Há um ponto em que os músculos se distendem para além do limite de nossa compreensão de afeto ou dor. E somos expelidos úmidos e contraídos, irrompendo inseguros num mundo de luzes e estrépitos que nos fazem saltar inespontaneamente sobre o imprevisto. Deixamos a caverna tépida e envolvente, morada de nove meses. E para lá queremos por toda a vida voltar, ainda que pela ponte do colo ou saudade, quando a angústia em seu rito implacável teima irromper.
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Quando quero me lembrar de minha mãe, ouço “Mother”, do John Lennon. Ouço e mergulho assombrado no caudal dos urros do fim da música. Angustiante a sensação de desorbitar de um núcleo, de saber que os pais não estão mais ao alcance dos braços curtos de nossas aflições.
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Faz anos que não tenho a companhia da minha mãe no Dia das Mães. A família orbitando orgulhosa sua presença, todos protegidos e tocados por seu amor. A casa recendia cheiros de sua alquimia particular. Tudo meticulosamente arrumado e impregnado de doçura e rigor. Era o dia dos seus dias. Nós a reverenciávamos em seu rito de ser mãe em exercício pleno, com os seus sob suas asas hígidas e irradiando felicidade de epifania. Reinava, por sua presença, uma sensação de segurança que mantinha os medos à distância segura de nossas fragilidades. Os doces fechavam a festa, com açúcar medido e afeto desmedido.
Todo ano, visito a saudade dela e desses dias dela, que só ela permitiu acontecerem como exata ou fugidiamente me tocam as lembranças.
Feliz Dia das Mães a todas e todos que são mães por se sentirem assim.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão