Foi-se do plano físico o Papa Francisco, um apóstolo da tolerância.
A intolerância mora ao lado, sobe e desce o elevador conosco, nos dá bom dia e nos deseja um bom trabalho. Muitas vezes saímos de seu ventre, casamos com ela, parimos seus transmissores. Trabalha conosco, nos serve simpaticamente o almoço e guarda nossos carros. Joga conosco as peladas semanais e divide com a gente o chopp depois delas. Hospeda-se encravada nos que humilham os que deles dependem, nos que tomam os outros pela expressão de defeitos que não conseguem enxergar em si, nos que se nauseiam de cheiros que lhes são estranhos e fecham os olhos para a cena que os afronta em seus castelos.
A intolerância nos assedia com o mais dissimulado canto de sereia. Muitas vezes está em nós ou entre nós como caspa encruada ou cravo latente. Doloroso se libertar de seu entorno, tarefa para se tomar na conta de vencê-la todo dia.
Espero que o novo Papa cuide de tocar a obra de Francisco, lembrando-nos diariamente que o cerne do ensinamento de Cristo se assenta sobre a solidariedade irrestrita aos mais necessitados, aos perseguidos, sobre o amor ao planeta, sobre a prática inegociável da tolerância.
Num mundo boçalizado pela morte da empatia, pela celebração eufórica da intolerância, em que o sensível é visto como fraco, a voz do Papa Francisco foi um rochedo, um contraponto humanizado à iniquidade. Sem ele, temo por uma cordilheira de silêncio.
A humanidade sangra.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão