Goiânia fica a 200 km de Brasília. É pouco e muito no correr de vontade. Estrada é boa, com uma tropa de cantim sestroso pra esticar as pernas e tomar um café com jeito. Parava no Jerivá, onde a pamonha já fora menos instável, mas o pão-de-queijo, crosta firme e miolo mole, era de caráter. Tem por lá o empadão goiano, onde cabe tudo quanto é sansa que brotar da imaginação. A massa é armada, diferente da podre, que suja a camisa e molha a boca de desejo, tal a desfazenta do Bracarense, a anunciar o chopp protocolar. Por tempo de conta fui vizinho do famoso botequim da José Linhares. Por tempo de mais em conta, cumpria roteiro litorâneo, do Leblon a Guaratiba, por função de umas empadinhas de camarão que num cabem num elogio de palavra. Mas isso era no Rio, de onde naquela época pisava longe, embora o mantivesse chegadim como apego, à distância de um cafuné furtivo.
Fazia a estrada de Goiânia com insuspeitada frequência. Goiânia é uma linda cidade, que se expande generosa em círculos concêntricos e abriga gente de andar manhoso, avenidas densamente arborizadas, parques exuberantes, e filhos-de-Deus à mancheia nas universidades. Hospeda o mais importante acervo de arquitetura Art Decó das Américas. Capital planejada de um estado que nos trouxe José J. Veiga, Bernardo Élis, Siron Franco, Cora Coralina, Poteiro, Bariani Ortêncio, Ana Maria Pacheco, Gilberto Mendonça Teles, Chaul e tantos importantes criativos brasileiros. Há por lá um intenso clima intelectual, com florescimento intermitente de gerações de artistas e pensadores. O diabo é que o Brasil num pensa assim, e liga Goiânia à função de metrópole fermentadora da conspurcação do caipira do Grande Sertão, que são os sertanejos românticos, com seus trajes engrifados e suas gritações em decibéis hiperbólicos. Engano de monta. Ia a Goiânia por gostar desse ir. Meus filhos reclamavam quando num iam. Mas ia por vontade de mim.
A estrada demandava, com a pressa domesticada pela idade, umas boas duas horas do dia ou da noite. Ia e voltava rapidim. Mas demorava, se assim preciso, e gostava de penca quando era assim. Dessa vez, a vez de que trato aqui, fui por função de bate-volta, viagem de tempo curto, por finalidade de desfrute passageiro. Fui pra ver de perto uma de minhas admirações mais caras: Odair José. Show ao vivo, de pertim, num xópim, com direito a tapinha nas costas no camarim improvisado na artéria possível sangrada no entremear de butiques da hora. Embora ouça com frequência o bardo do lúmpem, nunca lhe havia assistido ao vivo. Lembro-me dele vez por vez rodeando o apartamento do Paulo Sergio – outra voz pungente do mundão de baixo – na velha rua Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, onde deitei infância e adolescência. Chegava assim por desconfiado, cabeça baixa, sorrindo sem graça pra meninada que o recebia com respeito. Estava estourando nas rádios com “Eu vou tirar você desse lugar”, um hit-esperança que ainda hoje faz lacrimejar mulher de vida vendida em qualquer corrutela brasileira. E faz macho fermentar saudade, até mesmo do que num exprimentou.
A peleja, com já tratei, era num xópim da cidade, com palco armado sob uma abóboda em remedação do domo de ouro da capital da fé abraâmica. Cheguei por tantim de tempo faltante pro que na estrada desfrutei precocemente. Era um tributo ao artista, com a participação de alguns nomes da nova geração de músicos goianos, gente de qualidade pro merecer cuidado. O Odair estava costeando a casa dos 60, se já não tivesse se achegado ou mesmo passado. Hoje já conta 76 anos, e continua inteiro. Minha curiosidade incluía a expectativa de desacobertar o que pus sob o caldo de minha desinformação. Foi espera de pouca. Arautado por um animador inspirado em motes, o quarteto que lhe serviria de base subiu ao palco e lascou três ou quatro frases inconfundíveis de uma obra maior. Nem passou tantim, e o Odair chegou como chegava na imemorial Rui Barbosa. Sorriso de num mostrar dente, acabrunhado. Mas inteiraço. Os mais de quatro de cem que o esperavam por esperar o que sabiam esperar num careceram de mais espera pela corrente de sentimentos seminais desencadeada por aquele autor imenso.
Coragem é demanda no esforço em entender o que um artista que trafega num código que não nos tangencia pode nos fazer dissonar da sensibilidade herdada por uma escala de valores centrada na tabuada do preconceito. Poucos encorajam o tocar nessa chaga mantida a chá de vó. Um desses poucos foi o Paulo Sergio Araújo em seu corajoso e inelutável “Eu não sou cachorro, não”. O livro avia tese desalinhada: os artistas das camadas populares afrontaram com muito mais contundência os valores caros aos próceres dos anos de chumbo do que os intelectuais que derramaram protesto pela via de metáforas inteligentes. Nisso o Odair foi craque. Tocou fundo em muitos de nossos cinismos renitentes. Ofereceu pela piçarra do amor uma chance às então chamadas prostitutas(“Eu vou tirar você desse lugar”), rebelou-se contra o planejamento familiar, deixando a Igreja tonta feito um Maguila prostrado diante de uma Hollyfield em assobio(“Pare de tomar a pílula”). Foi no poço das relações vassálicas de patrões e domésticas(“Deixa essa vergonha de lado”). Perdoou traições insuspeitas(“Meu coração ainda é seu”). Professou o amor pós- modernamente instantâneo(“Esta noite você vai ter que ser minha”). Desejou visceralmente uma paixão inclusiva(“Cadeira de rodas”). Confessou a pulsão irrefreável de ser alguém famoso, muito antes de um Malcovich(“Eu quero ser John Lennon”). Contrapôs descarnadamente o desejo pela paixão perdida ao rito impiedoso do desconto em folha(“Pensão alimentícia”). Antevê, num mundo eivado de referencias pecamimosas ao sexo, a perplexidade de ver um amor nu numa revista(“Revista proibida”). Confessa a opção desabrida por abandonar a família unida pelos valores gnósticos(“Vou morar com ela”). E vai por esse caminhão de pulsos irreprimidos. Terrão em que o artista germinalmente popular correu pra muito de longe da metragem dos “aceitos”. Mesmo teses à época socialmente mais delicadas como o homossexualismo foram por eles, os artistas populares, resolvidas na maré de boa. Enquanto muitos dos recém-assumidos cravaram dor e dúvida em suas almas sensíveis oferecidas ao escárnio do senso comum até que se avistassem as luzes tépidas de um novo milênio, um Agnaldo Timóteo, há 30 anos, escancarava confessionalmente o “amor que não ousa dizer o nome” em “Amor proibido” e “Galeria do amor”, esta uma celebração epidérmica aos porões da Galeria Alaska, um manjadíssimo point gay do Rio dos anos 60. Apóstolos da tolerância.
O show passou como um frêmito, e nos despedimos entoando emocionados a comovente “Cadê Você?”, já agora na companhia de mundão de gente.
Fui e voltei de Goiânia a tempo de dormir em Brasília o sonar comum doscomuns de carteirinha. Na volta do caminho, Jerivá fechado, me provoquei com incomum clareza: “Sei que não estou voltando, sei que nunca mais voltarei”.
Ave, Odair.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão