horas por dia, enfrentando condições de transporte e moradia subumanas. O sonho desses meninos: devolver com sobras, por seu talento, tudo o que os pais em sacrifício lhes entregaram. Continuamos a produzir craques por aqui, mas o futebol se tornou um fenômeno mundial, um mercado bilionário que produz seus deuses e levam crianças do mundo todo a sonhar com a chance de nele se incluírem. A régua subiu de nível.

O Fluminense chegou ao Mundial por seus méritos. Ganhamos uma Libertadores e uma Recopa, fomos vice-campeões mundiais, chegando à final contra o City, ultrapassando as semifinais, feito que times como Flamengo, Inter, Atlético MG e Botafogo não intentaram. E jogando contra times africanos, asiático e mexicano, os mesmos que agora os gentios desdenham. Confirmamos nossa participação um ano e meio antes do mais importante torneio de nossa história, oportunidade única de coabitação com os gigantes do futebol mundial. Tivemos tempo para planejar uma participação com mais chances esportivas e com o consequente retorno financeiro. Estranhamente, não encorpamos o elenco como deveríamos. O que nos deixou mais vulneráveis, mesmo comparados aos outros brasileiros com orçamentos bem mais polpudos que o nosso. Chegamos ao Mundial confiando mais em místicas que em fatos, um pouco como um convidado que, tendo tempo e dinheiro suficiente para casar com um terno novo, deixou para última hora, e foi ao altar com o velho e surrado terno. Resta saber se o pai da noiva notou.

Quais as nossas chances? Não sei, e se não sei, estou seguro de estar certo. Ainda que aberto à contribuição metafísica para avançarmos além do previsto e do que fizemos no plano gerencial para merecer, o Fluminense é o time que tenho para torcer, o amigo recorrente que deu sentido à minha vida desde as apreensões de meus primeiros anos. Só sei torcer por ele. Em qualquer circunstância. É isso que vou continuar fazendo até o último dia que pisar este chão de lutas diárias e prazeres fortuitos, a vida.

Que venha a Inter.


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