Desconexas 12

Deus é piedoso, mas de bobo não tem nada. Volta e meia arruma a gaveta.

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Sou bolado com esse conceito de cidades cosmopolitas. Nas cidades cosmopolitas as minorias vivem em guetos mais ou menos dissimulados. A cidade cosmopolita é uma invenção do cinismo contemporâneo, onde é mais fácil ser moderno que sincero.

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Um país não é um país apenas por suas fronteiras, ele é a demarcação territorial de animais em savanas. É tudo o que somos. Não há pragmatismo de CVCs em aviões fretados que nos afastem dessa ideia de que somos territoriais.

Somos sempre estranhos ao pisar território alheio, ainda que lá deixemos dólares de prazer e estupefação.

A grande revelação da modernidade: a ancestralidade inevitável, um mundo reduzido a um complexo cadinho de culturas defensivas.

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Nada é mais efêmero do que pensamos eterno, mais vulgar do que pensamos sofisticado, mais etéreo do que pensamos massa, mais amor do que pensamos sílaba.

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Não desejo apenas ser feliz, desejo me encontrar em cada lapso dos desencontros.

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Se alguém ama um amigo, esse alguém tem tudo pra ser feliz. Se ele ama alguns amigos, é feliz.

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A saudade nos imprensa contra o infinito. E vivemos o martírio de não encontrar paredes.

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Voto é impulso esquizofrênico. Ninguém são dorme com um átimo de arrependimento por estar defendendo o que lhe parece certo, sendo esse certo um incerto, essa certeza, um vão.

Naquele cubículo, diante daquela traquitana, somos céu e inferno, capeta e Deus, donos de nós mesmos, ou de o que quer que seja ser nós mesmos.

E saímos de lá para viver, que já é tarefa de monta.

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A felicidade, para muitos, é mais obra da sombra que da luz. É mais fungo que girassol.

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A Barra faz da solidão contraponto teimoso; do isolamento, uma enganosa carícia; dos seus pores de sol, um instantâneo de delícia.

Sua imensidão abarcante impõe um cáustico impressionismo, um Monet esquartejado em vida planejada. Tudo é mecânico, encontros são diluídos por sua geografia impraticável.

A Barra é morfologicamente transitiva, embora intransitiva em dimensão humana, selva de vaidades vazias.

Nem sempre fim, o intransitivo pode ser passagem para o que não sabemos. Aí mora o risco.

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Pessoa já nos ensinava que nossa pátria é a nossa Língua, a maravilhosa língua portuguesa. “A última flor do lácio”, de Bilac.

Numa língua tão generosa de entonações, flexões abusadas, expressões criativas e léxico desbravador de sensibilidades, não há dúvida que nossa palavra mais rica é Petrobras.

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Do jeito que estão as coisas: o futuro, adeus, pertences.

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O Brasil tem metade de sua população em crime de evasão pela informalidade, e a outra metade pelo excesso de formalidade cínica.

Não há democracia se alguns são presumidamente inocentes, e outros, preconceituosamente culpados.

Continuemos vendendo nossas muambas, armando nossos gatos, comprando em camelódromos, pagando milicianos, e corramos para o abraço civilizatório.

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Há noites em que uma garrafa de vinho lembra jogo daquele Barcelona do Guardiola: acaba rápido.

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A razão é fugidia, luta inglória. Já a incerteza, o cofre mais seguro para se guardar a razão.

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Deus criou o pão francês, o diabo o fez hipercalórico.

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O mundo está de um jeito que quem não tem a menor ideia do que vai acontecer, está bem informado.

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Como é bom o velho disco Mr Tambourine Man, dos Byrds.

Passei anos sem ouvi-lo, mas revisitá-lo me fez bem. Frescor e musicalidade surpreendente num folk beatleficado.

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Para as coisas boas da vida, quando falta muito, é pouco; quando falta pouco, acaba.

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A solidão é o caminho mais curto para a compreensão plena da companhia.

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A lua na minha varanda é um quarto de lua, metade da metade que me remeteria ao quarto de onde não veria a lua.

E seria inteira, já que o inteiro do nada é a ausência do todo.

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Rio

Cinzas

Ao fim da tarde

A brasa arde

Sem alarde

Sobre o mar de

Infâmia e Rio-card

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Gosto mais de lua que de sol. Sou noturno e vago. Mais absorto que atento, mais concha que golfinho.

Se sol fosse bom, não precisava de protetor.

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Ainda que tenha contribuído para a construção da arte e do pensamento do mundo com expressões do melhor timbre civilizatório, o francês é melhor em manifestação que em guerras. Mesmo o imenso Napoleão se curvou a Wellington, em Waterloo, numa espécie de zebra de preencher enciclopédias. Ocupada várias vezes por povos estrangeiros, a França desenvolveu um paradoxo em que cultura sofisticada e ódio racial convivem desconfortáveis como os clochards do Champs Elysée. E nem o fratricídio das luzes da Bastilha os curou.

O francês, antes de dar exemplos indignados, precisa se curar de seus ressentimentos e maus humores, que, à luz de uma visada histórica rápida, podem esconder uma certa propensão à prepotência vazia.

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Fanáticos perigosos são os bem educados, fartos em gestos de civilidade, bons vizinhos. Podem ir de manhã à igreja ou mesquita, orar por bons princípios e sair à tarde para um ato de barbárie, como quem vai à esquina comprar pão ou jornal.

São assim os psicopatas, com suas dissimilitudes sociais que os tornam queridos e estranhamente sedutores. Acolhem-se em superegos que lhes servem de cidadela moral, refúgio de suas sevícias existenciais mais inalcançáveis pela lógica comum dos que serão por eles punidos.

O perigo da pedra mora na água.

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A Grande Vitória, a vitória das vitórias existenciais, não é renascer da catástrofe, é submeter a catástrofe à órbita de sua dimensão fria. A Grande Vitória é pescar sentimento em mar de aridez. Mais Bagdá Café que Godzilla.


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Comentários

2 respostas a “Desconexas 12”

  1. delicia. Nem sempre doce. Mas delicia

    Curtido por 1 pessoa

  2. Como amo as Desconexas!! Sempre um enorme prazer desfruta-las!😍

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Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão

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