O que Drummond e Paulo Sérgio podem ter em comum? Vou deixar pro fim.
Folheando digitalmente páginas da rede, dei de cara com uma fotografia que lembrava um velho programa do SBT. Nela estavam Antônio Marcos, Wanderley Cardoso, Ronnie Von e Paulo Sérgio. Fiquei curioso em ver nos comentários que tipo de memória as pessoas teriam desses grandes ídolos populares. De cada cinco comentários, quatro eram sobre Paulo Sérgio.
No Dia de Finados, o túmulo do Paulo Sérgio ainda é um dos mais visitados no Rio de Janeiro. E ele morreu em 1980, há 45 anos. Muitos sequer ouviram falar do Paulo Sérgio. Para se ter uma ideia, o Paulo Sérgio entrou para a história da música brasileira por ter sido o único concorrente temível do Roberto Carlos. Ao ponto de fazer o Rei, pela única vez em sua carreira, dar um título paisano a um disco seu, sempre discretamente batizado pela força intransitiva de seu nome. Quando o Paulo Sérgio se mostrava ameaça ao intocável reinado do fundador da Jovem Guarda, a CBS lançou “Roberto Carlos: O Inimitável”. Paulo Sérgio também era capixaba, com aparência e voz impressionantemente semelhantes aos do Roberto Carlos. Mais: um carisma de abrir mares como quem abre uma lata de cerveja.
O Paulo Sérgio falava de coisas desabridamente comuns, casos de amor e perda. Mais perda que amor. Tá certo, o Roberto Carlos também falava e fala dessas coisas. Mas o Paulo Sérgio falava dos becos rugosos, cantava para as AMs dos grotões. Começou cantando em cima de arranjos crus, quase simplórios, antes que seus discos ganhassem tratamento musical acurado. Tocava a alma brasileira de uma forma devastadora para o monopólio do rei dos reis. Escancaradamente depressivo – um atrativo para mim -, chegou a lançar um disco com o título “Deixe-me Morrer”. A morte como ato extremo do amor era presença recorrente em sua obra. Um fenômeno popular avassalador.
Por essas aprontações do destino, o Paulo Sérgio foi morar no meu prédio, na Avenida Rui Barbosa, no Rio. Chegou, desceu de uma limusine dirigida por um preto de dois metros – que depois se tornou o cantor Toni Damito -, passou pela meninada do edifício, e simplesmente se apresentou. Cumprimentou-nos de uma forma generosa, simpática. Nossa primeira reação foi de estranheza. Um cantor assumidamente popular – ou brega, como queiram – descendo de uma limusine num dos bons endereços do Rio. Ouvíamos Beatles e Stones, mas aquele cara era diferente. Eu ouvia tudo. Adorava a Jovem Guarda e cultuava os artistas populares. Nem todos tinham a simplicidade do Paulo Sérgio.
Eu e mais uma trança de dez moleques mexíamos com música. Tínhamos duas bandas. Nos encontrávamos todos os dias para tocar violão e mostrarmos ansiosos o que tínhamos composto ou tirado de um dia pro outro. Dias de êxtase existencial, com a adolescência nos mimando em suas fazeções de conta. Pensamos, ainda meio que de sacanagem, em apresentar a ele uma música qualquer. Fomos além: compusemos, modéstia às favas, uma música só pra ele. O que nos animava era a simpatia oceânica do cara. Ele parou algumas vezes no topo da ladeira do prédio onde ficávamos levando um violão vadio. Sempre nos estimulava. Ficou próximo de nós. Tenho até hoje a impressão de que ele e minha irmã Heloísa andaram se aconchegando, no que ela fez bem, pois a vida é dela, e ela, espírito superior, um exemplo radical de despreconceito.
Tomamos coragem para lhe mostrar a música que havíamos feito. Pra ele, só pra ele. A música era bem gostosa, e a letra – ainda fresca na memória – começava com “Esteja onde estiver, eu quero ir como vier, eu quero ser o que não fui”. O Paulo Sérgio reagiu mais ou menos assim: “Legal, bicho, mas não é isso que eu canto, eu canto pra quem me entende. Cantando para quem me entende, eu canto pra todos”.
Naquele dia, aos 16 anos, aprendi uma puta lição de Brasil, um país em que a riqueza estonteante da diversidade muitas vezes não se faz representar pela imposição de um melting pot de casta. A alma do povo brasileiro é muito mais complexa por sua simplicidade do que a alma de sua elite por sua mímica de sofisticação. Chorei quando ele morreu.
Ah, o que Drummond e Paulo Sérgio têm em comum? O sentimento do mundo nas mãos. E mundo é mundo, vasto mundo

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão