No momento em que o Fluminense se encaminha para a decisão estratégica de escolha do parceiro investidor que permitirá a transição de um modelo associativista para um modelo de SAF, oportuno se faz lembrar do peso simbólico e tangível de uma marca que se confunde com a história do futebol brasileiro.
Andaram vicejando pelo Brasil do limiar deste século várias revistas especializadas em História do Brasil. Era só dar uma espiadela nas bancas de nossas esquinas de cada dia e encontrar, ao lado de nudez explícita, glúteos generosos e bíceps anabolizados, dezenas de publicações que nos traziam Cabral e Pero Vaz em suas capas, sem que necessariamente estivessem nus. Já havia muitos historiadores escrevendo coisas importantes, mas com seus textos limitados ao restrito circuito das bancas acadêmicas. As revistas escalaram seus prestígios. Ganharam público e reconhecimento. Embora caminhássemos perigosamente para um país com o mesmo número de doutores e analfabetos, tratava-se de avanço. Bom ver historiadores saltarem do anonimato das universidades para o proscênio da vida estelar, ao lado dos filósofos verborrágicos da moda, dos influencers e das reflexões construtivistas de intelectuais do peso de uma Luciana Gimenez. Trouxeram tônus intelectual ao debate. Se o mundanismo tinha a sua Caras, nossa história que tivesse as suas. Bom para o país que não nos fechamos em manuais de autoajuda, na masturbação mundana e adulação invejosa das celebridades. Uma dessas boas revistas de História era a “Nossa História”, publicada mensalmente pela Biblioteca Nacional. Em seu número de dezembro de 2005, estampava na capa chamada de extensa matéria sobre o futebol brasileiro e suas relações antropológicas. Com nossa cultura, costumes, política, vida social e tudo o mais. Abordava as origens do clientelismo que levou futebol e política, no Brasil, a se promiscuírem escancaradamente, dando base à organização cartorial e impenetrável que ainda domina as relações de poder de nosso esporte-símbolo; destacava o uso fisiológico despudorado dos êxitos de nossos canarinhos em terras estrangeiras; lembrava a confusão sobre pátria e esporte tão bem representada pela metáfora rodrigueana “pátria de chuteiras”; investigava o elo de mobilidade social permitido pela carreira de jogador, o que enseja a construção de uma mitologia própria; mergulhava na apropriação em nossos costumes de regras formais e informais do futebol; e por aí caminhava, historiando e sistemizando as ideias naquele dialeto típico que protege a academia do risco de ser muitas vezes entendida por alguém de fora dela.
Vamos ao que interessa. No corpo da matéria, composta de quatro sub-matérias, ainda que com as restrições de espaço de uma revista, muito da história de nosso futebol era meticulosamente estudado e retratado. Tratava-se de um panorama muito bem articulado do futebol brasileiro no século 20. Dei-me o trabalho de contar as referências sobre os grandes clubes brasileiros, um indicador indiscutível de suas importâncias específicas. Adivinhem qual o mais citado? Imagino que quem vez por outra me lê já intua a resposta: o Fluminense. São expressivas seis citações, contra duas de Santos e Botafogo, estas, graças aos mitos temporais que produziram: Pelé e Garrincha. O Flamengo, tratado pela imprensa esportiva como o “mais amado do Brasil” – o que é correto – ficou numa citação solitária, e ainda assim por conta da cisão no Fluminense que lhe deu origem. Seis citações! A extensa matéria só reforçava o que sempre lembro em meus esparsos textos em fóruns tricolores e nas redes sociais: o Fluminense é a mais importante instituição do futebol brasileiro no século 20. Criado como clube de futebol, fundou o profissionalismo, construiu o primeiro estádio de concreto, “inaugurou” a seleção brasileira, acumulou dezenas de títulos, foi o único clube da América Latina a conquistar a Taça Olímpica, dominou por mais de meio século o campeonato mais importante do Brasil. Grandes, imensos brasileiros torcem ou torciam pelo tricolor original. A vida, por seus caprichos, me levou a rodar o Brasil inteiro: capitais, periferias, cidades menores e grotões. Jamais deixei de encontrar um simpático boteco, em qualquer cidade fosse, em que na parede não estivesse orgulhosamente pendurado um pôster com um ídolo ou um time tricolor. Um clube nacional, paixão de parte expressiva do povo brasileiro, o que desmentia a tese cretina e falaciosa do estigma pejorativo de clube da elite. Rotunda mentira. Sendo a maior instituição futebolística do país que venceu quatro copas no século que inflexionou a humanidade, justo se faz considerar o Fluminense como uma das mais importantes instituições do futebol mundial.
Infeliz daquele que não se reconhece na sombra que projeta. O Fluminense, pelo rodízio recente de mandarins despreparados, não consegue fugir do risco permanente de se tornar uma imensa sombra projetada por almas esquálidas. Falta-nos despejar no acostamento de nossos anos trágicos qualquer complexo que impeça a retomada de nossa vocação eterna para a glória, para a protagonização em todo avanço das instituições do futebol brasileiro. Falta-nos fazer valer em caráter permanente a força da tradição, escorarmo-nos nela como aval incontestável de nossa grandeza.
Difícil para as novas gerações perceberem o tamanho real do Fluminense. Eu as entendo. No fim do século de que o Fluminense foi referência esportiva, fomos assacados pela ação sistemática de um conluio sórdido da má-fé com a incompetência. Pagamos alto preço por isso, enredamo-nos num círculo vicioso de voluntaristas sucedendo voluntaristas. Enquanto não nos livrarmos da abnegação impulsiva, da ação nociva dos entronizados por pouco mais de mil pessoas, do mandonismo de gente muitas vezes sem nenhum preparo ou jamais testados por embates em suas vidas privadas que se julgam capazes de gerir uma instituição do tamanho do Brasil; de populistas que usando seu poder cooptam influenciadores e não respondem pessoalmente pelos erros que cometem; enquanto não nos reconhecermos em nossa importância, sem auto-piedade ou conformismo; estaremos condenados a um pálido papel diante de nosso peso histórico. O Fluminense nasceu para conquistar, lembra o axioma do gigante Nelson Rodrigues: “O Fluminense nasceu com a vocação da eternidade”. Mais: nasceu para ser o contraponto da iniquidade, da torpeza, da ignorância. Não fosse a frouxidão diante de sua importância, de seu destino de glória, da capacidade de renovar nossa afirmação, hoje estaríamos de forma sustentável em um lugar à altura da nossa tradição. Falta-nos compromisso com uma mentalidade vencedora permanente, eixo de nossa história no século passado. No novo arranjo hierárquico do futebol brasileiro não cabe mais o pêndulo de êxtase e susto. Há que se dar um basta à espiral tresloucada que nos faz ser vice da Libertadores em 2008 e quase cair no Brasileiro no ano seguinte; de ganhar o Brasileiro em 2012 e novamente quase cair em 2013; de alcançar a Glória Eterna em 2023 e patinar no Z-4 meses depois, sendo salvos do rebaixamento na última rodada. O primeiro passo implica em plantar o pé nos novos tempos, divorciar radicalmente a administração do futebol da condução do condomínio, com seus rapapés e cartórios fraternais. Descontaminá-la da cultura paroquial. E eleger, com voto presencial e on-line, um presidente que já no manifesto da sua candidatura deixe claro quais os critérios que deverão nortear a transição para um dos modelos de SAF, sendo o primeiro a impessoalidade. Urge atrair um investidor de peso para profissionalizar radicalmente a gestão do futebol. Priorizar investimentos na base, no time e nas relações com o cliente, seu torcedor. O Botafogo, liderado por empresários com vitórias incontestáveis em suas vidas pessoais, deu o exemplo de como evitar a insolvência mantendo a chama acesa. Não precisa ser igual, cada clube tem sua cultura própria, nem sei se o Botafogo dará certo sustentavelmente, mas vem funcionando. Impõe-se começar pela densidade da biografia dos que vão liderar o processo. Os líderes da transição para a SAF do Botafogo – Durcésio Mello e Montenegro – deixaram claro que não participariam da sociedade que resultasse do novo modelo. No Fluminense, pelo contrário, a participação generosa do condutor parece ser requisito. Um escárnio ético.
Ao fim, nós, tricolores, deixaremos de ser refugiados de um passado que quer se impor. Mas não deixam.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão