Um certo dia que já não se conta no tempo, dirigindo uma empresa, fui provocado pelo meu RH, que queria porque queria convidar uma dessas figuras fáceis do embuste cultural que é a temática motivacional. Acabei cedendo, e o pior, forçado a constrangidamente abrir os trabalhos e ouvir da mesa o desfile infindável de obviedades burras e burrices óbvias. O palestrante motivacional adotou como tema o livro “O maior vendedor do mundo”, de um tal de Og Mandino.
Meus minutos tornaram-se insuportáveis horas em que meu constrangimento era continuamente seviciado por golpes e mais golpes de cretinice.
No fim, pensei em pedir desculpas aos funcionários. A merda é que todos eles me deram parabéns.
Fui pra casa conflitado com o sentimento do mundo, cada vez mais longe das mãos, e só me recompus pela dose solitária de uísque que me trouxe de volta ao meu mundo silencioso e desmotivacional.
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A gema do Alceu Valença é juntar no mesmo sapicuá, tecnologia, concreto, armorial, cordel, harmonias delicadas, melodias complexas, fibrilações das orações dos minaretes, o sumo da cultura popular, o grito dos solitários e deixados, a angústia dos desencontrados.
Imenso.
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O espírito do feriado é imorrível, dança transcendentemente feito um bailarino de paina na bruma desesterçante que não me despovoa, sua véspera flutua na passarela esgarçada de minha mais perturbadora angústia.
Sempre será véspera de feriado enquanto os feriados ainda forem antecedidos por vésperas. E as ruas se inundam de pressa de ser feliz, deslocada de mim.
Cumpro-as com desconforto vivencial.
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Filhos, em geral, só ouvem conselhos dos pais quando os tomam para aconselhar seus filhos. Mas, caso me pedissem, ainda sabendo que apenas com o tempo os tomarão em conta, passo-lhes uns poucos cuidados:
– Persevere, mas sem ansiedade. Ainda que algo pareça intransponível, a pressa só reforça essa impressão. E desconfie, quando se sentir perto de transpor;
– Inquiete-se intelectualmente, mas nunca ao ponto de inquietar-se por histrionismo;
– Guarde os amigos no altar de seu afeto. Jamais se esqueça de evocá-los ainda que por um pequeno gesto;
– Mantenha-se em estado de atenção para reconhecer um cretino. Reconhecendo-o, fuja dele;
– Beba bons vinhos, mas fixe um limite para comprá-los;
– Deleite-se com as irrelevâncias saborosas, mas afaste-se de quem faz delas algo sério;
– Saiba que aquela dose de saideira é pelo menos a segunda a mais do que deveríamos ter bebido;
– Jamais vote em um candidato que lhe pareça mimetizar todas as qualidades que pensamos difíceis reconhecer em nós.
O resto vem.
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Futebol é apaixonante por sua capacidade de recorrentemente cutucar o impossível com vara curta.
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Em “Sandra”, Gil disseca a fragilidade masculina com uma estrofe confessional e provocante:
“Azul, porque azul é cor, e cor é feminina
Eu sou tão inseguro porque o muro é muito alto
E pra dar o salto
Me amarro na torre no alto da montanha”.
Faz bem o Gil: é lá onde estão as mulheres.
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Meu claustro voluntário me isola do que lembro renitente, do Maracanã hoje ceifado pela cobiça que o desfigurou de minha melhor memória. Queria abraçá-lo, tomá-lo velhinho em meu ventre confuso de espasmos de epifania.
Do meu catre difuso vejo as lembranças se refundirem no avesso da varanda, enquanto bebo agonizante o mosto de minhas melhores uvas.
O Maracanã mora comigo, mas sei que vou perdê-lo sempre que o arrancar do avesso da minha varanda.
Mas há tempo que vai e tempo que chega.
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Barcelona grita surrealidades. Não há um plano da cidade em que não urre um impulso criativo que se desencaixa de nossos padrões cartesianos.
Barcelona assusta pela razão enviezada, sua têmpera nos aproxima de nossos espantos, e cada espanto nos faz reencontrar o que nos justifica pelo caminho torto, o melhor caminho.
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Quandinvez a chuva arreda de chover onde se chove por conta de improviso e se enfurna desquieta pelo céu de sol e luz do Rio. Indassim, o Rio tira de letra e se embonita de cinza garrado no mar lambendo montanha. A cidade se introspecta e se revela feliz e grandiosa pelo avesso de sua essência. Linda.
Cariocamente turva.
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A pior forma de sofrer um amor subestimado é a perda de um dos pais. Não é da nossa natureza subestimar o amor por filhos, somos marcadores genéticos, projetamo-nos tribais em nossa continuidade. Perder um filho é devastador, jamais subestimamos em vida o peso himalaio dessa perda. Mas quando se perde um dos velhos, não vem só a culpa de não lhe sermos explícitos quando os temos, vem a dor incurável de não mais alcançá-los por um gesto de entorno, de termos jogado no acostamento do destino a oportunidade de dizer-lhe o quanto seu amor nos era vital.
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Segundo o jornal britânico Daily Mail, pesquisadores descobriram que idosos que bebem uma quantidade moderada de álcool possuem 30% menos probabilidade de desenvolver demência e 40% menos chances de sofrer de Alzheimer do que aqueles que não consomem.
Pra mim, sem novidade: conheço vários abstêmios que se esquecem de tudo, principalmente de ser felizes.
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Sempre me esforço para não me indispor com a Argentina. Amo Buenos Aires; a literatura deles – Cortazar, Sabato, Casares, Borges; a música de Piazzola, Leon Gieco, Kevin Johansen, Charlie Garcia, Fito, Soza; o cinema, o melhor do continente; comida; futebol. Tudo isso com etc.
O povo é instável, mas um país que produziu fenômenos históricos como as Mães da Plaza de Mayo e o julgamento dos gorilas assassinos da ditadura militar pode dormir com a consciência tranquila.
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Ao fim, volte ao começo.
…dante tem com o amor um elo, e ama tal um cabo que se faz istmo ao contato, sem tato, entrega-se e busca o âmago, quando a prudência recomenda a órbita, aventura-se destemido ao acaso perigoso, doma o imponderável com volúpia, e ama solenemente, em plenitude planetária, visita o abismo e conta os passos que lhe adiantam de quem contido o observa entregar-se ao risco, e ama inteiro e uno, projeta-se em caule fino como a torre de Seattle, e incha o cume com sentimento transbordante, nada o apavora, só o caminho da volta, mas envolve a pedra com um abraço e, Sísifo, rebusca o topo, e ama sofregamente, borbulhante tal Eno em Coca-Cola, incapaz de mentir a si mesmo, aceita a verdade não como um fardo, e ama um amor ultramarino, e por içar velas no sentir jusante, lambuza-se de antioxi…
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Inicialmente os xenófobos se isolarão em seus países; em seguida, em suas cidades; depois, em suas ruas; mais um tempo, em suas casas; por fim, no âmago de suas torturas mais íntimas.
E o planeta serão oito bilhões de Galápagos.
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O ócio é o melhor legado de Deus.
O trabalho é o intervalo que purgamos para voltar à eucaristia do ócio.
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Mentira deslavada afirmar que a vida do idoso não tem emoções.
A tensão excruciante a cada 3 meses pelos resultados dos exames, o olhar do médico para o monitor do eco e da chapa da tomografia, o tamanho das mãos do proctologista, a sudorese na farmácia pelo aumento dos remédios, o medo de que o genérico não produza efeitos, o terror de subir num banquinho para trocar uma lâmpada, o estresse por ter que se abaixar para pegar o que deixou cair das mãos e sempre vai para debaixo da cama ou da bancada da cozinha, o pavor de perder uma promoção no supermercado quando já se está no caixa pagando as compras, o horror de alguém querer conversar no elevador, a manobra terrivelmente arriscada ao precisar atravessar uma rua fora da faixa, o pânico de ser atropelado por uma moto que não respeitou o sinal, a paúra de ser reconhecido por alguém que não vê há anos e esse alguém por nós desconhecido mostrar por uma intimidade desconfortante que sabe tudo sobre nós.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão