Desconexas 11

O mundo pode caber na fresta de dois corpos. Mas não cabe no latifúndio emocional dos arrogantes.

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É árdua a expiação da cretinice. Muitos descem do patíbulo pela conversão que lhes exige sacrifício e obstinação. Outros rendem-se impotentes ao véu obscuro que lhes cobre sem que por eles seja percebido. E desfilam sua cretinice por toda uma vida e ainda por todas as vidas que sucederem sua vida oca pendulando entre crenças e mitos.

Imagine um cretino e um convertido saindo para almoçar juntos. O cardápio é arroz, feijão e bife acebolado.

Almoço encerrado, os dois esbarram com alguém que lhes indaga sobre o que comeram: – E aí, como é que foi?

O cretino: 

– Arroz, feijão e bife.

O convertido: 

– Rapaz, você não imagina. O arroz, cara, o arroz tava soltinho, caindo da colher, nem duro nem mole. No ponto. Alho e sal certinhos, sem exageros. Deu vontade de comer só o arroz. Mas aí chegou o feijão. Nem grosso nem aguento. Tenro, daqueles que dá pra mastigar. Alhinho queimado, cheirinho de louro. Dos céus, cara, dos céus. Eu nunca vi um feijãozinho como aquele. E ainda levava uma carninha seca um tanto dissimulada, um jabá da melhor cepa. O feijão era tudo. Quando derramei o feijão sobre o arroz, nada foi além do certo. O feijão ficou ali, se esparramando lentamente pelo

arroz soltinho, que só faltou agradecer pelo feijão tê-lo coberto assim, daquele jeito. E o bife? E… ooooooo…….bife, meu Deus! Moreninho por fora, vermelhinho por dentro. No ponto, nem mais nem menos. Frito na chapa, com um pouquinho de manteiga só para dar a cor. Perfeito! Que bife! Eu não precisei mastigar nem um pouquinho além da conta. E a cebola! Nem mole, nem crua, certinha, certinha. O caldo da cebola frita que sobrou do bife o arroz chupou, misturando o caldo com o feijão que já tava perfeito. Que almoço, cara! Que almoço!

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Se mais além, entro.

Se mais fora, dentro.

Se mais na borda, epicentro.

Se mais distante, adentro.

Se mais peixe, coentro.

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Tem buraco que é chão, tem chão que é buraco.

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Na adolescência, I’m the Walrus, um louvor psicodélico, me explicou muitas coisas, até mesmo o que continuei não entendendo e, não entendendo, resolvi aceitar como expressão reversa do que para todos era normal. Eram tempos de Gardenal e estupefação.

I’m the Walrus me curou de qualquer bonomia.

Subi alguns degraus.

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Sempre pensei em estar em uma dessas homenagens póstumas do Oscar. Mas não faço sucesso nem morro.

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Instagram: o photoshop da alma.

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O trânsito no Rio anda tão travado que a Drogaria Venâncio está entregando remédio no carro e tem ambulante aceitando encomenda.

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O ceticismo é a artrose da alma. Com o passar do tempo, ambos inevitáveis. Mas o ceticismo e a artrose nos prestam valioso serviço ao nos prevenir, na velhice, de cantilenas motivacionais e fraturas.

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Guias turísticos, médicos, palestrantes motivacionais e cunhados quase sempre subestimam nosso senso de humor.

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Meias garrafas de vinho só servem para nos dar o dobro de trabalho.

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Condomínio é o lugar geométrico de desiguais que se forçam a vidas falsamente iguais tolerando-se dissimuladamente.

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Sou idealmente gregário mas organicamente insular. Da minha varanda, não conto metros, conto impossibilidades.

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Se por acaso alguém me vir em um shopping com camisa pra dentro da bermuda e tênis com meia de lamber canela, me internem, eu suplico.

Já não estarei respondendo por meus atos.

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Muitas vezes estendemos a mão e pensamos tocar em algo que nos transcenda, que nos liberte do patético. Mas é apenas um guardanapo.

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Sou por impulso simpático a qualquer pessoa que desminta um coach ou um pastor ou um personal trainner ou um endocrinologista.

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Sob todos os aspectos – cultural, científico, religioso, ético, etnográfico – não existe raça, apenas a espécie humana.

Quando um ramo hegemônico economicamente pretende manter o status quo pela submissão de outros ramos pela lógica da “superioridade racial”, essa sociedade está pronta para toda forma de submissão e jugo, não apenas o “racial”.

Todos pagam pela boçalidade.

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O Peru é um país mestiço, com influências étnicas ameríndias, europeias, asiáticas e africanas. Ao lado da Bolívia e Equador, mantém o quéchua – língua falada pelos incas e outros povos ameríndios – como uma de suas línguas oficiais. Seus povos primitivos foram dizimados pela sanha de espanhois em busca do ouro. Basta percorrer as catedrais constrangedoras da Espanha.

Um peruano, se não um sobrevivente, é um cadinho de influências étnicas e culturais. Cada peruano são muitos.

Peruanos, ao imitarem macacos em estádios, fazem Manco Capac se revirar sob o solo de Machu Pichu. E se prestam a um arremedo de discriminação de quem da discriminação foi a maior vítima.

Se houver arianos no Peru, cabem num Smart.

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Quando descobriram um piloto que morava há 4 meses no aeroporto de Brasília, me lembrei de um dia ter ficado quase esse tempo por lá esperando um voo da WebJet.

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Faz 10 anos que a Companhia das Letras relançou a obra completa de José J. Veiga, goiano de Corumbá de Goiás, do mesmo jeito que Bernardo Élis, outro imenso escritor.

José J. Veiga é um dos grandes escritores brasileiros de todos os tempos. Seu “Objetos Turbulentos”, um primor, foi um dos livros que mais me trouxe satisfação na leitura.

Mas toda obra de Veiga é imperdível.

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Alguns jornalistas se sentem tomados da missão cósmica  de proteger a humanidade. Atribuem-se uma importância que muitas vezes os fazem pensar acima dos outros humanos.

Só lembrando: todo veículo tem dono, e esse dono paga o jornalista com o lucro que o seu negócio aufere. Nem sempre esse lucro vem de boas práticas.

Insofismável que a imprensa tem papel crucial na construção e defesa da democracia, mas tem mais gente importante também. Dá para baixar a bola.


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