Sabbá

Ontem, 21 de abril, fez um mês da morte do amigo querido Daniel Sabbá. 

A Avenida Rui Barbosa – assim ainda hoje –  começava como extensão da Avenida Oswaldo Cruz. Solene, com os blocos enfileirados do Barão de Laguna ornados por um jardim central que para a dimensão de mundo de crianças semelhava o de Versalhes. Era rua de abastados, exceção para os enclaves classemedianos da Sede do Flamengo, Esperança e do pequenino Miguel Couto. Carros importados, raridade naqueles tempos, desfilavam em sequência interminável, com “chauffeurs” muitas vezes empunhando luvas brancas. Morava na avenida a nata da sociedade carioca, plena de sobrenomes pomposos, intimidantes, gente que frequentava as colunas sociais com a assiduidade do Neymar no universo cretinicida do Léo Dias. 

Mas na rua as regras eram outras. A molecada se juntava sem querença de sobrenome, sem abre-alas de grife chique. Todos eram iguais na rotina de jogar bola de dia e conversa fora à noite. Eram uns 30 e tantos garotos – meninas raramente desciam – concentrados nos edifícios da Sede do Flamengo e Esperança. Mas tinha gente do Miguel Couto, do Barão, do Itamaraty, do Haia e do Murça. No Murça, austero e imponente, ficava o apartamento dos Sabbá, um reinado conduzido pela beleza, generosidade e autoridade de Dona Gettel.  Lá moravam, além de Dona Gettel e do Seu Samuel, os filhos e filhas Saul, Daniel, Débora e Ruth.

Saul e Daniel eram da turma, totalmente integrados com a turba aprontadora daquele arco de inquietações. Não eram muito bons de bola. Mas jogavam a sério, o que era o bastante. Saul foi baixista de nossa primeira e efêmera banda, ao lado do Zé Luiz, Zé Sales e, na bateria, o Luís, da Sede. Daniel era meses mais novo que eu e dois ou três anos mais novo que o Zé Sales e Saul. Quando ensaiávamos no apartamento dos Sabbá, antes jogávamos botão na mesa de jantar e éramos sempre servidos por um lanche musculoso por obra e graça da Dona Gettel. Daniel gostava de bateria, e bastou um dia ele sentar conosco, sem nunca ter tocado, para ganhar a vaga de titular da banda. Já começou falando grosso.

Daniel era assim.

Daniel era magrinho, inquieto, com um carisma impressionante. Todos gostavam dele. Meus pais gostavam muito, e se aproximaram dele mais ainda quando ele passou a frequentar nosso sítio em São Pedro da Aldeia. Foram muitos fins de semana e férias inesquecíveis. Daniel iluminava qualquer ambiente feito a musa de Lupicínio, mais que a luz do refletor. 

Daniel era assim

Tudo o que ele fazia, fazia bem. Quando, aos 16 anos, meio que deixou a rua e passou a surfar todos os dias no Arpoador e no Pier, eu sempre soube: já, já vai estar entre os melhores. Foi o que se deu. E assim se deu também quando decidiu voar de asa delta. Quando o Antonio, velho amigo de infância, avisou a mim e ao Edegard sobre o Festival de Música do Franco Brasileiro, resolvi chamar o Daniel. Ele chegou 10 minutos antes e arrebentou num blues rascante que a gente tinha separado pro festival. Foi o mesmo em Carangola. Tínhamos 15 anos. O Macuco, brioso lateral do Malzbier, time da rua, avisou sobre um festival em Carangola. O Carlinhos, anfitrião das violadas de sempre, juntou a tropa e fomos pra lá no fusquinha do Michael. Daniel chegou no dia, e mesmo sem conhecer as três músicas que havíamos preparado, detonou no palco. Do mesmo jeito se deu quando invadiu o cenário do reality Casa dos Artistas para suplicar pela saída da namorada, por quem era loucamente apaixonado. O ato insólito repercutiu de tal forma que ele acabou apresentando um programa de TV que foi icônico para umas duas gerações. De longe, o mais escrachado programa ao vivo da tv brasileira. Uma delícia. Assim era o Sabbá, Daniel pra mim. Um oceano de carisma e bondade, multifacetado, engenheiro de amizades, sempre cercado por quem lhe quis bem. E foram tantos os que quiseram bem a ele. 

Daniel era assim.

Depois que ele deixou a rua, eu o vi poucas vezes, mas sempre de forma intensa. Uma vez, chegara do primeiro show do Paul no Maraca, com minha ex-mulher, para a esticada à base de pizza de camarão no Guanabara, quando ouvi o grito: 

– Betão!!!! 

Era o Daniel, sempre querido, carinhoso, gritando para todos que eu era seu irmão e que me amava. Sentei à mesa com ele e nos lembramos de tanta coisa, num frenesi estonteante e amoroso. Tempo corrido, quando nasceu um dos meus filhos, alguém disse ao Daniel que eu estava na Casa de Saúde São José. Ele chegou fazendo do hospital uma festa. Não houve uma enfermeira que por ele não tivesse se encantado. E ficou conosco até o momento de saída.

Outra vez, no santos Dumont, ouvi um berro: 

– Betão!!! 

Era de novo o Daniel. Estava conversando com o Falabella e, tonitruante, deixou claro para a passageirada atônita: 

– Falabella, me desculpe, mas entre você e o Betão, vou ficar com ele. 

E conversamos até a hora do embarque.

Daniel era assim. 

Quando há uns três anos soube num grupo de amigos que ele estava em coma após um brutal acidente de automóvel, eu desacreditei. Daniel era um sol nascente, nada nele lembraria morte. Quem era a morte para se meter com ele? Para ameaçá-lo em sua luz indesbotável? Era verdade, desgraçadamente. Daniel, declarado morto por quem o atendeu logo após o acidente, se recusou a cumprir o que por ele não foi previsto. Manteve-se vivo, contrariando todos os prognósticos. Limitado por uma tetraplegia, retorceu a limitação por uma volúpia faminta de vida. Seus amigos o cercaram de afeto e esperança. Uma luta inglória, mas transformada por ele em fonte de vida e ensinamento. 

Daniel era assim.

Pouco antes de sua crise final, dois anos depois do acidente, eu, Zé Luiz, Chico e Luiz Cláudio visitamos o Daniel em seu apartamento na Barra. Apesar das limitações de movimento, sua mente fremia de verdades e lembranças impagáveis. Já vinha fazendo lives divertidíssimas, pontilhadas por histórias contadas por seu monstruoso talento verbal. Saí de lá com a impressão de que o céu poderia ter pressa em tê-lo por lá, surfando com seu coração amoroso pelas ondas etéreas que contrastam jardins previsíveis. 

Daniel se foi como poucos se foram. Cercado de amigos leais, que jamais o abandonaram ou dele duvidaram. Até o fim sua morte era para quem o conhecia uma inaceitável impossibilidade. 

Daniel era assim. 


Descubra mais sobre Ninguém Tem Razão

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


Comentários

Uma resposta a “Sabbá”

  1. Que homenagem linda,Beto!! Tenho certeza de que onde ele estiver vai ficar feliz e muito orgulhoso! Me emocionei muito!!🥹👏👏❤️

    Curtir

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão

Descubra mais sobre Ninguém Tem Razão

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue lendo