A Bioy Casares, tricolor argentino, sem que disso jamais soubesse.
ATO 1
GÊNESE: MOOCA
O menino da Mooca não sabia de alucinações. Sabia de medo, como todo menino. Não lhe era proverbial cuidar desses sestros de adulto, que vê na alucinação porta difusa e corre aos divãs com sede saárica. Sentia o improvável por marco de seu caminho, uma curva, uma esquina. Fazia-a ou dobrava-a naturalmente, e voltava para seu mundinho de criança, libertário e pleno em sua ludicidade.
Naquela noite, por diferente, o improvável sentou praça na imaginação do menino com a aura assustadora do desconhecido. O menino surpreendeu um clarão grandioso brotando do chão de um lugar que parecia ser o velho terreno baldio das peladas da rua Javari. Um magnífico facho de luz que não podia ser desnotado por quem quer que passasse até quatro quarteirões dali. Pensou em desconsiderá-lo e seguir caminho em seu passar o tempo, tal os meninos fazem o tempo passar, trazendo para a claridade do imaginário o mundo irretocável de seus desejos. O brilho daquela luz era por demais impressionante e estranho para que não afetasse sua curiosidade. Já próximo do terreno baldio, enredava-o os passantes da Javari sequer moverem os rostos na direção daquela incandescência já ali insuportavelmente forte a seus olhos de menino. Pé ante pé tangenciou o tapume que encobria o terreno de seus olhos espantados, a pouco menos de dois metros do chão. Uma porta improvisada cobria um rude buraco que trespassava o tapume. Ao lado, um buraco também rude, porém menor. Por eles enfiava-se uma grossa corrente cujos elos extremos se tocavam no encontro do cadeado. De dia era simples: a molecada pulava o tapume apoiando-se nas mãos em plataforma do Cadinho, o mais alto do grupo. Nessa noite, sem as mãos providenciais do Cadinho, restava ao menino da Mooca especular não sem medo sobre o que do outro lado emanava tanta claridade. Perscrutou o não sabido por um dos buracos que sustentavam a corrente. Antes cuidou de verificar nas janelas dos prédios em volta se o que via era também visto pelos que na Javari corriam às janelas depois das massas e tomates. Apoiados nos parapeitos, os mesmos vultos de sempre pontilhavam de humanidade as frias esquadrias das arquiteturas iguais das edificações que lhe emolduravam a infância. Tudo absolutamente normal. As mesmas pessoas, as mesmas reações das pessoas.
O que viu o menino, depois de se dar conta de que o via sozinho, não se mostrou suficiente para lhe aplacar a curiosidade e sarar seu estranhamento. Uma imagem difusa irrompendo de uma atmosfera nevoenta indicava-lhe haver ali água. Muita água. Um mar de água que não sabia terminar em chuva ou de chuva que não sabia terminar em mar improvável. Água que sabia não caber naquele terreno baldio que sempre lhe pareceu na conta certa do que lhe servia para as peladas de todos os dias. Teve medo, e correu de volta à casa. E correu tão rápido podia correr, ensaiando no contrapasso da respiração arfante o que diria do que viu a seus pais. Só sabia que o diria. A poucos passos dali já não sabia se deveria dizê-lo. Ao chegar em casa estava convicto de que aquele fato se revelara um segredo que lhe cabia dividir apenas com os serpenteamentos de sua imaginação. Medo não tinha mais. E esperou pelo passar da noite. E a noite lhe foi longa. E a noite lhe foi tranquila. Porque naquela noite se deu a anunciação. E haveria uma outra noite. A noite da revelação.
Tomou o menino aquele segredo por arcano. Seu refúgio e sorte. Carregava-o no hábito das peladas que se realizavam à luz do dia, sem que o terreno baldio indicasse um sinal sequer de água além do que seria a água que ali deveria estar, quando chovia. E voltava ao terreno baldio tantas vezes o dia se fez noite até que a noite de um dia se faria dia por revelar a luz a que nos agarramos à franja quando nos liberta das tribulações de nossas vidas vulgares. E toda noite via água, a água que a rua não via, a água que não cabia no terreno baldio, onde se escondia a revelação, protegida pela altura do tapume, imune às pretensões das pernas curtas do menino. Não havia uma noite que não visse o menino pelo buraco do tapume a mesma imagem difusa da noite da anunciação. Por noites e noites rendeu-se religiosamente à rotina de ali voltar e ali ver o que vira na véspera e na véspera da véspera.
As noites se sucediam sem que o menino se sentisse chamado a transpor o tapume em busca de contato com o que quer que houvesse em meio àquela imagem difusa, parecendo-lhe caber simplesmente observá-la. Mas houve noite em que saiu de casa para a rotina de suas noites e percebeu incandescente como jamais o vira o facho de luz que saindo do terreno baldio perseguia o céu tal holofote de mil canhões. Chegou ao terreno baldio não sem antes se certificar de que os rostos das janelas da Javari continuavam indiferentes ao que se lhe revelava com a pompa de um espetáculo feérico. A indiferença dos não tocados conferia à visão do menino o contorno místico que lhe autorizava caminhar em direção ao que naquela noite lhe seria revelado. O facho de brilho insólito atraiu-lhe com um quê da melodia atonal dos contatos spilberguianos. Só então sentiu-se chamado. Pelo buraco reviu aquela água que não acabava e descortinou entre a tempestade e o topo da onda que se confundiam em quadro único o rosto de um homem muito velho. Não velho como são todos os que não sendo crianças são velhos para as crianças. O rosto de um homem muito, muito velho. Face escarpada, sulcada em geometria de fole, a marcação dos olhos interfaceando nariz e boca num único e indefinível emplasto de pele. Daí não ter sido possível ao menino ler pelo buraco do tapume o movimento dos lábios do homem velho quando parecia o homem velho dizer alguma coisa. Ouviu-a, no entanto, em seguida, e ouviu-a alto e claro. Disse o homem velho: “A mim virão os que não se quedarem às tentações heréticas. E virão por escolhidos. Tu, Antônio, vieste da linhagem do Fundador da Nação. Vieste de Oscar. De Oscar, vieram Marcos, Victor, Welfare e João; destes, Elba, Hércules, Pedro e Romeu; destes, Caetano, Carlos, Jair, Píndaro, Altair, João Carlos, Waldo, Valdir, Telê; destes, Félix, Marco Antônio, Denílson, Flávio, Wilson, Luís; destes, tu, Antônio. E a ti e a tantos muitos outros lhes sucederão”.
Recebeu sem susto o menino o fato de o velho saber seu nome.
Repentinamente, cobriu-se o buraco do tapume em que o menino viu a primeira imagem difusa, e de onde mais buraco não havia, precipitou-se em forma de concha uma resina dura que se desdobrou em saltos sobre a calçada esculpindo uma escada de degraus curtos e cintilantes. O menino pisou degrau por degrau e viu do alto do tapume uma contraescada que o levou também passo a passo ao chão do terreno baldio. Já não era mais chão. Era água e tempestade. E o menino respirava por guelras impensáveis, a tudo vendo e por tudo sendo visto. O homem velho surgiu da chuva-oceano em fractais que se uniram em movimentos elípticos até que se formasse o que ao menino revelava-se a imagem do homem velho. Tudo escandalosamente alucinante. Havia uns braços em movimentos de água em ebulição que pareciam suplicar amputados de seus troncos pelo fim da chuva. Um grito surdo e aterrorizante. O menino, no entanto, sabia-os recalcitrantes à letra de uma fé que não conhecia, embora não lhe fosse estranha. Aqueles uivos assombrariam qualquer mortal, não obstante calasse normal àquele menino. O velho parecia constituir-se de água, ou pelo caleidoscópio de luzes que compõem os raios de sol na água. Já não era agora somente água o chão definido pela superfície da água que tomava o terreno baldio, era um chão de grama que se precipitava à superfície da água. O menino andava na grama-água, e andando, andava normalmente. Viu por trás do velho um coliseu e viu uma turba com olhar assombrado a esperar pelo desfecho de algo que lhes representaria salvação. Disse-lhe pausadamente o homem velho: “Arrependo-me de ter dado vida às hordas heréticas. Isso me pesou no coração”. Disse-lhe mais o homem velho: “Atormentarei a vida das hordas heréticas que criei, porque me arrependo de as haver criado”.
O menino, contudo, achou graça aos olhos do homem velho. Era o menino ser justo e perfeito em sua rotina de menino, e andava com Deus. A Terra, porém, estava corrompida diante dos olhos do homem velho, cheia de violência, porque a carne dos heréticos havia corrompido seu caminho sobre a terra. Então disse o homem velho ao menino:
– O fim de toda iniquidade se põe diante de mim. Porque a Terra está cheia da violência dos homens. Eis que amansarei as hordas heréticas juntamente com o que por eles foi profanado. Farei para ti uma arca de madeira de gôfer. Com os compartimentos necessários na arca, a revestirei de betume por dentro e por fora. Desta maneira será feita: o comprimento da arca será de trezentos côvados, a sua largura de cinquenta e a sua altura de trinta. Porei na arca uma janela e lhe darei um côvado de altura; e a porta da arca porás ao seu lado; terá a arca três andares – baixo, segundo e terceiro. Porque eis que eu trarei o dilúvio sobre a terra, para amansar debaixo do céu as hordas heréticas; tudo o que por elas for tocado, será contestado. Mas contigo estabelecerei o meu pacto: entrarás na arca, tu e contigo teus filhos, tua mulher e as mulheres de teus filhos, tuas filhas e os maridos de tuas filhas. Entrarão também os seguidores da Nação, com seus filhos, suas filhas, suas mulheres e as mulheres de seus filhos e os maridos de suas filhas. Leva contigo de tudo o que se come, e ajunta-o para ti, e te servirá para alimento, a ti e a eles.
E em tom ainda mais austero sentenciou:
– E todas as noites serão aquela noite. A noite que servirá de água morna para os exaustos, de consolo para os que sofrem, de cama para os felizes.
O menino tomou para si as palavras por desígnio e andou sobre as águas do terreno baldio na direção do tapume, de onde desceu à calçada, indo à casa, jantar e dormir.
Por quarenta noites o menino subiu e desceu a escada de resina para viver sem tirar nem pôr o vivido na primeira noite. Tudo se repetia em cada detalhe. Em cada pausa da fala do homem velho, em cada braço amputado em ebulição, em cada franzido da resina da escada, em cada uivo lancinante. Intrigado pela repetição mecânica do que vivia em cada pedaço de noite passada do terreno baldio, o menino perseguiu sinais de farsa naquele enredo grave e monótono. Andava pela água embora jamais soubesse se água era mar ou chão de tempestade. Andava e procurava. E de tanto procurar viu estranhamente seca a touça onde nas peladas do terreno baldio vez em quando a bola chutada por um moleque ia dar. Não havia água na touça. E o menino abriu a touça a procurar por trás da touça algo que lhe revelasse uma pista do que o intrigava. Atrás da touça revelou-se gigantesco e indecifrável um mosaico de roldanas, parafusos, correntes, pistões, a formar talvez uma imensa máquina, que nem de longe caberia naquele canto do terreno baldio. Era mesmo uma máquina. O emaranhado de peças confluía para uma grande lente. Da lente projetavam-se na minúscula imensidão do terreno baldio as cenas exatas vividas a cada noite pelo menino. Como aquela enorme engrenagem podia caber naquele cantinho do terreno? E de que forma aquela máquina produzia vida em cada frame de um filme fantástico? O menino recusou a lucidez pelo perigo que a lucidez encerra em seus ciclos de dor e submissão. Queria porque queria acreditar. E isso lhe bastava. Unicamente por sua fé anunciou-se-lhe agora convicto de sua escolha o homem velho:
– Menino, toma esta máquina para ti e leve-a contigo até que se revele a noite que todas as noites serão.
O menino estranhou:
– Homem velho, de que forma poderei levar comigo esta máquina muitas vezes maior que meus pequenos braços, tantas vezes mais pesada do que o maior peso que posso carregar? E como guardá-la, se ela não cabe no meu quarto, na minha casa, ou na garagem do meu prédio?
O homem velho respondeu-lhe ao fim da última sílaba:
– Menino, guarde esta máquina no único lugar onde cabem um rato e um mamute, uma folha e uma floresta, um grão e um silo, uma gota e um lago, uma pedrícula de areia e uma duna. Guarde-a na imaginação.
ATO 2
O ANO: 1973
1973 não começou sem um travo amargo na garganta dos tricolores. No ano recém-finado, coadjuvaram o Campeonato Carioca pagando um gigantesco vexame na final da Taça Guanabara, em que lhes restou assistir estarrecidos ao replicante espetáculo pirotécnico de um palhaço a cambalhotar, submetendo-os a um verberante 5 x 2. Ainda naquele Carioca, Fluminense e Vasco travaram um duelo de Komodo pelo passe do Tostão. Tostão foi único em sua singularidade típica, um dos maiores jogadores de todos os tempos. Muitos tricolores o escalaram por noites seguidas no time que chapava a foto da imaginação à guisa de driblar a insônia. Ao despertar do sonho dormido, os tricolores entravam imediatamente no sonho acordado e corriam para a banca mais próxima em busca da confirmação, na capa com letras colossais do Jornal dos Sports, da contratação do mineirinho genial. As especulações davam conta de que Tostão guardaria uma certa inclinação por jogar no paraíso terreno das três cores. Os portugueses do Mercado São Sebastião, no entanto, içaram as velas aos ventos dos mares financeiros nunca dantes navegados e fecharam, bancando nota por nota a proposta tricolor, com o craque que empurrou em 70 o Jairzinho para a ponta-direita e o Rivelino para a esquerda. Viveram os tricolores nessa noite a mãe das agonias. Meses depois, para comoção de todos os brasileiros, Tostão viu-se forçado a interromper a carreira por não ter superado as sequelas de uma operação corretiva de descolamento de retina. O Vasco encaixou um prejuízo que lhe custou nacos de carne por muitos anos. Ganhou, entretanto, o terceiro turno do Carioca. Tinha o Tostão.
Nas noites de frustração tostaniana navegar era preciso, e o Fluminense tratou de repor a tempo certo um sopro de esperança no combalido coração do torcedor. Sonho morto, sonho posto. O mesmo diário cor-de-rosa que negou a capa que tanto esperaram os tricolores trouxe o alento: Gerson, Artime e Ary Hercílio. Gérson, o imortal Canhotinha de Ouro, o homem que fazia dos pés mãos e transpunha, em trajetória de geometria sinuosa, a bola de seus pés-mãos para o bico da chuteira do ponta-de-lança a ter pela frente apenas um goleiro perplexo. Gerson desmoralizou o conceito de distância, levando-nos a não perceber diferença entre quatro e quarenta metros. Inventou a distância e tempo dislexos. O Canhota fazia o que fazia entre uma e outra tragada no cigarro que lhe abreviou a carreira. Gerson era mortal. Assim como seu vício para um atleta. Tendo sido bi-campeão paulista pelo São Paulo, voltava ao Rio aos 31 anos, sempre genial, mas agora com suas limitações atléticas expostas à luz da realidade. Artime veio da Argentina para o Palmeiras cavalgando ruidosa reputação. Não foi mal no Parque Antártica, mas definitivamente não era aquele Ovomaltine todo. Fracassou retumbantemente. Ary Hercílio, o apêndice discreto do pacote, mostrou-se um aplicado zagueiro, juntando no mesmo baú de competência o vigor típico dos jogadores gaúchos e uma técnica de não se lhe virar o rosto. O Fluminense ganhou o segundo turno, mas voltou a perder, na última partida do triangular final, a decisiva, para quem nunca se deve perder. 2 x 1. No Brasileiro do sesquicentenário, andou trôpego pela tabela, abreviando a tépida campanha com uma derrota para o Atlético Mineiro em um Maracanã cético, no que fazia muito bem em ser cético. Não apenas perdeu o Fluminense em 72 o que não podia no campo perder. Perdeu para sempre Ary Hercílio, tragado por uma onda na encosta da Niemeyer, enquanto pescava com amigos.
1973, portanto, nascia pela esperança rediviva de um frustrado 72. O Fluminense trazia de volta o emblemático Zezé Moreira, com seu portfólio de glórias tricolores castigado pela implacável ação do tempo. O rigoroso Zezé, embora pilotasse uma pífia campanha no primeiro turno do Carioca, fez valer sua mística de no Fluminense acertar mesmo errando: seu aval foi fundamental para que o tricolor trouxesse para Laranjeiras um dos ícones de sua história: Antônio Monfrini Neto. O Manfrini. O Manfra. Manfrini despontou para a opinião pública brasileira naquele timaço da Ponte Preta que foi vergonhosamente garfado no Paulista de 70. O Manfra estava em boa companhia na Ponte de 70. Waldir Peres, Nelson – o Nelsinho Batista -, Samuel, Teodoro, Roberto Pinto, Alan, Dicá e Adílson. De lá, Manfrini fez escala na Academia do Palmeiras, onde o moleque de 20 anos dividia o quarto com Ademir da Guia. Nos tempos pré-Lei Pelé havia a figura do empréstimo com passe fixado. Assim, foi o Manfra desembarcar no Parque Antártica. Ganhou prestígio em um elenco de fazer lamber os beiços do mais xiita dos puristas do à época nem tão velho esporte bretão. Ao fim do empréstimo, o Palmeiras demonstrou intenção de exercer seu direito de adquirir o passe, no que bastava depositar o valor acertado em contrato. O Fluminense agiu rápido e procurou os dirigentes da Ponte e do Palmeiras, formalizando seu interesse na contratação do Manfrini. A proposta era muito mais vantajosa para a Ponte e para o craque. O Palmeiras não criou embaraços, e o Manfra foi tratar de cumprir seu destino, aportando à terra prometida de Laranjeiras. Antes, no aeroporto, Manfrini desceu a escada do avião acompanhado de um senhor feliz e esquivo pela emoção. Zezé Moreira reconheceu-o de chofre: “Guimarães, o que é que você está fazendo aqui?”. O senhor agora identificado respondeu: “Vim acompanhar meu sobrinho em seu primeiro dia nas Laranjeiras. Eu sou tio do Manfrini”. Guimarães havia jogado com Zezé na década de 30, no Fluminense, é claro. Quando a jovem revelação já despertava interesse em quase todos os grandes clubes brasileiros, o Guimarães ensinava ao sobrinho: “Você pode jogar em qualquer clube brasileiro, mas não há nada igual ao Fluminense”. Sábio conselho.
Embora o Manfrini já chegasse jogando um bolão, o Fluminense foi muito mal no primeiro turno do carioca, a Taça Guanabara. Uma extraordinária geração estava envelhecendo, e o mestre Zezé reagia a entender assim, talvez por em outro nível estar vivendo o mesmo drama. Mas nem o legendário Zezé resistiria à fúria vitoriosa do Fluminense dos anos 70. Caiu ao fim do primeiro turno. Aproveitando uma longa excursão da Seleção Brasileira, o Fluminense, já com Duque substituindo Zezé Moreira, partiu para a África em uma turnê que a muitos pareceu chacota. Voltou de lá com as revelações Pintinho, Cléber e Marquinho no time titular. Os fabulosos Denílson e Gérson deram passagem ao bloco dos meninos. O tricolor voltou tinindo da África, ganhando o segundo e o terceiro turnos. Muitos creditaram o sucesso daquele time à coragem do Duque em barrar o Rei Zulu e o Canhotinha de Ouro. Outros a simplesmente a essa barração coincidir com a subida de uma geração singular, Pintinho e Cléber à frente, e à chegada do cracaço Manfrini. Poucos, os iniciados, andaram depositando o saldo na conta de uma hipótese menos tangível, embora respeitável por se tratar de versão com um pé naquele mundo desconhecido das gentes, que faz as gentes descartarem a ciência em troca de um bom em-nome-do-padre: o pai-de-santo que, levado por Duque, batia ponto nas Paineiras sempre que o Flu se concentrava. Havia entre os jogadores – um dos mais importantes – um que fazia as vezes de cambono do hômi. Cambono é uma espécie de tradutor daquele dialeto típico dos pais e mães-de-santo. Era o babalorixái dizer “Mizifio, se acuenda, tem mona no teu caminho fazendo ebó prum mais suncê ficá nas mão dos casaca branca”, e o craque-cambono imediatamente decifrar: o pai está dizendo que tem uma mulher apaixonada por você que está fazendo trabalho de oferenda para você ficar doente. Era dito e feito. A tudo o que o pai dizia, em tudo alguém se identificava. A grande final era contra o Flamengo, ganhador da Taça Guanabara. Na véspera do jogo, era indisfarçável a apreensão nas Paineiras pela chegada do pai-de-santo, e nada de o hômi chegar. Duque fazia sulcos no chão do lobby do hotel de tanto andar de lá pra cá. E passou tempo, e passou tempo à medida que o tempo se faz muito mais tempo do que é tempo em verdade quando se está ansioso. Foi um alívio monumental a chegada do arauto das novas. E o hômi foi falando aquelas coisas que geralmente eles falam pra aquecer as turbinas dos espíritos. E o Duque, a cada volteio de conversa mal acabada, insistia, clamando ao pai: “E amanhã? A gente ganha ou não ganha?”. Depois de um preâmbulo de lembrar Fidel e depois de muito perguntar do Duque, o pai-de-santo enfim pareceu que ia dar uma pista: “Amunhã, mizifios…” – deu uma enigmática risada em intervalos curtos, todos morrendo de aflição, esperando pelo decreto do além: “Qunto fuoi o jungo de ocês premêro traspassado?”. Todos olharam pro cambono: “Ele está perguntando quanto foi o nosso jogo com o Flamengo na primeira final do ano passado”. Duque respondeu: “5 x 2 pra eles, e amanhã? e amanhã?”. O pai respondeu: “Bem, bem…chega perto”. Peço desculpas ao leitor, mas devo aqui interromper este relato a bem do cuidado que se deve ter quando nos é dado mexer com essas coisas das razões da crença. Não é o narrador quem deve revelar o que o pai disse naquela noite. Tudo à sua hora.
ATO 3
A FINAL: O FLA X FLU DA CHUVA
O telefone tocou na casa do Meira às oito da manhã. O primeiro sinal invadiu o sono do Meira com jeitão de intromissão ao sonho, se sonhando o Meira estivesse, e de fato estava. Um ruído longínquo de magreza diáfana. O som distante foi se transmutando em ruído, em barulho, em estrondo. Meira atendeu: “ Pô, Edegard, cê sabe que eu fiquei na redação até quatro da manhã, trabalhei como um cão. Você falou comigo às três e meia, eu até estranhei quando cê ligou pro jornal àquela hora. Que que houve, cara? Tava dormindo”. Edegard estava audivelmente ansioso: “Desculpe, cara. Meira, mermão, eu não dormi. É muita tensão, cara. Você sabe que tenho uma rotina draconiana, durmo toda noite às dez e acordo às quatro e meia, mal encontro tempo para engolir um polenguinho e tomar um copo d’água. Mas hoje, quando acordei atrasado e resolvi ir de carro pra Adrianópolis, danei de por ansiedade passar pelo Bellini. Vi lá uns malucos subindo na estátua e uns quatro ou cinco caras com a camisa do Flamengo rindo deles. No alto do Bellini, como a pisar a cabeça do Bellini, tinha um homem muito velho. O homem velho chamava uns tais seguidores e falava de uma noite que seria a noite de todas as noites. Eu vi o velho, Meira, ninguém me contou. Perguntei para aquela gente por que estavam rindo e eles me disseram que os malucos estavam subindo na estátua porque se sentiam chamados por um homem velho, e eles não viam homem velho nenhum. Mas eu via, Meira, eu via”. Meira estranhou: “Edega, cê tá bem, cara?”. Edega já se despedindo: “Eu sei que você está estranhando, mas depois a gente conversa com mais calma, tenho que ir pra reunião. Mais tarde lá no boteco de sempre, às seis horas, falou?. “Tchau, Edega”, voltou Meira a seu justo sono.
Chovia a chuva de todas as chuvas naquela noite. O Fluminense começou o jogo de forma implacável. Manfrini e Toninho, em gol à la Carlos Alberto contra a Itália, decretaram um solene 2 x 0 ainda no primeiro tempo. No segundo tempo, já depois dos 30 minutos, o Flamengo empatou o jogo com dois gols seguidos do Dario: 2 x 2. Dadá Maravilha não podia escolher noite pior para, desengonçado, ousar fazer dois gols no time do Manfrini. Dois minutos depois do segundo gol do Flamengo, a metade do coliseu que circundava a grama-água assombrou-se ao ver a bola do Manfrini, após o craque desvencilhar-se do goleiro rubro-negro, sair de seus pés e preguiçosamente caminhar na direção do gol vazio dos flamenguistas. Aqueles quatro segundos que transcorreram entre o tapa do Manfrini na bola e a bola entrando mansamente no gol do Renato foram os mais longos quatro segundos da história dos homens e das mulheres. Nem os quatro segundos da expulsão de Adão e Eva do Paraíso, ou que levaram os jacobinos para ajeitar na guilhotina a cabeça de Maria Antonieta, ou para que se abrisse o Mar Vermelho, ou para que César se encorajasse a atravessar o Rubicão, ou para que Sísifo redecidisse descer o morro para trazer novamente ao cume a pedra. Nenhum desses quatro segundos consumiram as três eternidades dos quatro segundos daquela bola do Manfra. Entre Manfrini e a metade do coliseu assombrado, na duração secular daqueles quatro segundos, Manfrini reviu um vulto de infância, mas ali só lhe restava correr em direção aos que lhe ofereciam todo o amor que lhes cabia no peito, dançando a mais linda das valsas ferozes. Quando Dionísio, honrando o deus mitológico, fechou o placar – 4 x 2 -, as rádios, em histeria, já alertavam os torcedores sobre as condições diluvianas que cercavam o Maracanã. As águas já haviam chegado a um terço da altura do estádio.
Quando as águas iam tomando o interior do estádio, um fragmento de imagem em forma de madeira cônica precipitou-se ao topo das águas, e em seguida viu-se que o fragmento era mesmo a proa de uma imensa arca. Sobre a arca formou-se de fagulhas cintilantes a figura de um homem muito velho. Disse o homem velho para que nenhum ouvido deixasse de ouvir: “Antônio, guardaste a máquina onde lhe recomendei guardar, no único lugar onde cabem um rato e um mamute, uma folha e uma floresta, um grão e um silo, uma gota e um lago, uma pedrícula de areia e uma duna: na imaginação. Somente tua fé persistente te permitiu recuperar a máquina e fazê-la projetar o ambiente redentor em meio ao mar que separou a tua gente das hordas heréticas. Junta o teu povo e sobe a rampa da arca. Para os seguidores da Nação todas as noites serão esta noite: a água morna dos exaustos, o consolo dos que sofrem, a cama dos angustiados. Não haverá mais dor ou alegria que a esta noite não remeta o pensamento dos que foram salvos com o fim de dar continuidade às gerações sucessoras de Oscar”. Do centro de campo levitou por um cilindro de luz carmim a figura santa de Antônio, Antônio Monfrini Neto, o Manfrini. Os tricolores o seguiram em procissão e deram entrada à arca. Edegard e Meira se entreolharam e sorriram e caminharam em direção à arca.
Manfrini estava em seu sítio anos depois daquela noite. Fazia tempo que clamava por pelo menos mais uma aparição do homem velho, por não ter o homem velho sanado uma sua dúvida, um enclave de dúvida em um coração pleno de fé. De tanto desejar ver o homem velho, naquele fim de tarde em seu sítio, um pouco antes de o sol se esconder lentamente atrás de um dos morros que limitavam o vale que era a extensão de seu sítio, Manfrini reviu os mesmos fractais da infância e daquela noite. Era o velho. Disse-lhe o velho: “Antônio, provei-te pela fé. Depois, pela paciência. Agora venho a ti para iluminar o que há de escuro no enclave de dúvida que o atormenta em seu coração pleno de fé. Pergunta-me”. Manfrini, ainda receoso de ver sua fé posta em dúvida, pediu licença para indagar do homem velho: “Homem velho, na véspera do Fla x Flu daquela noite que todas as noites serão, um homem místico visitou nossa concentração e nos disse que seríamos campeões ganhando por um pouco menos do que o Fluminense tinha perdido na primeira decisão do ano anterior. Ele acertou em cheio. O senhor, homem velho, estava lá?”. O homem velho sorriu discretamente como sorriem os que sabem que o saber não é apenas parecer saber: “Antônio, eu sempre estarei onde o que não se explica estiver. E onde estiver o que não se explica, você estará, pois ambos somos Antônio”.
Consta que hoje o menino, o jovem, o adulto e o homem velho coabitam o mesmo cavalo em uma tranquila rua da Mooca. E toda noite Manfrini sorri para o céu a procurar em cumplicidade a bênção de Antônio, seu saudoso e querido pai. E vai dormir o sono dos castos. De lá o facho de luz de todas as noites que são aquela noite visita o sono dos seguidores em lares, pousos e aflições.
E nunca mais se contou ou se contará a história das chuvas sem que se deixe de contar a história daquela noite.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão