Goebels, uma espécie de Duda do Hitler, cravou seu nome na História por formular, sustentado em conceitos sordidamente articulados, a estratégia de propaganda do nazismo. É dele a célebre frase que instigou a metáfora planetária: “Quando ouço falar em cultura, saco logo meu revólver”. Ocupar-se de persuadir milhões de jovens pela celebração de um nacionalismo doentio, eugênico e genocida talvez não fosse o bastante para revelar a mente goebeliana. Era preciso mais um pouco, e a frase famosa disso se incumbiu. Entenda-se que alguém ocupado em dar contornos vendáveis a um projeto sanguinário não tivesse pela cultura apreço ou mesmo dela desdenhasse. A frase voa longe em sua intenção descarnada: confessa a impossibilidade de inclusão do humano numa ideologia feita para matar, enquanto, subproduto, a fronteira territorial se expanda. A frase tem lá sua graça mórbida, não estivesse a serviço da ideia que lhe deu origem.
Cultura e revólver, é certo, muitas vezes são vertentes da mesma propensão tirânica, uma se servindo cinicamente da outra, atalhando caminho, pela idolatria ou medo, para a marcha triunfal de déspotas. Muitos subjugam o outro pelo argumento convincente de um míssil nos cornos. Outros, pela extirpação de valores essenciais de um grupo social. Impor cultura nesse caso é tão eficaz quanto um artefato químico. Para nossa sorte, cultura e pistola costumam assentar-se em campos distintos da aventura humana, sem o que pastaríamos em solos inertes.
Vejamos a questão da segurança pública nas grandes cidades brasileiras. Um quadro de indefesos clamando em histeria por mão de ferro, pela admissão de um estado de guerra que trará, com sua instalação solene e pomposa, mais e mais porradaria e mortes. Se muitas vezes nos sentimos entregues ao império do Deus-dará, sequer podemos medir as consequências de sua real irrupção. Bala com bala, vai sobrar pra todo mundo, e o caos será alívio. Reduzir o drama da segurança pública a uma mera questão de força-nacional-na-favela-matando-traficantes-e-milicianos é de um simplismo grotesco. Se há drogas nas varizes das cidades, há quem as consuma no asfalto burguês, fazendo das favelas seu almoxarifado. Quais são os caminhos que levam o barato às bocas incrustadas nas vísceras de nossas novas senzalas? De onde e por onde vêm? O impulso que move o crime perdeu seu caráter romanesco, de legítima defesa da exclusão social. Os meninos que hoje procuram as margens só desejam chupar de nós os símbolos que lhes vendemos como chave para a realização social plena. Molecada, chapada de Shopee, não quer só comida: quer comida, moletom da Adidas, tênis da Nike, celular com milhões de pixels, ai-pódi e relojão enguiçado. E tomam à luz do dia diretamente de nós, na base do tio-passa-o-celular. E vão garimpar suas bugingangas nos sites da onda ou na informalidade, o país-das-maravilhas da contravenção permitida pela culpa social que inunda contrições ad-hoc. A incentivar a molecada, os barões do crime organizado trafegam pelas cidades em seus Porsches Cayennes como em desfile debochado. Instalam-se em mansões suntuosas à luz do dia. Impunemente.
Os valores em que idiotamente sustentamos nossas razões cruciais de vida são os mesmos que os movem em sua escalada social de varejo. Sacralizamos o consumo incrustando-o no templo de nossas venerações. E na cabeça dos moleques, se os maurícios e patrícias têm, “eu quero ter também, tá ligado?” A playboyzada fuma e cheira sua ansiedade até o talo, e pagamos por isso, oferecendo-lhes a senha do atalho da ascensão social. Nós lhes enviamos os sinais e iluminamos seu caminho. Depois, meu brou, babau.
Como competir com estruturas que pavimentam o caminho da inclusão social estúpida que criamos pela via fácil de etapas queimadas, que é o crime? A resposta para AR-15 é estado, é cultura. Um choque de cultura, uma revolução sincera em nossa escala de valores, um freio de arrumação na vaidade patética. Cultura como a chave para que a sociedade encontre formas atrativas de concorrer com o crime na cooptação de seus mesmos filhos. Não a cultura ornamental, mas valor essencial do humano. Respeitar e integrar nossas diferenças, explorando o fio do sensível. E isso não se trata de obra fácil no útero de uma sociedade macha, branca e homofóbica, devoradora de ícones em sessenta prestações, exausta em sua lida de enfrentar a violência doméstica, urbana, ambiental, guetizada, que lhe impingimos. Cultura, sobreproduto, ainda cria mercado, empregos, inteligência. Tem mais, bacanas. Só com a inclusão cultural, escolarizada e não-escolarizada, criaremos as bases de uma sociedade, se não desprovida do crime, pelo menos fundada em ritos sensíveis, mais aberta a não se subordinar mecanicamente a ele. Quanto mais nos submetermos à imposição do mundano babaca da hierarquia de grifes, mais nos aborreceremos por ter que andar apreensivos em nossos SUVs. Se hoje há territórios ocupados pelo crime organizado, isso decorre da cumplicidade deletéria do estado com o crime, da infiltração do crime na política, da leniência com os escandalosos sinais de riqueza dos mandarins do crime.
Reprimir se entende, mas é inócuo se dissociado de ações transformadoras de uma realidade aviltante. O governo deve reagir à tentação perigosamente óbvia de declarar guerra ao crime pela mão única da ética de Talião, imaginando servir à opinião pública, como contraponto à histeria, o prato quente do agora-o-bicho-vai-pegar. São os inocentes que vão pagar por isso. Quais foram as respostas estatísticas à duplicação do efetivo da PM no Rio e ao aparelhamento indiscriminado de jovens destreinados? Crime se combate com polícia vinculada à comunidade, bem paga, honesta e, principalmente, inteligente. E, no longo prazo, com a mão estendida de um processo contínuo de revisão de valores. Só a cultura desarma: espíritos e, em seguida, pessoas. É a insaciedade escrota que enche os coldres. Cautela com os que preconizam o monopólio da guerra quando instados pelo vezo profissional da certeza cósmica; com os que reproduzem os sestros da direita eugênica, na base de que favela a gente mete a porrada, e que segregar os diferentes pelo asco se justifica por ser apenas liberdade de opinião em outro contexto. E no carreirão do tiro em bandido vem a porrada em viado, querosene em índio, varreção de sem-teto pra debaixo do tapete de bairros engomados. Política, diferentemente dos tribunais onde vicejam idosos imersos em privilégios e garotos donos da verdade, não se resume à superação dialética de contraditórios. É entender as múltiplas e complexas verdades dos diversos grupos sociais.
Onde há verdade, há diferença.
Não entendo a barbárie como remédio da barbárie. Todos pagam. Melhor agir como anti-Goebels, sacando preventivamente a cultura diante da ameaça de revólveres. Uma sociedade desumanizada, que condena os sensíveis e os diferentes, que entende empatia como fraqueza, essa sociedade já perdeu a guerra.
O significado canônico de Jesus ressuscitado, por todos nós lembrado na celebração da Páscoa, nos fala muito mais de perdão que de ressentimento, de inclusão que de discriminação. Nos lembra que nossas várias mortes morais jamais serão suficientes para que delas não possamos renascer. Essa a lição renovada pela força imanente do exemplo de Cristo, amálgama da fé inoxidável que O mantém ressuscitando em nós há vinte séculos.
Boa Páscoa.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão